<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625</id><updated>2012-01-09T22:49:45.111Z</updated><title type='text'>InfinitoMutante</title><subtitle type='html'>Plataforma giratória de divulgação/dispersão poética...</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>117</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-5190533791741161877</id><published>2011-12-17T18:30:00.021Z</published><updated>2012-01-09T22:49:45.124Z</updated><title type='text'>Tomas Tranströmer Prémio Nobel de Literatura de 2011</title><content type='html'>&lt;span style="background-color: rgba(255, 255, 255, 0.917969); text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #cccccc; font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-large;"&gt;ANTOLOGIA MÍNIMA&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/-bw0c7piUGww/TwNLTclkrgI/AAAAAAAAANA/inOVi-HQpoQ/s1600/anish-kapoor1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; display: inline !important; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em; text-align: center;"&gt;&lt;img border="0" height="290" src="http://4.bp.blogspot.com/-bw0c7piUGww/TwNLTclkrgI/AAAAAAAAANA/inOVi-HQpoQ/s400/anish-kapoor1.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poeta sueco Tomas Tranströmer  foi homenageado em Estocolmo, antes da cerimónia de entrega do Prémio Nobel da Literatura de 2011.&lt;br /&gt;A tradição obriga a que o laureado de cada ano faça uma conferência na Academia Sueca, porém o facto do Poeta sofrer de limitações na fala e na mobilidade (resultado de um acidente vascular sofrido há mais de duas décadas) obrigou desta vez a uma alteração do programa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O acto, homenagem à qual assistiram o Poeta (em cadeira de rodas) e a sua esposa Mónica, contou com a presença de coro de câmara El Gustaf Sjykvist, varios actores e o quinteto de câmara de Uppsala, os quais ofereceram diversas versões cantadas da poesia de Tranströmer. A voz do próprio poeta ouviu-se através de velhas gravações das suas obras e o poema «Soledad», foi dito em cinco idiomas pelos artistas presentes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguidamente, além da leitura de uma dezena de poemas de Tranströmer provenientes de diversos livros seus, o acto também contou com a interpretação de duas passagens musicais, uma de Franz Liszt e outra de Franz Schubert, dois dos autores favoritos do literato, que é também um apaixonado pela Música. Por sua vez, o coro de câmara Gustaf Sjyvist interpretou versões musicadas de outros textos do poeta como El viaje y Música lenta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-AHW7rfZzBNw/Tuzez1GMU-I/AAAAAAAAAMs/FtCTjp5DvFo/s1600/image001%2B%25281%2529.jpg" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687165411469841378" src="http://2.bp.blogspot.com/-AHW7rfZzBNw/Tuzez1GMU-I/AAAAAAAAAMs/FtCTjp5DvFo/s400/image001%2B%25281%2529.jpg" style="float: right; height: 183px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; width: 298px;" /&gt;&lt;/a&gt;O secretário permanente da Academia Sueca, Peter Englund, traçou un elogio de Tranströmer, afirmando entre outras coisas que o poeta tinha merecido o Nobel de Literatura porque "através de suas imagens translúcidas e condensadas criava o acesso a uma nova realidade". Englund disse também: "Querido Tomas, é impossível sentir-me  insignificante depois de ter lido a  sua poesia". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando foi anunciado o Prémio, em princípios de Outubro, a Academia tinha dito também que "a maior parte da precisa obra poética de Tranströmer está impregnada de concreção e de metáforas expressivas", e  que a sua poesia mais recente "tende para um formato ainda más reduzido e a um grau ainda maior de concisão". &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/-jVrMO240Bm0/TuzeNubJsHI/AAAAAAAAAMg/OqCcCKd1YEE/s1600/image001.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5687164756843671666" src="http://2.bp.blogspot.com/-jVrMO240Bm0/TuzeNubJsHI/AAAAAAAAAMg/OqCcCKd1YEE/s400/image001.jpg" style="cursor: hand; cursor: pointer; float: left; height: 400px; margin: 0 10px 10px 0; width: 320px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tranströmer é considerado habitualmente o maior poeta sueco vivo. Nacido em Estocolmo a 15 de Abril de 1931, a sua obra, maioritariamente escrita em verso livre e inspirada nas suas viagens pelo mundo e em experiencias pessoais e metafísicas, ela se instala entre o  modernismo, o  expressionismo e o surrealismo. A sua poesia está traduzida em mais de cinquenta idiomas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Portugal , estão traduzidos alguns poemas soltos de Tranströmer  – que aqui vamos editar – por Luís Costa, João Luís Barreto Guimarães e Vasco Graça Moura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Psicólogo de profissão, filho de uma professora e de um jornalista, o poeta trabalhou na sua juventude com deliquentes, incapacitados, pessoas condenadas à prisão e adictos diversos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publicou os seus primeiros poemas ainda muito jovem, aos 23 anos, quando era estudante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de meados dos anos 60, o seu trabalho repartiu-se entre a escrita e a psicologia. Como literato obteve numerosos galardões, como o Premio Internacional Neustadt de Literatura, o Germany`s Petrarch Prize, o Swedish Academy`s Nordic Prize, entre outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LISBOA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.&lt;br /&gt;Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.&lt;br /&gt;Acenavam através das grades.&lt;br /&gt;Gritavam que lhes tirassem o retrato.&lt;br /&gt;“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,&lt;br /&gt;“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada&lt;br /&gt;e lá no cimo um homem à janela,&lt;br /&gt;tinha um óculo e olhava para o mar.&lt;br /&gt;Roupa branca no azul. Os muros quentes.&lt;br /&gt;As moscas liam cartas microscópicas.&lt;br /&gt;Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:&lt;br /&gt;“será verdade ou só um sonho meu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tradução de Vasco Graça Moura&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Vasco_Gra%C3%A7a_Moura"&gt;&lt;span style="color: #666666; font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;http://pt.wikipedia.org/wiki/Vasco_Gra%C3%A7a_Moura&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://pinpincreations.files.wordpress.com/2011/02/40_anishkapoor15h.jpg"&gt;&lt;img alt="" border="0" src="http://pinpincreations.files.wordpress.com/2011/02/40_anishkapoor15h.jpg" style="cursor: hand; cursor: pointer; float: right; height: 369px; margin: 0 0 10px 10px; width: 500px;" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;em&gt;Instalação "Svayambh" de Anish Kapoor&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;LISBOA&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas subidas.&lt;br /&gt;Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.&lt;br /&gt;Eles acenavam através das grades.&lt;br /&gt;Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Mas aqui", dizia o revisor e ria baixinho como um afectado &lt;br /&gt;"aqui sentam-se os políticos". Eu vi a fachada, a fachada, a fachada &lt;br /&gt;e em cima, a uma janela, um homem, &lt;br /&gt;com um binóculo à frente dos olhos, espreitando&lt;br /&gt;para além do mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes. &lt;br /&gt;As moscas liam cartas microscópicas.&lt;br /&gt;Seis anos depois, perguntei a uma dama de Lisboa: &lt;br /&gt;Isto é real, ou fui eu que sonhei ? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;Tradução de Luís Costa&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: #666666; font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;a href="http://www.triplov.com/poesia/Luis-Costa/index.htm"&gt;http://www.triplov.com/poesia/Luis-Costa/index.htm&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;HISTÓRIAS DE MARINHEIROS (1954)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dias de inverno sem neve em que o mar é parente&lt;br /&gt;de zonas montanhosas, encolhido sob plumagem cinza,&lt;br /&gt;azul só por um minuto, longas horas com ondas quais pálidos&lt;br /&gt;linces, buscando em vão sustento nas pedras de à beira-mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em dias como estes saem do mar restos de naufrágios em busca&lt;br /&gt;de seus proprietários, sentados no bulício da cidade, e afogadas&lt;br /&gt;tripulações vêm a terra, mais ténues que fumo de cachimbo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(No Norte andam os verdadeiros linces, com garras afiadas&lt;br /&gt;e olhos sonhadores. No Norte, onde o dia&lt;br /&gt;vive numa mina, de dia e de noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ali, onde o único sobrevivente pode estar&lt;br /&gt;junto ao forno da Aurora Boreal escutando&lt;br /&gt;a música dos mortos de frio).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A ÁRVORE E A NUVEM (1962)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma árvore anda de aqui para ali sob a chuva,&lt;br /&gt;com pressa, ante nós, derramando-se na cinza.&lt;br /&gt;Leva um recado. Da chuva arranca vida&lt;br /&gt;como um melro ante um jardim de fruta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a chuva cessa, detém-se a árvore.&lt;br /&gt;Vislumbramo-la direita, quieta em noites claras,&lt;br /&gt;à espera, como nós, do instante&lt;br /&gt;em que flocos de neve floresçam no espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;DESDE A MONTANHA (1962)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou na montanha e vejo a enseada.&lt;br /&gt;Os barcos descansam sobre a superfície do verão.&lt;br /&gt;«Somos sonâmbulos. Luas vagabundas.»&lt;br /&gt;Isso dizem as velas brancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;«Deslizamos por uma casa adormecida.&lt;br /&gt;Abrimos as portas lentamente.&lt;br /&gt;Assomamo-nos à liberdade.»&lt;br /&gt;Isso dizem as velas brancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia vi navegar os desejos do mundo.&lt;br /&gt;Todos, no mesmo rumo – uma só frota.&lt;br /&gt;«Agora estamos dispersos. Séquito de ninguém.»&lt;br /&gt;Isso dizem as velas brancas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;PÁSSAROS MATINAIS (1966)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desperto o automóvel&lt;br /&gt;que tem o pára-brisas coberto de pólen.&lt;br /&gt;Coloco os óculos de sol.&lt;br /&gt;O canto dos pássaros escurece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso outro homem compra um diário&lt;br /&gt;na estação de comboio&lt;br /&gt;junto a um grande vagão de carga&lt;br /&gt;completamente vermelho de ferrugem&lt;br /&gt;que cintila ao sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há vazios por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruza o calor da primavera um corredor frio&lt;br /&gt;por onde alguém entra depressa&lt;br /&gt;e conta como foi caluniado&lt;br /&gt;até na Direcção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por uma parte de trás da paisagem&lt;br /&gt;chega a gralha&lt;br /&gt;negra e branca. Pássaro agoirento.&lt;br /&gt;E o melro que se move em todas as direcções&lt;br /&gt;até que tudo seja um desenho a carvão,&lt;br /&gt;salvo a roupa branca na corda de estender:&lt;br /&gt;um coro da Palestina:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há vazios por aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É fantástico sentir como cresce o meu poema&lt;br /&gt;enquanto me vou encolhendo&lt;br /&gt;Cresce, ocupa o meu lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desloca-me.&lt;br /&gt;Expulsa-me do ninho.&lt;br /&gt;O poema está pronto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;i&gt;(Tradução de João Luís Barreto Guimarães)&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://qag.qld.gov.au/__data/assets/image/0009/59985/varieties/Popup_800.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://qag.qld.gov.au/__data/assets/image/0009/59985/varieties/Popup_800.jpg" width="509" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color: #222222;"&gt;Void #13 Anish Kapoor&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color: #222222;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color: #222222;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="color: #222222;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both;"&gt;&lt;/div&gt;~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O penhasco da águia&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Por de trás do vidro do terrário&lt;br /&gt;os répteis&lt;br /&gt;estranhamente imóveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma mulher pendura roupa&lt;br /&gt;em silêncio.&lt;br /&gt;a morte é uma calmaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo fundo da terra&lt;br /&gt;a minha alma escorrega&lt;br /&gt;silenciosa como um cometa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Fachadas&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Ao fim do caminho vejo o poder&lt;br /&gt;Lembra uma cebola&lt;br /&gt;com rostos sobrepostos&lt;br /&gt;que vão caindo uns após outros…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Os teatros esvaziam-se. É meia-noite.&lt;br /&gt;Letreiros flamejam nas fachadas.&lt;br /&gt;O mistério das cartas sem resposta&lt;br /&gt;afunda-se por entre a fria cintilação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Novembro&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Quando o esbirro se aborrece, torna-se perigoso.&lt;br /&gt;O céu constrói-se, em chamas.&lt;br /&gt;Sinais de pancadas ouvem-se de cela em cela.&lt;br /&gt;E do solo, coberto de neve, o espaço jorra.&lt;br /&gt;Algumas pedras brilham como luas cheias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A neve cai&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Os funerais aproximam-se&lt;br /&gt;cada vez mais densos&lt;br /&gt;como placas da rua&lt;br /&gt;quando nos aproximamos de alguma cidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O olhar de mil pessoas&lt;br /&gt;na terra das longas sombras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma ponte constrói-se&lt;br /&gt;lentamente&lt;br /&gt;sempre a direito no espaço&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Assinaturas&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Sou obrigado a atravessar&lt;br /&gt;a soleira escura.&lt;br /&gt;Uma sala.&lt;br /&gt;O documento branco cintila&lt;br /&gt;entre muitas sombras, que se movimentam.&lt;br /&gt;Todas o querem assinar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até que a luz me alcança&lt;br /&gt;e dobra o espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Nove haikus da Prisão de Menores Hallby (1959)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;1&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Joga-se futebol&lt;br /&gt;súbita confusão – a bola&lt;br /&gt;voa por cima do muro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;2&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Eles enfurecem-se&lt;br /&gt;para que o tempo passe&lt;br /&gt;mais rápido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;3&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Vida mal soletrada&lt;br /&gt;a beleza continua a viver&lt;br /&gt;como tatuagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;4&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Quando o fugitivo foi apanhado&lt;br /&gt;tinha os bolsos&lt;br /&gt;cheios de cogumelos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;5&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O retinir das oficinas&lt;br /&gt;e os pesados passos das torres&lt;br /&gt;perturbam o bosque&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;6&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O portão abre-se&lt;br /&gt;no pátio do instituto&lt;br /&gt;há agora um novo ano&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;7&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;A s luzes do muro acendem-se&lt;br /&gt;o aviador nocturno&lt;br /&gt;vê uma mancha de luz irreal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;8&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Noite – um TIR passa&lt;br /&gt;os sonhos dos&lt;br /&gt;reclusos tremem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;9&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;O rapaz bebe leite&lt;br /&gt;e dorme na sua cela,&lt;br /&gt;uma mãe de pedra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;span style="font-size: xx-small;"&gt;(Selecção e tradução de Luís Costa)&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://art-glossary.com/wp-content/uploads/anish-kapoor-royal-academy.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://art-glossary.com/wp-content/uploads/anish-kapoor-royal-academy.jpg" width="474" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O Casal&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Apagam a luz e o globo branco brilha&lt;br /&gt;um instante e, depois, dissolve-se, como um comprimido&lt;br /&gt;num copo de escuridão. Depois, aumenta.&lt;br /&gt;As paredes do hotel disparam para a escuridão do céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os seus movimentos tornaram-se mais suaves e dormem,&lt;br /&gt;mas os seus pensamentos mais secretos começam a encontrar-se&lt;br /&gt;como duas cores que se encontram e escorrem juntas&lt;br /&gt;sobre o papel molhado de uma pintura de um menino de escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está escuro e silencioso. A cidade, contudo, aproximou-se&lt;br /&gt;esta noite. Com as suas janelas desligadas. Vieram casas.&lt;br /&gt;Mantêm-se juntas e muito perto, esperando,&lt;br /&gt;uma multidão de gente de rostos brancos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;i&gt;(Tradução do inglês de Maria Catela)&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Depois de uma Morte&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma vez foi um choque,&lt;br /&gt;que deixou para trás uma longa e cintilante cauda de cometa.&lt;br /&gt;Mantém-nos dentro de casa. Torna nevada a imagem da TV.&lt;br /&gt;Aquieta-se em gotas frias sobre os fios de telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pode-se ainda ir de skis devagar sob o sol de inverno&lt;br /&gt;através de arbustos onde algumas folhas se demoram.&lt;br /&gt;Parecem páginas arrancadas de velhas listas telefónicas.&lt;br /&gt;Nomes engolidos pelo frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É ainda maravilhoso sentir o coração a bater,&lt;br /&gt;mas a sombra parece muitas vezes mais real que o corpo.&lt;br /&gt;O samurai parece insignificante&lt;br /&gt;por trás da armadura de escamas do dragão negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;(Tradução do inglês de Maria Catela)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: #0000ee; font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;u&gt;&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: #0000ee; font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;u&gt;&lt;u&gt;&lt;/u&gt;&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="display: inline !important;"&gt;&lt;span style="color: #0000ee; font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;u&gt;&lt;u&gt;http://mariacatela.blogs.sapo.cv/8402.html&lt;/u&gt;&lt;/u&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://www.designboom.com/cms/images/andrea10/kapoor01.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="426" src="http://www.designboom.com/cms/images/andrea10/kapoor01.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Aanish Kapoor: turning the world upside down&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;A insegurança nacional&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sub-secretária se inclina para a frente e desenha um X&lt;br /&gt;e seus brincos balançam como espadas de Damócles&lt;br /&gt;Tal qual uma borboleta manchada é invisível no chão&lt;br /&gt;também o demônio se mescla ao jornal aberto.&lt;br /&gt;Um elmo vestido por ninguém tomou o poder.&lt;br /&gt;A mãe tartaruga foge voando sob a água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;(Tradução de Luciano Ramos Mendes)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Depois da RDA (visita de cinco dias em 1990)&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;O olho todo-poderoso do ciclope foi partido em meio às nuvens&lt;br /&gt;e à grama bufando dentro da poeira de carvão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Magoados pelos sonhos da noite&lt;br /&gt;nós subimos à bordo de um trem&lt;br /&gt;que se detém em todas as estações&lt;br /&gt;para botar lá uns ovos.&lt;br /&gt;Tudo parece tranqüilo…&lt;br /&gt;Badalando os baldes dos sinos das igrejas&lt;br /&gt;Que buscam por água&lt;br /&gt;E a tosse implacável de alguém&lt;br /&gt;Que engasga tudo e todo mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um ídolo de pedra que comove-se aos prantos:&lt;br /&gt;eis a cidade.&lt;br /&gt;Onde os mau-entendidos dominam&lt;br /&gt;entre os vendedores dos quiosques os açougueiros os carpinteiros os oficiais da marinha&lt;br /&gt;os mau-entendidos de bronze, os universitários,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que aos meus olhos fazem mal!&lt;br /&gt;Eles viram&lt;br /&gt;Eles leram ao surdo lampejo das lanternas dos pirilampos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contudo, nós entendemos o badalar&lt;br /&gt;Dos baldes dos sinos das igrejas, que buscam por água&lt;br /&gt;Todas as quartas-feiras&lt;br /&gt;- mas já estamos na quarta?-&lt;br /&gt;Vejam só o que nos dão no lugar do Dia da Domingo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;(Tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Allegro&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;Eu toco Haydn depois de um dia escuro&lt;br /&gt;e sinto um calorzinho nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As teclas desejosas. Os martelos gentis.&lt;br /&gt;O som é jovem, vigoroso e silencioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som diz que existe a liberdade&lt;br /&gt;e que não se devem impostos ao imperador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu enfio minhas mãos nos meus haydn-bolsos&lt;br /&gt;e imito um homem tranqüilo sobre o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu ergo minha haydn-bandeira. O sinal é:&lt;br /&gt;“Jamais nos renderemos, mas queremos paz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A música é uma casa de vidro na encosta&lt;br /&gt;onde voam pedras, rolam rochas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As rochas rolam e a atravessam&lt;br /&gt;mas as vidraças continuam intactas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;(Tradução de Luciano Ramos Mendes)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://astro.uchicago.edu/~andrey/photo/Yura04/DSCF4354.JPG" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://astro.uchicago.edu/~andrey/photo/Yura04/DSCF4354.JPG" width="481" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;i style="text-align: -webkit-auto;"&gt;Cloud Gate de Anish Kapoor.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: arial; font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="line-height: 15px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Depois de uma morte&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Houve então uma colisão&lt;br /&gt;que deixou para trás uma longa, bruxelante cauda de cometa.&lt;br /&gt;Fechou-nos em seu interior. Fez com que nevassem as imagens da TV.&lt;br /&gt;Formou estalactites frias nos fios dos telefones.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda é possível esquiar lentamente sob o sol invernal&lt;br /&gt;Em meio a alamedas onde umas poucas folhas perduram.&lt;br /&gt;Parecem páginas rasgadas de antigas listas telefônicas&lt;br /&gt;Nomes engolidos pelo frio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É bonito ouvir o coração bater&lt;br /&gt;Mas é comum que a sombra pareça mais verdadeira que o corpo.&lt;br /&gt;O samurai fica insignificante&lt;br /&gt;Ao lado de sua armadura de escamas de dragão negro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;(Tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Madrigal&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Herdei um bosque sombrio onde raramente vou. Mas chegará um dia em que os mortos e os vivos trocarão de lugar. Então, o bosque se colocará em movimento. Não estamos sem esperanças. Os crimes mais difícies continuam sem solução, apesar dos esforços de muitos policiais. Do mesmo modo, há em nossa vida um grande amor por solucionar. Herdei um bosque sombrio, mas caminho em um outro bosque, o luminoso. Todas as criaturas que cantam, serpenteiam, mexem a cauda e se arrastam! É primavera e o ar é muito forte. Tenho um diploma da universidade do esquecimento e estou tão vazio quanto a camisa que seca no varal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;(Tradução de Luciano Ramos Mendes)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;*&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Haikais&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Forte e lenta brisa&lt;br /&gt;Da livraria marinha&lt;br /&gt;- Descasarei em paz aqui&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A grama crescente…&lt;br /&gt;Sua face uma runa, pedra&lt;br /&gt;ascendente na memória&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na biblioteca das meias-espertezas&lt;br /&gt;Um livro-sermão na estante&lt;br /&gt;Intocado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desgrenhados pinos&lt;br /&gt;Num pântano trágico&lt;br /&gt;- para sempre, eternamente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Cavalo da Morte salta sobre mim&lt;br /&gt;Eu sou um problema de xadrez&lt;br /&gt;E ela, a solução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele escreve e escreve…&lt;br /&gt;Cola fluindo pelos canais;&lt;br /&gt;Uma gôndola atravessando o Styx.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;(Tradução de Tiago Guilherme Pinheiro)&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: xx-small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;a href="http://blog.meiapalavra.com.br/equipe-meia-palavra/"&gt;http://blog.meiapalavra.com.br/equipe-meia-palavra/&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Tomas Tranströmer&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Homenagem do Museu&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;Nacional da Poesia e Tropofonia&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Brasil&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;object class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://3.gvt0.com/vi/5knl_5EYrpM/0.jpg" height="266" width="320"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/5knl_5EYrpM&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266"  src="http://www.youtube.com/v/5knl_5EYrpM&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Tomas Tranströmer&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Homenagem do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa,&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;da Faculdade de Letras da Universidade do Porto *&amp;nbsp;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Portugal&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="color: #222222; font-family: arial, sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;object class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://1.gvt0.com/vi/3AS6QX2gfY0/0.jpg" height="266" width="320"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/3AS6QX2gfY0&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266"  src="http://www.youtube.com/v/3AS6QX2gfY0&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;span style="text-align: -webkit-auto;"&gt;~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~ ~&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;span style="text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;span style="text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;b style="background-color: rgba(255, 255, 255, 0.917969); color: #222222; font-family: arial, sans-serif; font-size: 13px; text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;span lang="DE" style="font-family: 'Times New Roman', serif; font-size: 12pt;"&gt;TOMÁS TRANSTRÖMER OU A FASCINAÇÃO DA INANIDADE&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;b style="background-color: rgba(255, 255, 255, 0.917969); color: #222222; font-family: arial, sans-serif; font-size: 13px; text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;span lang="DE" style="font-family: 'Times New Roman', serif; font-size: 12pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;b style="background-color: rgba(255, 255, 255, 0.917969); color: #222222; font-family: arial, sans-serif; font-size: 13px; text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;span lang="DE" style="font-family: 'Times New Roman', serif; font-size: 12pt;"&gt;Luis Costa Lima&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;b style="background-color: rgba(255, 255, 255, 0.917969); color: #222222; font-family: arial, sans-serif; font-size: 13px; text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;span lang="DE" style="font-family: 'Times New Roman', serif; font-size: 12pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: left;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: -webkit-auto;"&gt;Ler Tomas Tranströmer é uma experiência única e maravilhosa. A sua obra, embora pequena, alberga uma potência fenomenal. Por isso se encontra traduzida em mais de 30 línguas; por isso Tranströmer é, desde há anos, também um dos principais canditatos favoritos ao Prémio Nobel da Literatura. Infelizmente ainda não o ganhou e talvez nunca o venha a ganhar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: -webkit-auto;"&gt;Tranströmer inicia-se na poesia com 23 anos de idade. O seu primeiro livro traz o título 17 dikter (17 poemas). A maior parte da obra é escrita em verso livre, embora também tenha experimentado com a linguagem métrica. Na sua escrita nota-se, por vezes, uma certa disciplina horaciana. Como podemos ler no livro de memórias, Minnena ser mig (as recordações vêm-me):&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;Horácio era para mim como um contemporâneo; era como um René Char, um Oskar Loerke ou um Einar Malm.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Em 1990 foi vítima de um derrame cerebral que lhe afectou a capacidade de falar. No entanto recuperou a saúde de novo. Anos depois sofre uma série de derrames cerebrais. Desde então escreve sob grandes dificuldades. Impedido de escrever por mão própria, é a sua esposa que vai apontando os seus poemas (isto por meio de um processo muito complicado, pois Tranströmer só consegue dizer sim e não), cada vez mais raros e lacónicos, mas nem por isso de menor qualidade. A sua originalidade e magia residem exactamente nessa fantástica capacidade de, num punhado de vocábulos, ser capaz de exprimir aquilo para o qual muitos escritores precisam de cem:&lt;br /&gt;&lt;i style="color: #444444; font-family: 'Times New Roman', serif; text-align: left; text-indent: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="color: #444444; font-family: 'Times New Roman', serif; text-align: left; text-indent: 18px;"&gt;E o que era “eu”&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;É uma simples palavra&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;Na boca das trevas de Dezembro &amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: -webkit-auto;"&gt;No poema “Em Março de 79”, que sublinha esta sua tendência &amp;nbsp;para o laconismo, podemos ler o seguinte: &amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;Farto de todos aqueles que com palavras fazem palavras mas onde não há uma linguagem;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;Dirigi-me para a ilha coberta de neve.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;A veação não conhece palavras.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;As páginas em branco dispersam-se em todas as direcções.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;Eu dei com vestígios de cascos de corça na neve.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;Linguagem, mas nenhuma palavra.&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;div style="text-align: -webkit-auto; text-indent: 18px;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="background-color: rgba(255, 255, 255, 0.917969); color: #222222; font-family: 'Times New Roman', serif;"&gt;&lt;/div&gt;Embora Tranströmer nunca tenha escrito textos teóricos acerca da sua poesia, podemos no entanto ver nestas palavras uma espécie de poema programático, ou seja, uma metapoética. Neste poema, como acabamos de ver, defende-se uma poesia do termo singelo e conciso, da pureza inicial, de uma linguagem para lá das palavras “muda”, muito próxima do Budismo Zen. O que interessa aqui não são as palavras em si, ou uma mensagem inteligível, mas sim a linguagem que advém dessas palavras e que se libertou de todos os condicionalismos usurários que elas lhe pudessem impor. Quer dizer as palavras despiram-se dos seus significados individuais para se transfigurarem num corpo unificado e vivo, ou seja, numa linguagem absoluta, que nos deixa compreender tudo para além de todo o entendimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tranströmer aposta, assim, sobretudo, na intensidade e, a partir desta linguagem de imagens concentradas, fulgurante, a qual não precisa de muitas palavras, provoca no leitor uma sensação de deslumbramento e surpresa, que, em muitos casos, pode ser considerada fantástica e até mágica. Esta linguagem simples e clara, mas carregada de metáforas audazes, de uma imaginação fantástica e de uma imensa variedade de associações, possui, de facto, uma intensidade e uma força ao mesmo tempo telúricas e surreais. Vejamos um exemplo:&lt;br /&gt;&lt;i style="color: #444444; text-indent: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="color: #444444; text-indent: 18px;"&gt;Encontro-me de pé sob um céu estrelado&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;E sinto como o mundo rasteja&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;no meu sobretudo, para fora e para dentro,&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;qual um formigueiro&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Ainda que a lírica de Tomas Tranströmer possa, por vezes, à primeira vista, levar o leitor mais desprevenido a considerá-la uma lírica da natureza, dado que são constantes as referências a animais, objectos e fenómenos da natureza (a formiga vermelha, as tempestades, o mar, a floresta, as estações do ano, os campos etc. ) ela é, porém, muito mais do que isso. Ela não se constrói a partir de certos “acontecimentos“ que se efectuam na natureza, e que por isso são considerados, como acontece na Naturlyrik dos alemães, uma primeira base do ser, nem pretende descrever simples fenómenos da natureza. Através da observação do mundo físico o poeta vai-nos revelando a inanidade existencial: o invisível torna-se-nos acessível porquanto nos sentimos seduzidos pela magia das verdades ocultas e pelos segredos impenetráveis e por isso vazios. Este universo poético mantém-se sempre muito próximo da realidade do dia a dia, no entanto, como nos diz Harald Hartung no ensaio “Tomas Trantrömer: Der Kampf um den Namen”:&lt;br /&gt;&lt;span style="color: #444444;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="display: inline !important;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;ele não é deste mundo, ele é antes um espaço imaginário que projecta uma luz fresca, mas intensa, sobre os objectos e os homens.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Esta poesia tem como peculiaridade o momento. Na maior parte dos poemas de Tranströmer, deparamos com a evocação de um momento, vivido ou imaginado, que nos é transmitido quase fotograficamente. No entanto este momento, que lhe provocou a necessidade de poetar, ou seja, que ele procurou fixar em palavras, e que à primeira vista pode parecer uma mimésis da realidade circundante, já nada tem a ver com aquilo que o poeta em determinado momento observou, viveu, ou mesmo sonhou. Ao ser integrado no corpo do poema por meio da palavra poética, o momento sofreu uma transmutação: ele tornou-se numa realidade autónoma, ele tornou-se como António Ramos Rosa diz num dos seus ensaios: “presença da ausência”. Por isso o poema transcende a fugacidade do momento, dando-lhe uma continuidade que o transgride e ultrapassa a simples experiência física e sensorial:&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;Fim de estação. Eu continuei a viagem&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;Para além do fim da estação.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;Quantos eram? Quatro,&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;Cinco, poucos mais.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;Casas, caminhos, nuvens,&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;Enseadas azuis, montanhas&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;Abrem as suas portas&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como podemos ver, esta poesia é uma evocação do momento, único e irrepetível. O mundo natural, com todos os seus fenómenos inerentes, ao tornar-se palavra, torna-se numa nova realidade, uma realidade que se pode encontrar, por vezes, muito perto do delírio surrealista. Esta nova realidade já nada tem a ver com os fenómenos apreendidos pelo eu lírico. Dentro do poema ela transcende-se até à irracionalidade. Em torno de uma simples imagem, abrem-se ao leitor portas e portas: esta linguagem não precisa de uma interpretação, ela é a voz do silêncio, a voz do vazio total, do vazio do sujeito e das coisas, ponto de saída e ponto de encontro. Por isso a linguagem poética de Tranströmer aproxima-se bastante dos princípios do Budismo Zen. Vejamos a primeira quadra do poema “Adernagem da noite para o dia”:&lt;br /&gt;&lt;i style="color: #444444; text-indent: 18px;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="color: #444444; text-indent: 18px;"&gt;Quieta, a formiga acorda, espreita para dentro do&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;nada. E para além das gotas da escura folhagem e&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;do murmúrio nocturno, profundo no desfiladeiro do verão,&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;não se ouve mais nada.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i style="color: #444444;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nestes quatro versos encontramo-nos perante uma atmosfera própria do Budismo Zen, ou seja, aqui tudo é silêncio e inanidade, aqui toda a vontade e cobiça foram abolidas, tudo comunga do nada, tudo se encontra imerso nesse nada. O próprio EU lírico abdicou da sua identidade e de toda a vontade. Ele já não é apenas um observador, ele é parte integrante deste momento-nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Frente à intensidade deste universo poético, o leitor não coloca questões. Ele vive a sensação do momento, a sensação electrizante desta linguagem, a sua magia toda poderosa, que se movimenta entre a frase lacónica, simples e clara e uma metafísica irracional. E o poeta, sabendo isto melhor do que ninguém, leva-nos a a participar deste momento único - &amp;nbsp;momento em que natureza, homem e cosmos, se unem sob a aliança do indizível, do silêncio do vazio-essência:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: #444444; font-style: italic;"&gt;grande e vagaroso vento&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;div style="color: #444444; font-style: italic;"&gt;da biblioteca do mar.&lt;/div&gt;&lt;div style="color: #444444; font-style: italic;"&gt;Aqui posso descansar.&lt;/div&gt;&lt;div style="color: #444444; font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="color: #444444; font-style: italic;"&gt;&lt;i style="color: black; font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small; text-align: -webkit-auto;"&gt;In Revista Agulha, nº 60, &amp;nbsp;novembro/dezembro de 2007&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;i style="font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://www.revista.agulha.nom.br/arc00capa.htm"&gt;http://www.revista.agulha.nom.br/arc00capa.htm&lt;/a&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="color: #444444; font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="color: #444444; font-style: italic;"&gt;&lt;i style="color: black; font-family: Georgia, 'Times New Roman', serif; font-size: x-small; text-align: -webkit-auto;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-5190533791741161877?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/5190533791741161877/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=5190533791741161877' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/5190533791741161877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/5190533791741161877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2011/12/tomas-transtromer-premio-nobel-de.html' title='Tomas Tranströmer &lt;br&gt;Prémio Nobel de Literatura de 2011'/><author><name>Alexandre Relvão</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/-bw0c7piUGww/TwNLTclkrgI/AAAAAAAAANA/inOVi-HQpoQ/s72-c/anish-kapoor1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-1041441316988753549</id><published>2010-06-21T15:47:00.004+01:00</published><updated>2010-06-21T16:06:06.287+01:00</updated><title type='text'>José Saramago - 1922(Novembro) - 2010(Junho)</title><content type='html'>JOSÉ SARAMAGO,&lt;br /&gt;Prêmio Nobel de Literatura morreu aos 87 anos, em sua casa de Lanzarote&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O escritor José Saramago, primeiro e único Prêmio Nobel de Literatura de língua portuguesa, faleceu, dia 18 deste mês, em sua casa de Lanzarote, aos 87 anos, por causa de leucemia crônica, segundo confirmaram fontes da família. A morte ocorreu pouco depois das 13 horas (hora peninsular), quando o escritor se encontrava em sua residência canária, acompanhado de sua mulher e tradutora Pilar del Río.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Nossa única defesa contra a morte é o amor", disse numa ocasião José Saramago, a quem não só o amor ajudou a combater essa morte que o levou hoje. Também o fizeram os numerosos romances que escreveu ao longo de sua vida e que foram reconhecidos com o Prêmio Nobel em 1998.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De origem humilde, Saramago dedicou-se à literatura porque não lhe agradava o mundo que lhe tocou viver. Seus romances encerram reflexões sobre alguns dos principais problemas do ser humano; fazem o leitor pensar, o abalam e comovem. Seus personagens são cheios de dignidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido em 16 de novembro de 1922, em Azinhaga, uma aldeia de Ribatejo (Portugal), José de Sousa é mais conhecido pelo apelido de sua família paterna, Saramago, que o funcionário do Registro Civil acrescentou ao inscrevê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando tinha dois anos, sua família se mudou para Lisboa, mas nunca rompeu seus laços com Azinhaga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda que tenha sido um aluno brilhante, teve de abandonar o ensino secundário, ao terminar o primeiro segmento, ante a falta de meios econômicos de seus progenitores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de dedicar-se plenamente à literatura e de converter-se num dos maiores romancistas do século XX, Saramago trabalhou em diverss oficios como os de serralheiro, mecânico, editor e jornalista. Foi diretor adjunto do "Diário de Notícias" de Lisboa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas seu maior sonho era ser escritor. Em 1947, publicou seu primeiro romance, "Terra de pecado".  Por essa época, ascendeu nele a consciência política que sempre o acompanhou e que o levou a filiar-se, em 1969, ao Partido Comunista Português. Após um longo silêncio de quase vinte anos, durante o qual ficou sem publicar, porque não tinha "nada para dizer", Saramago se arriscou na poesia, entre 1966 e 1975, e publicou "Poemas possíveis", "Provavelmente alegria" e  "O ano de 1993".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como disse, quando Alfaguara, sua editora espanhola, publicou sua "Poesia completa", em 2005, nunca foi "um poeta genial", nem "um grande poeta". Apenas se considerava "um bom poeta".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1977, veio à luz o romance "Manual de pintura e caligrafia", ao que se seguiram o livro de contos "Quase um objeto" (1978) e a obra teatral "A noite" (1979).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os seus romances encerram reflexões sobre alguns dos principais problemas do ser humano; fazem o leitor pensar, o abalam e comovem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos anos oitenta, voltou ao teatro com "Que farei com este livro?" (1980), o relato "Levantado do chão" (1980 - Prêmio Cidade de Lisboa) e o livro de viagens "Viagem a Portugal" (1981).&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Com essas obras, Saramago já assentara as bases para esse mundo próprio que foi construindo livro após livro, e em 1982 alcançou a fama mundial com "Memorial do convento", que lhe valeu o Prêmio do Pen Club Português, galhardão que voltou a ganhar em 1984 com "O ano da morte de Ricardo Reis", também reconhecido com o Prêmio Dom Dinis da Fundação Casa de Mateus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir daí, seu prestígio se foi consolidando com títulos como "Jangada de pedra" (1986), levada ao cinema, em 2002, pelo diretor holandês George Sluizer e protagonizado por Federico Luppi, Icíar Bollaín e Gabino Diego; a peça teatral "A segunda vida de Francisco de Assis» (1987); e "História do Cerco de Lisboa" (1989).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1991 publicou o romance "O Evangelho Segundo Jesus Cristo", muito criticada pelo Vaticano e objeto de um polêmico veto em 1992, que o retirou da lista de candidatos ao Prêmio Literário Europeu, para o qual fora seleccionado por um juri do Pen Club de Portugal e pela Associação de Críticos Literários Portugueses. Apesar de tudo, esta obra recebeu o prestigioso Prêmio da Associação de Escritores de Portugal (1992).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse último ano, obteve o Prêmio Faliano de Literatura com seu romance "Uma terra chamada Alentejo". Os problemas que teve em Portugal o levaram, em 1993, a mudar sua residência para a Espanha, especificamente para a ilha canária de Lanzarote, acompanhado por sua segunda mulher, a jornalista espanhola Pilar del Río, tradutora do escritor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apóss publicar sua quarta obra de teatro, "In nomine Dei" (Grande Prêmio de Teatro da Associação Portuguesa de Escritores), passou a formar parte do Parlamento Internacional de Escritores. O ano de 1995 foi especial para ele, com a obtenção do Prêmio Camões para o conjunto de sua obra e a publicação de "Ensaio sobre a cegueira", primeiro livro de sua trilogía sobre a identidade do indivíduo, que continuou com "Todos os nomes" (1998) e encerrou-se com "Ensaio sobre a lucidez" (2004).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O primeiro livro da trilogia foi levado ao cinema, em 2008, pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, sob o título de "Blindness". Seus inegáveis méritos como romancista foram por fim reconhecidos em 1998 com o Prêmio Nobel de Literatura, que lhe outorgaram por haver criado uma obra na qual, "mediante parábolas sustentadas com imaginação, compaixão e ironia, nos permite continuamente captar uma realidade fugidia".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noss últimos anos, Saramago não deixou passar muito tempo entre um romance e outro.Estava consciente de sua idade e, se tinha "ainda algo para dizer", o melhor é que o dissesse "o quanto antes". Ainda que também dissesse que "chegará o dia em que se acabarão as ideias, e não acontecerá nada". Fruto dessa urgência para contar foram seus romances "A caverna" (2000); "O homem duplicado" (2002); "As intermitências da morte" (2005); "As pequenas memórias" (2006); "A viagem do elefante" (2008); e "Caim" (2009), o último romance desse grande escritor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre suas obras figuram também os autobiográficos "Cadernos de Lanzarote I e II" (1997 e 2001). Saramago estava consciente do poder que tinha a internet para difundir qualquer ideia e, em Setembro de 2008, começou a publicar seu blog, intitulado "O caderno". Foi "um espaço pessoal na página infinita da internet", segundo suas palavras. A morte o surpreendeu quando preparava um romance sobre a indústria do armamento e a ausência de greves nesse sector, ou ao menos essa era a ideia que queria desenvolver, segundo disse quando apresentou "Caim", em Novembro de 2009.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saramago morreu acompanhado de sua família, despedindo-se de uma forma serena e plácida, indicou num comunicado a Fundação que leva seu nome.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-1041441316988753549?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://en.wikipedia.org/wiki/Jos%C3%A9_Saramago' title='José Saramago - 1922(Novembro) - 2010(Junho)'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/1041441316988753549/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=1041441316988753549' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1041441316988753549'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1041441316988753549'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2010/06/jose-saramago-1922novembro-2010junho.html' title='José Saramago - 1922(Novembro) - 2010(Junho)'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-2848457417458328723</id><published>2010-06-14T23:14:00.001+01:00</published><updated>2010-06-14T23:17:59.282+01:00</updated><title type='text'>POEMA SUJO - Fragmento - Velocidades</title><content type='html'>Mas na cidade havia&lt;br /&gt;muita luz,&lt;br /&gt;        a vida&lt;br /&gt;fazia rodar o século nas nuvens&lt;br /&gt;               sobre nossa varanda&lt;br /&gt;por cima de mim e das galinhas no quintal&lt;br /&gt;               por cima&lt;br /&gt;do depósito onde mofavam&lt;br /&gt;paneiros de farinha&lt;br /&gt;               atrás da quitanda,&lt;br /&gt;                       e era pouco&lt;br /&gt;viver, mesmo&lt;br /&gt;no salão de bilhar, mesmo&lt;br /&gt;no botequim do Castro, na pensão&lt;br /&gt;da Maroca nas noites de sábado, era pouco&lt;br /&gt;banhar-se e descer a pé&lt;br /&gt;para a cidade de tarde&lt;br /&gt;(sob o rumor das árvores)&lt;br /&gt;                 ali&lt;br /&gt;                 no norte do Brasil&lt;br /&gt;                 vestido de brim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         E por ser pouco&lt;br /&gt;         era muito,&lt;br /&gt;         que pouco muito era o verde&lt;br /&gt;fogo da grama, o musgo do muro, o galo&lt;br /&gt;que vai morrer,&lt;br /&gt;a louça na cristaleira,&lt;br /&gt;o doce na compoteira, a falta&lt;br /&gt;de afeto, a busca&lt;br /&gt;do amor nas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 Não nas pessoas:&lt;br /&gt;nas coisas, na muda carne&lt;br /&gt;das coisas, na cona da flor, no oculto&lt;br /&gt;falar das águas sozinhas:&lt;br /&gt;                         que a vida&lt;br /&gt;passava por sobre nós,&lt;br /&gt;                         de avião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tem a mesma velocidade o domingo&lt;br /&gt;         que a sexta-feira com seu azáfama de compras&lt;br /&gt;         fazendo aumentar o tráfego e o consumo&lt;br /&gt;         de caldo de cana gelado,&lt;br /&gt;                                    nem tem&lt;br /&gt;         a mesma velocidade&lt;br /&gt;         a açucena e a maré&lt;br /&gt;com seu exército de borbulhas e ardentes caravelas&lt;br /&gt;         a penetrar soturnamente o rio&lt;br /&gt;         noutra lentidão que a do crepúsculo&lt;br /&gt;         que, no alto,&lt;br /&gt;         com sua grande engrenagem escangalhada&lt;br /&gt;moía a luz.&lt;br /&gt;                  Outra velocidade&lt;br /&gt;tem Bizuza sentada no chão do quarto&lt;br /&gt;         a dobrar os lençóis lavados e passados&lt;br /&gt;         a ferro, arrumando-os na gaveta da cômoda, como&lt;br /&gt;                se a vida fosse eterna.&lt;br /&gt;                        E era&lt;br /&gt;         naquele seu universo de almoços e temperos&lt;br /&gt;         de folhas de louro e de pimenta-do-reino&lt;br /&gt;         mastruz para tosse braba,&lt;br /&gt;                           universo&lt;br /&gt;         de panelas e canseiras entre as paredes da cozinha&lt;br /&gt;         dentro de um surrado vestido de chita,&lt;br /&gt;                                    enfim,&lt;br /&gt;         onde batia o seu pequenino coração.&lt;br /&gt;                    E se não era&lt;br /&gt;         eterna a vida, dentro e fora do armário,&lt;br /&gt;         o certo é que&lt;br /&gt;         tendo cada coisa uma velocidade&lt;br /&gt;                   (a do melado&lt;br /&gt;                    escura, clara&lt;br /&gt;                    a da água&lt;br /&gt;                    a derramar-se)&lt;br /&gt;         cada coisa se afastava&lt;br /&gt;         desigualmente&lt;br /&gt;         de sua possível eternidade.&lt;br /&gt;                  Ou&lt;br /&gt;                  se se quer&lt;br /&gt;                  desigualmente&lt;br /&gt;         a tecia&lt;br /&gt;         na sua própria carne escura ou clara&lt;br /&gt;         num transcorrer mais profundo que o da semana.&lt;br /&gt;                  Por isso não é certo dize&lt;br /&gt;         que é no domingo que melhor se vê&lt;br /&gt;                  a cidade&lt;br /&gt;         - as fachadas de azulejo, a Rua do Sol vazia&lt;br /&gt;         as janelas trançadas no silêncio -&lt;br /&gt;                  quando ela&lt;br /&gt;                  parada&lt;br /&gt;                  parece flutuar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que melhor se vê uma cidade&lt;br /&gt;        quando - como Alcântara&lt;br /&gt;        todos os habitantes se foram&lt;br /&gt;e nada resta deles (sequer&lt;br /&gt;        um espelho de aparador num daqueles&lt;br /&gt;aposentos sem teto) - se não&lt;br /&gt;        entre as ruínas&lt;br /&gt;        a persistente certeza de que&lt;br /&gt;        naquele chão&lt;br /&gt;        onde agora crescem carrapichos&lt;br /&gt;        eles efetivamente dançaram&lt;br /&gt;        (e quase se ouvem vozes&lt;br /&gt;        e gargalhadas&lt;br /&gt;                que se acendem e apagam nas dobras da brisa)&lt;br /&gt;                                 Mas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        se é espantoso pensar&lt;br /&gt;        como tanta coisa sumiu, tantos&lt;br /&gt;guarda-roupas e camas e mucamas&lt;br /&gt;        tantas e tantas saias, anáguas,&lt;br /&gt;        sapatos dos mais variados modelos&lt;br /&gt;        arrastados pelo ar junto com as nuvens,&lt;br /&gt;                                 a isso&lt;br /&gt;        responde a manhã&lt;br /&gt;        que&lt;br /&gt;        com suas muitas e azuis velocidades&lt;br /&gt;        segue em frente&lt;br /&gt;                            alegre e sem memória&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        É impossível dizer&lt;br /&gt;em quantas velocidades diferentes&lt;br /&gt;        se move uma cidade&lt;br /&gt;                           a cada instante&lt;br /&gt;                           (sem falar nos mortos&lt;br /&gt;                           que voam para trás)&lt;br /&gt;                           ou mesmo uma casa&lt;br /&gt;onde a velocidade da cozinha&lt;br /&gt;não é igual à da sala (aparentemente imóvel&lt;br /&gt;nos seus jarros e bibelôs de porcelana)&lt;br /&gt;         nem à do quintal&lt;br /&gt;         escancarado às ventanias da época&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   e que dizer das ruas&lt;br /&gt;de tráfego intenso e da circulação do dinheiro&lt;br /&gt;e das mercadorias&lt;br /&gt;         desigual segundo o bairro e a classe, e da&lt;br /&gt;         rotação do capital&lt;br /&gt;         mais lenta nos legumes&lt;br /&gt;         mais rápida no setor industrial, e&lt;br /&gt;         da rotação do sono&lt;br /&gt;         sob a pele,&lt;br /&gt;         do sonho&lt;br /&gt;         nos cabelos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         e as tantas situações da água nas vasilhas&lt;br /&gt;         (pronta a fugir)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 a rotação&lt;br /&gt;         da mão que busca entre os pentelhos&lt;br /&gt;         o sonho molhado os muitos lábios&lt;br /&gt;         do corpo&lt;br /&gt;         que ao afago se abre em rosa, a mão&lt;br /&gt;         que ali se detém a sujar-se&lt;br /&gt;         de cheiros de mulher,&lt;br /&gt;                  e a rotação&lt;br /&gt;         dos cheiros outros&lt;br /&gt;         que na quinta se fabricam&lt;br /&gt;         junto com a resina das árvores e o canto&lt;br /&gt;         dos passarinhos?&lt;br /&gt;         Que dizer da circulação&lt;br /&gt;         da luz solar&lt;br /&gt;arrastando-se no pó debaixo do guarda-roupa&lt;br /&gt;         entre sapatos?&lt;br /&gt;                 e da circulação&lt;br /&gt;         dos gatos pela casa&lt;br /&gt;         dos pombos pela brisa?&lt;br /&gt;         e cada um desses fatos numa velocidade própria&lt;br /&gt;         sem falar na própria velocidade&lt;br /&gt;         que em cada coisa há&lt;br /&gt;                  como os muitos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         sistemas de açúcar e álcool numa pêra&lt;br /&gt;                  girando&lt;br /&gt;         todos em diferentes ritmos&lt;br /&gt;                           (que quase&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;         se pode ouvir)&lt;br /&gt;                  e compondo a velocidade geral&lt;br /&gt;         que a pêra é&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do mesmo modo que todas essas velocidades mencionadas&lt;br /&gt;          compõem&lt;br /&gt;(nosso rosto refletido na água do tanque)&lt;br /&gt;          o dia&lt;br /&gt;          que passa&lt;br /&gt;          - ou passou -&lt;br /&gt;          na cidade de São Luís.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          E do mesmo modo&lt;br /&gt;que há muitas velocidades num&lt;br /&gt;          só dia&lt;br /&gt;e nesse mesmo dia muitos dias&lt;br /&gt;          assim&lt;br /&gt;não se pode também dizer que o dia&lt;br /&gt;tem um único centro&lt;br /&gt;                                   (feito um caroço&lt;br /&gt;                                    ou um sol)&lt;br /&gt;          porque na verdade um dia&lt;br /&gt;tem inumeráveis centros&lt;br /&gt;          como, por exemplo, o pote de água&lt;br /&gt;          na sala de jantar&lt;br /&gt;          ou na cozinha&lt;br /&gt;          em tomo do qual&lt;br /&gt;desordenadamente giram os membros da família.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          E se nesse caso&lt;br /&gt;é a sede a força de gravitação&lt;br /&gt;          outras funções metabólicas&lt;br /&gt;          outros centros geram&lt;br /&gt;          como a sentina&lt;br /&gt;          a cama&lt;br /&gt;          ou a mesa de jantar&lt;br /&gt;(sob uma luz encardida numa&lt;br /&gt;          porta-e-janela da Rua da Alegria&lt;br /&gt;          na época da guerra)&lt;br /&gt;sem falar nos centros cívicos, nos centros&lt;br /&gt;          espíritas, no Centro Cultural&lt;br /&gt;Gonçalves Dias ou nos mercados de peixe,&lt;br /&gt;          colégios, igrejas e prostíbulos,&lt;br /&gt;          outros tantos centros do sistema&lt;br /&gt;          em que o dia se move&lt;br /&gt;(sempre em velocidades diferentes)&lt;br /&gt;          sem sair do lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Porque&lt;br /&gt;                   quando todos esses sóis se apagam&lt;br /&gt;                   resta a cidade vazia&lt;br /&gt;(como Alcântara)&lt;br /&gt;no mesmo lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          Porque&lt;br /&gt;          diferentemente do sistema solar&lt;br /&gt;          a esses sistemas&lt;br /&gt;          não os sustém o sol e sim&lt;br /&gt;          os corpos&lt;br /&gt;          que em tomo dele giram:&lt;br /&gt;          não os sustém a mesa&lt;br /&gt;          mas a fome&lt;br /&gt;          não os sustém a cama&lt;br /&gt;          e sim o sono&lt;br /&gt;          não os sustém o banco&lt;br /&gt;          e sim o trabalho não pago&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          E essa é a razão por que&lt;br /&gt;          quando as pessoas se vão&lt;br /&gt;                     (como em Alcântara)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;apagam-se os sóis (os&lt;br /&gt;          potes, os fogões)&lt;br /&gt;          que delas recebiam o calor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          essa é a razão&lt;br /&gt;          por que em São Luís&lt;br /&gt;donde as pessoas não se foram&lt;br /&gt;          ainda neste momento a cidade se move&lt;br /&gt;          em seus muitos sistemas&lt;br /&gt;          e velocidades&lt;br /&gt;          pois quando um pote se quebra&lt;br /&gt;          outro pote se faz&lt;br /&gt;          outra cama se faz&lt;br /&gt;          outra jarra se faz&lt;br /&gt;          outro homem&lt;br /&gt;          se faz&lt;br /&gt;para que não se extinga&lt;br /&gt;          o fogo&lt;br /&gt;          na cozinha da casa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que eles falavam na cozinha&lt;br /&gt;          ou no alpendre do sobrado&lt;br /&gt;          (na Rua do Sol)&lt;br /&gt;          saía pelas janelas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          se ouvia nos quartos de baixo&lt;br /&gt;na casa vizinha, nos fundos da Movelaria&lt;br /&gt;          (e vá alguém saber&lt;br /&gt;          quanta coisa se fala numa cidade&lt;br /&gt;          quantas vozes&lt;br /&gt;          resvalam por esse intrincado labirinto&lt;br /&gt;          de paredes e quartos e saguões,&lt;br /&gt;          de banheiros, de pátios, de quintais&lt;br /&gt;                           vozes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          entre muros e plantas,&lt;br /&gt;                           risos,&lt;br /&gt;          que duram um segundo e se apagam)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                 E são coisas vivas as palavras&lt;br /&gt;          e vibram da alegria dó corpo que as gritou&lt;br /&gt;          têm mesmo o seu perfume, o gosto&lt;br /&gt;          da carne&lt;br /&gt;          que nunca se entrega realmente&lt;br /&gt;          nem na cama&lt;br /&gt;                            senão a si mesma&lt;br /&gt;                            à sua própria vertigem&lt;br /&gt;                            ou assim falando ou rindo&lt;br /&gt;                            no ambiente familiar&lt;br /&gt;          enquanto como um rato&lt;br /&gt;          tu podes ouvir e ver&lt;br /&gt;          de teu buraco&lt;br /&gt;          como essas vozes batem nas paredes do pátio vazio&lt;br /&gt;          na armação de ferro onde seca uma parreira&lt;br /&gt;          entre arames&lt;br /&gt;          de tarde&lt;br /&gt;                   numa pequena cidade latino-americana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          E nelas há&lt;br /&gt;          uma iluminação mortal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                   que é da boca&lt;br /&gt;                   em qualquer tempo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           mas que ali&lt;br /&gt;           na nossa casa&lt;br /&gt;                    entre móveis baratos&lt;br /&gt;                    e nenhuma dignidade especial&lt;br /&gt;           minava a própria existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                         Ríamos, é certo,&lt;br /&gt;            em torno da mesa de aniversário coberta de pastilhas&lt;br /&gt;            de hortelã enroladas em papel de seda colorido,&lt;br /&gt;            ríamos, sim,&lt;br /&gt;            mas&lt;br /&gt;            era como se nenhum afeto valesse&lt;br /&gt;            como se não tivesse sentido rir&lt;br /&gt;            numa cidade tão pequena.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                     O homem está na cidade&lt;br /&gt;                     como uma coisa está em outra&lt;br /&gt;                     e a cidade está no homem&lt;br /&gt;                     que está em outra cidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                     mas variados são os modos&lt;br /&gt;                     como uma coisa&lt;br /&gt;                     está em outra coisa:&lt;br /&gt;                     o homem, por exemplo, não está na cidade&lt;br /&gt;                     como uma árvore está&lt;br /&gt;                     em qualquer outra&lt;br /&gt;                     nem como uma árvore&lt;br /&gt;                     está em qualquer uma de suas folhas&lt;br /&gt;                     (mesmo rolando longe dela)&lt;br /&gt;                     O homem não está na cidade&lt;br /&gt;                     como uma árvore está num livro&lt;br /&gt;                     quando um vento ali a folheia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            a cidade está no homem&lt;br /&gt;            mas não da mesma maneira&lt;br /&gt;            que um pássaro está numa árvore&lt;br /&gt;            não da mesma maneira que um pássaro&lt;br /&gt;            (a imagem dele)&lt;br /&gt;            está/va na água&lt;br /&gt;                     e nem da mesma maneira&lt;br /&gt;            que o susto do pássaro&lt;br /&gt;            está no pássaro que eu escrevo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            a cidade está no homem&lt;br /&gt;            quase como a árvore voa&lt;br /&gt;            no pássaro que a deixa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            cada coisa está em outra&lt;br /&gt;            de sua própria maneira&lt;br /&gt;            e de maneira distinta&lt;br /&gt;            de como está em si mesma&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;            a cidade não está no homem&lt;br /&gt;            do mesmo modo que em sua&lt;br /&gt;            quitandas praças e ruas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERREIRA GULLAR&lt;br /&gt;Buenos Aires, mai/out/1975&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-2848457417458328723?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/2848457417458328723/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=2848457417458328723' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2848457417458328723'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2848457417458328723'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2010/06/poema-sujo-fragmento-velocidades.html' title='POEMA SUJO - Fragmento - Velocidades'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7962288847689790558</id><published>2010-06-14T19:10:00.003+01:00</published><updated>2010-06-14T19:26:23.046+01:00</updated><title type='text'>TRAÇOS ESTILÍSTICOS DE FERREIRA GULLAR EM POEMA SUJO</title><content type='html'>Traços estilísticos de Ferreira Gullar em Poema sujo, 1976&lt;br /&gt;por DIOGO ANDRADE DE MACEDO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda obra literária autêntica revela o poder de expressão de seu autor. Essa capacidade de transformar em linguagem a experiência interior requer, por parte do artista, sensibilidade para reconhecer a inseparável relação entre esse universo íntimo, de onde brota a verve, a habilidade pessoal de transmutar em linguagem esse magma disperso, e a experiência exterior, que servirá como alimento permanente desse fluxo de vida capaz de fazer do poeta um moinho a gerar sempre novos significados em sua relação com o mundo. É bem verdade que situações históricas relevantes foram imortalizadas em grandes obras por artistas que sabiam, como o poeta Ferreira Gullar, com o Poema Sujo, exprimir com mestria os sentimentos que a realidade suscita no homem sensível, sempre alerta e consciente de sua participação como ser social.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Publicado em 1976, Poema Sujo é considerada a obra mais ousada de Ferreira Gullar. Produzido no exílio, em Buenos Aires, surgiu da necessidade de, como ele mesmo afirmou, "escrever um poema que fosse o meu testemunho final, antes que me calassem para sempre". Numa época de forte repressão política, Gullar sentia-se acossado pela ânsia de rememorar o passado e a dificuldade de expressar, em linguagem poética, o universo interior, o que transparece, logo nos primeiros versos, no nível formal do texto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    turvo turvo&lt;br /&gt;    a turva&lt;br /&gt;    mão do sopro&lt;br /&gt;    contra o muro&lt;br /&gt;    escuro&lt;br /&gt;    menos menos&lt;br /&gt;    menos que escuro&lt;br /&gt;    menos que mole e duro menos que fosso e muro: [menos que furo&lt;br /&gt;    escuro&lt;br /&gt;    mais que escuro:&lt;br /&gt;    claro&lt;br /&gt;    como água? Como pluma? Claro mais que claro claro: coisa alguma&lt;br /&gt;    e tudo&lt;br /&gt;    (ou quase)&lt;br /&gt;    um bicho que o universo fabrica e vem sonhando [desde as entranhas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há, nessa passagem, o uso consciente de vogais e consoantes que sugerem um conflito entre o desejo pela expressão exacta e a impossibilidade de transpor para o verso as impressões da vida real. Esse embate repercute na utilização das consoantes oclusivas [t] e [p], que reproduzem sons fortes e pesados, mostrando que o poema começa a se revelar, mas ainda se acha à mercê dos óbices de transformar em linguagem poética a experiência profunda, armazenada como sentimentos, emoções e recordações. Por outro lado, as vogais [o] e [u] também causam a sensação de fechamento e escuridão, sem mencionar que a palavra muro realça esse labor com a linguagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo em seguida aparecem outros recursos estilísticos que demonstram a superação das primeiras barreiras. O jogo de antíteses (escuro x claro, menos x mais, mole x duro) reforça uma ambiguidade: ora a imagem emerge espontânea, ora se esconde no pensamento. No primeiro caso, brotam do interior como uma explosão, ou seja, "como um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas". No entanto, em certo momento, os versos fluem com mais nitidez e as palavras revelam imagens mais consistentes:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Claro claro&lt;br /&gt;    Mais que claro&lt;br /&gt;    Raro&lt;br /&gt;    O relâmpago clareia os continentes passados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em razão de uma originalidade sempre buscada (Gullar, de certa forma, antecipou o Movimento Concretista, de 1956, com os poemas do final do livro A Luta Corporal, de 1954), no Poema Sujo ele se esmera na coragem despudorada de revelar explicitamente a sordidez e a impureza do quotidiano humano em passagens insólitas, não raro pungentes, embora amparadas por uma consciência poética que torna esses rompantes expressivos alheios a um simples e pueril desejo de subverter ou chocar. Em alguns momentos, o poeta declara abertamente,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre [as folhas de&lt;br /&gt;    banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta [como uma boca&lt;br /&gt;    do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma [entrada para&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;acentuando uma fixação pelo corpo que se torna o instrumento essencial na interpretação do mundo. Um dos elementos que comprova o vigor poético do livro são as referências ao corpo, escritas numa linguagem prosaica e explosiva, como o que habilita o homem a conviver e explorar, simultaneamente, o mundo da cidade exterior e interior, enriquecendo a obra pela tensão causada pela conciliação de contrários. A matéria corporal contém, por associação ou comparação, os significados do mundo exterior. Assim, inscreve-se no corpo do poeta o que existe no mundo concreto:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    e os carinhos mais doces mais sacanas&lt;br /&gt;    mais sentidos&lt;br /&gt;    para explodir como uma galáxia&lt;br /&gt;    de leite&lt;br /&gt;    no centro de tuas coxas no fundo&lt;br /&gt;    de tua noite ávida&lt;br /&gt;    cheiros de umbigo e de vagina&lt;br /&gt;    graves cheiros indecifráveis&lt;br /&gt;    como símbolos&lt;br /&gt;    do corpo&lt;br /&gt;    do teu corpo do meu corpo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São recorrentes então as relações entre o "corpo" da cidade e o corpo do poeta, aproximação que confirma ser o corpo aquilo que contém todo o mundo exterior e dele participa com autonomia. Essa presença do corpo em todos os acontecimentos é, na verdade, o reconhecimento de uma consciência formada pela junção de elementos reais e imaginários, concretos e abstractos, revelados numa belíssima metáfora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio&lt;br /&gt;    de tudo como um monturo&lt;br /&gt;    de trapos sujos latas velhas colchões usados [sinfonias&lt;br /&gt;    sambas e frevos azuis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, o corpo é o elemento intermediário entre o mundo e a consciência do poeta. Noutra passagem, a tentativa de valorização do corpo como elemento salutar na descoberta do mundo ocasiona a busca, gradativa, pela especificação da própria individualidade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Mas sobretudo meu&lt;br /&gt;    corpo&lt;br /&gt;    nordestino&lt;br /&gt;    mais que isso&lt;br /&gt;    maranhense&lt;br /&gt;    mais que isso&lt;br /&gt;    sanluisense&lt;br /&gt;    mais que isso&lt;br /&gt;    ferreirense&lt;br /&gt;    newtoniense&lt;br /&gt;    alzirense&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por outro lado, a ausência de pontuação marca o fluxo associativo do pensamento que, muitas vezes, aproxima imagens logicamente desconexas. Assim, a eliminação da vírgula reflecte a correlação entre os elementos mencionados, fundindo-os em blocos de imagens inusitadas. Como nem sempre se pode distinguir o que é memória e o que é fantasia ou imaginação, essas associações insólitas ocorrem com frequência devido à natureza recordativa da obra. Na seguinte passagem, é evidente a enumeração caótica, conscientemente utilizada para evidenciar o tom febril e vigoroso do seu tempo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a vida a explodir por todas as fendas da [cidade&lt;br /&gt;Sob as sombras da&lt;br /&gt;Guerra:&lt;br /&gt;A gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg [catalinas torpedea-&lt;br /&gt;mentos a quinta-coluna os fascistas os nazistas os comunistas o repórter esso a discussão na quitanda o querosene o sabão de andiroba o mercado negro o racionamento o blackout as montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É desse modo que o poeta amalgama, numa estrutura dissonante e fragmentária, evocações da infância e da juventude na cidade de São Luís do Maranhão, na tentativa de reviver o passado no presente para, assim, reconstituir um mundo em que a imaginação e a realidade se confundem de modo condensado e comovente. Tendo em vista a multiplicidade de lembranças e associações que ora atualizam o passado, ora relembram o presente, o poeta criou o que alguns críticos denominaram "poema do simultâneo", já que o limite entre a imaginação e a realidade se dissolve e tudo se atualiza em forma de diálogo interior. Nesse sentido, mais uma vez os sinais de pontuação desaparecem em favor de uma técnica moderna de enumeração que transporta para a linguagem o fluxo sempre caótico da mente inconsciente, como na passagem que relembra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    constelações de alfabeto&lt;br /&gt;    noites escritas a giz&lt;br /&gt;    pastilhas de aniversário&lt;br /&gt;    domingos de futebol&lt;br /&gt;    enterros corsos comícios&lt;br /&gt;    roleta bilhar baralho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ou então quando o poeta fixa imagens isoladas que rememoram um mundo primitivo e inocente, evocado pela presença constante do corpo como depósito da experiência vivida:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Mas a poesia não existia ainda&lt;br /&gt;    Plantas. Bichos. Cheiros. Roupas.&lt;br /&gt;    Olhos. Braços. Seios. Bocas.&lt;br /&gt;    Vidraça verde, jasmim.&lt;br /&gt;    Bicicleta no domingo.&lt;br /&gt;    Papagaios de papel.&lt;br /&gt;    Retreta na praça.&lt;br /&gt;    Luto.&lt;br /&gt;    Homem morto no mercado&lt;br /&gt;    sangue humano nos legumes.&lt;br /&gt;    Mundo sem voz, coisa opaca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais que isso, essa simultaneidade de imagens e lembranças, capaz de fomentar um diálogo constante entre elementos do tempo e do espaço, tem um objectivo: a superação do tempo pela concretização de tudo aquilo que, quotidiano ou não, garante um olhar mais apurado e crítico da própria existência, daí a impossibilidade de separação entre o que é memória, fluxo de consciência e cronologia. É isso, aliás, que caracteriza a universalidade de Poema Sujo: a transcendência do espaçotempo, fundidos na consciência e eternizados numa linguagem realista e ao mesmo tempo psicológica, lírica e cinematográfica, que aglutina o universo vivido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um realismo quase sempre doloroso, Gullar elabora um dos temas mais caros de sua poética, também presente no Poema Sujo: a fragmentação e a temporalidade das coisas e dos homens, ou seja, a evidente submissão do homem ao tempo, que a tudo destrói impiedosamente. Por exemplo,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Numa coisa que apodrece&lt;br /&gt;    --- tomemos um exemplo velho:&lt;br /&gt;    uma pêra ---&lt;br /&gt;    o tempo&lt;br /&gt;    não transcorre nem grita,&lt;br /&gt;    antes&lt;br /&gt;    se afunda em seu próprio abismo,&lt;br /&gt;    se perde&lt;br /&gt;    em sua própria vertigem,&lt;br /&gt;    mas tão sem velocidade&lt;br /&gt;    que em lugar de virar luz vira&lt;br /&gt;    escuridão;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A intertextualidade é evidente, nesta passagem, com o poema As peras, de A Luta Corporal:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    As peras, no prato,&lt;br /&gt;    apodrecem.&lt;br /&gt;    O relógio, sobre elas,&lt;br /&gt;    mede&lt;br /&gt;    a sua morte?&lt;br /&gt;    Paremos a pêndula. De-&lt;br /&gt;    teríamos, assim, a&lt;br /&gt;    morte das frutas&lt;br /&gt;    Oh as peras cansaram-se&lt;br /&gt;    de suas formas e de&lt;br /&gt;    sua doçura ! As peras,&lt;br /&gt;    concluídas, gastam-se no&lt;br /&gt;    fulgor de estarem prontas&lt;br /&gt;    para nada.&lt;br /&gt;    O relógio&lt;br /&gt;    não mede. Trabalha&lt;br /&gt;    no vazio: sua voz desliza&lt;br /&gt;    fora dos corpos.&lt;br /&gt;    (…)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além disso, o isolamento deliberado de algumas palavras realça e concretiza cada uma delas, criando assim novos níveis de significação vocabular. Em alguns trechos, o autor se vale de recordações da infância em passagens que se assemelham a jogos infantis, verdadeiros momentos lúdicos em que a assimetria do texto acompanha a espontaneidade sempre presente nesses jogos, destituídos de qualquer rigor coercitivo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    café com pão&lt;br /&gt;    bolacha não&lt;br /&gt;    café com pão&lt;br /&gt;    vale quem tem&lt;br /&gt;    vale quem tem&lt;br /&gt;    vale quem tem&lt;br /&gt;    vale quem tem&lt;br /&gt;    nada vale&lt;br /&gt;    quem não tem&lt;br /&gt;    nada não vale&lt;br /&gt;    nada vale&lt;br /&gt;    quem nada&lt;br /&gt;    tem&lt;br /&gt;    neste vale&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percebe-se que o poeta distribui as palavras de acordo com o movimento melódico do verso, subtraindo as formas tradicionais de versificação. Por isso, as onomatopéias, recorrentes na obra, causam estranheza ao leitor desavisado, que se surpreende com certas reproduções auditivas, como&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    tarã TARÃ TARÃ TARÃ&lt;br /&gt;    tchi tchi tchi tchi tchi&lt;br /&gt;    TARÃ TARÃ TARÃ TARÃ&lt;br /&gt;    Lá vai o trem com o menino&lt;br /&gt;    Lá vai a vida a rodar&lt;br /&gt;    (…)&lt;br /&gt;    VAARÃ VAARÃ VAARÃ VAARÃ&lt;br /&gt;    tuc tchuc tuc tchuc tuc tchuc&lt;br /&gt;    IUÍ IUÍ IUÍ IUÍ IUÍ&lt;br /&gt;    tuc tchuc tuc tchuc tuc tchuc&lt;br /&gt;    lará lará larará&lt;br /&gt;    lará lará larará&lt;br /&gt;    lará lará larará lará lará larará&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esses recursos auditivos transmitem o despojamento de uma consciência poética atenta ao aspecto intuitivo, àquilo que não é pensado, mas sentido e, por isso, alheio a regras gramaticais. É a ousadia de reconhecer o valor imaginativo das associações sonoras porque, no Poema Sujo, nada é proibido, tanto que as lembrancimagens reflectem o processo de simultaneidade responsável, em muito, pelo carácter polissémico do livro. Há quem reconheça a obra como um "poema da memória", embora não haja uma visão idealizada de sua cidade, nem a fuga em reconhecer que a miséria se esconde tanto nas relações sociais e políticas no interior do homem moderno, angustiado pelo eterno descompasso entre a realidade e o sonho que, embora suavize o sofrimento, ainda esconde, de certa forma, o real circundante. Esse descompasso se camufla em comparações que denunciam as correspondências entre as coisas e os homens, ou seja, uma coisa, de certa forma, está em outra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    O homem está na cidade&lt;br /&gt;    como uma coisa está em outra&lt;br /&gt;    e a cidade está no homem&lt;br /&gt;    que está em outra cidade.&lt;br /&gt;    mas variados são os modos&lt;br /&gt;    como uma coisa&lt;br /&gt;    está em outra coisa:&lt;br /&gt;    o homem, por exemplo, não está na cidade&lt;br /&gt;    nem como uma árvore&lt;br /&gt;    está em qualquer uma de suas folhas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, a vida vige no interior de cada objecto e de cada homem, emergindo, no poema, em imagens comparativas que tentam superar a dificuldade de esclarecimento tanto da linguagem quanto do sentido da existência humana. Por exemplo, no trecho&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Nalgum ponto do corpo (do teu? do meu&lt;br /&gt;    corpo ?)&lt;br /&gt;    lampeja&lt;br /&gt;    o jasmim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o isolamento de lampeja acentua o poder de significação desse vocábulo que se mostra, assim, marcado pela sensação do descobrimento abrupto de um enigma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como bem afirmou o crítico Otto Maria Carpeaux, o Poema Sujo mereceria ser chamado de poema nacional, porque "encarna todas as experiências , vitórias, derrotas e esperanças da vida do homem brasileiro". É necessário, então, reconhecer Ferreira Gullar como um autêntico poeta que permeia o poema com o tom lírico humanizador vazado numa melodia que, como ele mesmo dizia, é capaz de "encontrar a expressão universal da coisa particular".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A força poética da obra gullardiana reside, portanto, na qualidade das sugestões psicológicas, no emprego inusitado da palavra e na capacidade de, como o próprio autor afirma, "explodir a linguagem" em versos que marcaram, pela singularidade, os rumos da criação poética brasileira. Isso sem mencionar a dignidade e sinceridade com que assume a dureza da existência humana e a transfigura em poemas que evocam não apenas o universo paradisíaco da infância, mas também inscrevem um novo sentido ético, que seguramente nos torna mais conscientes dos mistérios de existir num mundo que, como diz Gullar, "espanta e comove".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;NOTAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Diogo Andrade de Macedo é estudante do Curso de Letras/Português da Universidade Federal do Piauí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Referências Bibliográficas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. 37 ed. São Paulo: Cultrix, 1994.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BUARQUE DE HOLANDA, Sérgio. O espírito e a letra. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1996, v. 1.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;FERREIRA DE LOANDA, Fernando. Antologia da nova poesia brasileira. Lisboa: Orpheu, 1967.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GULLAR, Ferreira. Poema Sujo. 7 ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;RODRIGUES, Antônio Medina. Antologia da literatura brasileira. 7 ed. São Paulo: Marco, 1987.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7962288847689790558?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7962288847689790558/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7962288847689790558' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7962288847689790558'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7962288847689790558'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2010/06/tracos-estilisticos-de-ferreira-gullar.html' title='TRAÇOS ESTILÍSTICOS DE FERREIRA GULLAR EM POEMA SUJO'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-1715069998024436206</id><published>2010-06-13T17:36:00.002+01:00</published><updated>2010-06-13T17:45:07.516+01:00</updated><title type='text'>A GÊNESE DE "POEMA SUJO", DE FERREIRA GULLAR</title><content type='html'>Segundo o dicionário Aurélio, a palavra, sujo, significa: emporcalhado; falta de limpeza; infeccionado; indecoroso; indecente; desonesto; em quem não se pode confiar; desmoralizado; que perdeu o crédito junto a alguém. &lt;br /&gt;O livro poema sujo de Ferreira Gullar foi escrito em Buenos Aires, em 1975. &lt;br /&gt;O livro conta ser de vários poemas não titulados lançado em 1976. Ferreira Gullar escreveu-o depois de anos de exílio Moscou, Santiago do Chile e Lima. A primeira parte do exílio foi sofrida e atordoante. Transferiu-se em 1974, para Buenos Aires, cidade mais acolhedora e próxima do Brasil. Mas, desgraçadamente, logo a situação política se agravou, desencadeando-se a repressão às esquerdas e aos exilados. Com o passaporte vencido, não poderia sair do país, a não ser para o Paraguai ou para a Bolívia, dominados por ditaduras ferozes como a nossa. Muitos morriam ao tentar fugir do regime, sabia-se que agentes da ditadura brasileira tinham permissão para entrar na Argentina e capturar exilados políticos. Gullar sentiu-se dentro de um cerco que se fechava e decidiu então escrever um poema que fosse seu testemunho final, antes que o calassem para sempre. A gravidade e urgência da situação não apenas mudaram sua relação com o passado como o impeliram para o seu meio natural de expressão – o poema. Mas não se tratava, porém, de simplesmente evocar a infância e a cidade distante (São Luiz, Maranhão). Ele queria resgatar a vida vivida (talvez de sentir-se vivo). O discurso do poema é acerca do passado talvez uma tentativa de torná-lo presente outra vez. &lt;br /&gt;Gullar imaginou que poderia “vomitar” em escrita automática, sem ordem discursiva, a massa de experiência vivida. O que importaria não era o modo e sim o poema em si. &lt;br /&gt;“O poema deve começar antes de mim, pensei, começar antes do verbo”. Deu-se &lt;br /&gt;então o primeiro passo para a construção do livro:&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“turvo turvo &lt;br /&gt;a turva &lt;br /&gt;mão do sopro &lt;br /&gt;contra o muro” &lt;br /&gt;(pág 3)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Encontrado o umbigo do poema, ele fora ganhando corpo. De maio a agosto Gullar viveu entregue ao poema. Uma ampla aventura se iniciava. Estava iluminado, conseguira transpor toda a riqueza que estava dentro de si. Sozinho e sem emprego, com o mínimo de obrigações passava o dia mergulhado em seus versos. &lt;br /&gt;Em agosto, o poema que até ali fluíra naturalmente, estancou-se de repente. O poema se dera por findo, mas faltava concluí-lo, faltava um fecho. Durante quase dois meses Gullar deixou de pensar nele até que um dia, inesperadamente começou a murmurar:&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;“O homem está na cidade &lt;br /&gt;Como uma coisa está em outra” &lt;br /&gt;(pág. 66)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;E assim concluiu Poema Sujo, surpreendendo-lhe por sua perfeita adequação ao resto do poema. Ao escrevê-lo,vivera uma experiência poética única, por sua longa duração e pelo estado especial em que o fizera.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-1715069998024436206?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/1715069998024436206/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=1715069998024436206' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1715069998024436206'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1715069998024436206'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2010/06/genese-de-poema-sujo-de-ferreira-gullar.html' title='A GÊNESE DE &quot;POEMA SUJO&quot;, DE FERREIRA GULLAR'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-4287218222475873555</id><published>2010-06-13T15:55:00.000+01:00</published><updated>2010-06-13T15:56:00.053+01:00</updated><title type='text'>Ferreira Gullar - Poemas</title><content type='html'>saber mais / entrevista&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt; Nascido em São Luis do Maranhão, em 1930, Ferreira Gullar, procurou apontar em sua obra a problemática da vida política e social do homem brasileiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma forma precisa e profundamente poética traçou rumos e participou ativamente das mudanças políticas e sociais brasileiras, o que lhe levou à prisão juntamente com Paulo Francis, Caetano Veloso e Gilberto Gil em 1968 e posteriormente ao exílio em 1971 .&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poeta, crítico, teatrólogo e intelectual, Ferreira Gullar entra para a história da literatura como um dos maiores expoentes e influenciadores de toda uma geração de artistas dos mais diversos segmentos das artes brasileiras.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pouco acima do chão,&lt;br /&gt;1949&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luta corporal, 1954 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luta corporal e &lt;br /&gt;outros poemas, 1956 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poemas, 1958 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Boa-Morte, cabra &lt;br /&gt;marcado pra morrer&lt;br /&gt;(Cordel), 1962 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem matou Aparecida &lt;br /&gt;(Cordel), 1962 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro da noite veloz, 1975 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema sujo, 1976 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na vertigem do dia, 1980 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda poesia, 1980 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Crime na flora ou &lt;br /&gt;Ordem e Progresso, 1986 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barulhos, 1987 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitas Vozes, 2000 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teoria do não-objeto, 1959 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cultura posta em questão, 1965 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vanguarda e &lt;br /&gt;subdesenvolvimento, 1969 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma luz no chão, 1978 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre arte, 1982 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Etapas da arte &lt;br /&gt;contemporâneas, 1985 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Indagações de hoje, 1989 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Argumentação contra &lt;br /&gt;a morte da arte, 1993 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se correr o bicho pega,&lt;br /&gt;se ficar o bicho come&lt;br /&gt;(c/ Oduvaldo Vianna, 1966 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A saída ? Onde fica a saída ? &lt;br /&gt;(Grupo Opinião), 1967 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um Rubí no umbigo , 1979 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dr. Getúlio, sua via e sua glória&lt;br /&gt;(c/ Dias Gomes), 1968 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vargas &lt;br /&gt;(nova versão de Dr. Getúlio)&lt;br /&gt;1982 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A estranha vida banal, 1989 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cidades Inventadas, 1997 &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arte Pau Brasil &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livraria Loyola &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livraria Saraiva &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Livraria Siciliano &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Booknet &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amazon.com &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Barnes and Noble &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bookstacks &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Quando surge uma idéia, vou para a rua. Tenho prazer em conceber o poema no meio das pessoas que passam e nem suspeitam que ali, naquela hora ele está nascendo"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;§&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Quando o poema  chega, é um   acontecimento inusitado, uma erupção, como um vulcão. Está tudo bem e de repente ele começa a colocar fogo pela boca."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;§&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Posso fazer dez poemas por dia, porque eu sei fazer. Mas nunca farei isso. Eu sempre fui assim, sempre escrevi o poema necessário."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;§&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"A poesia não fala de tudo. Existe uma parte da vida sobre a qual a poesia não fala, mas eu também sou essas outras coisas."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(publicadas na revista Cult, nº 3&lt;br /&gt;em outubro de 1997) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; POEMA &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se morro &lt;br /&gt;universo se apaga como se apagam &lt;br /&gt;as coisas deste quarto &lt;br /&gt;                                 se apago a lâmpada: &lt;br /&gt;os sapatos - da - ásia, as camisas &lt;br /&gt;e guerras na cadeira, o paletó - &lt;br /&gt;dos - andes, &lt;br /&gt;          bilhões de quatrilhões de seres &lt;br /&gt;e de sóis &lt;br /&gt;        morrem comigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou não: &lt;br /&gt;       o sol voltará a marcar &lt;br /&gt;       este mesmo ponto do assoalho &lt;br /&gt;       onde esteve meu pé; &lt;br /&gt;                                     deste quarto &lt;br /&gt;       ouvirás o barulho dos ônibus na rua; &lt;br /&gt;           uma nova cidade &lt;br /&gt;           surgirá de dentro desta &lt;br /&gt;           como a árvore da árvore. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens &lt;br /&gt;a mesma história que eu leio, comovido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAU DESPERTAR&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio do sono como &lt;br /&gt;de uma batalha &lt;br /&gt;travada em &lt;br /&gt;lugar algum &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei na madrugada &lt;br /&gt;se estou ferido &lt;br /&gt;se o corpo &lt;br /&gt;        tenho &lt;br /&gt;        riscado &lt;br /&gt;de hematomas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zonzo lavo &lt;br /&gt;       na pia &lt;br /&gt;os olhos donde &lt;br /&gt;ainda escorre &lt;br /&gt;uns restos de treva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(agosto 1977) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EVOCAÇÃO DE SILÊNCIOS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio habitava &lt;br /&gt;o corredor de entrada &lt;br /&gt;de uma meia morada &lt;br /&gt;na rua das Hortas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o silêncio era frio &lt;br /&gt;no chão de ladrilhos &lt;br /&gt;e branco de cal &lt;br /&gt;nas paredes altas &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enquanto lá fora &lt;br /&gt;o sol escaldava &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para além da porta &lt;br /&gt;na sala nos quartos &lt;br /&gt;o silêncio cheirava &lt;br /&gt;àquela família &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e na cristaleira &lt;br /&gt;(onde a luz &lt;br /&gt;se excedia) &lt;br /&gt;cintilava extremo: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quase se partia &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Mas era macio &lt;br /&gt;    nas folhas caladas &lt;br /&gt;    do quintal &lt;br /&gt;         vazio &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       e &lt;br /&gt;       negro &lt;br /&gt;       no poço &lt;br /&gt;       negro &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       que tudo sugava: &lt;br /&gt;       vozes luzes &lt;br /&gt;       tatalar de asa &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       o que &lt;br /&gt;       circulava &lt;br /&gt;       no quintal da casa &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo silêncio &lt;br /&gt;voava em zoada &lt;br /&gt;nas copas &lt;br /&gt;nas palmas &lt;br /&gt;por sobre telhados &lt;br /&gt;até uma caldeira &lt;br /&gt;que enferrujava &lt;br /&gt;na areia da praia &lt;br /&gt;do Jenipapeiro &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e ali se deitava: &lt;br /&gt;uma nesga dágua &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;um susto no chão &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;fragmento talvez &lt;br /&gt;de água primeira &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;água brasileira &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era também açúcar &lt;br /&gt;o silêncio &lt;br /&gt;dentro do depósito &lt;br /&gt;(na quitanda &lt;br /&gt;de tarde) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o cheiro &lt;br /&gt;queimando sob a tampa &lt;br /&gt;no escuro &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;energia solar &lt;br /&gt;que vendíamos &lt;br /&gt;aos quilos &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que rumor era &lt;br /&gt;esse ? barulho &lt;br /&gt;que de tão oculto &lt;br /&gt;só o olfato &lt;br /&gt;o escuta ? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que silêncio &lt;br /&gt;era esse &lt;br /&gt;           tão gritado &lt;br /&gt;           de vozes &lt;br /&gt;           (todas elas) &lt;br /&gt;           queimadas &lt;br /&gt;           em fogo alto ? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;           (na usina) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;alarido &lt;br /&gt;      das tardes &lt;br /&gt;      das manhãs &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      agora em tumulto &lt;br /&gt;      dentro do açúcar &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;      um estampido &lt;br /&gt;      (um clarão) &lt;br /&gt;      se se abre a tampa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;POEMAS PORTUGUESES ( 4 ) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada vos oferto &lt;br /&gt;além destas mortes &lt;br /&gt;de que me alimento &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminhos não há &lt;br /&gt;Mas os pés na grama &lt;br /&gt;os inventarão &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui se inicia &lt;br /&gt;uma viagem clara &lt;br /&gt;para a encantação &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fonte, flor em fogo, &lt;br /&gt;quem é que nos espera &lt;br /&gt;por detrás da noite ? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada vos sovino: &lt;br /&gt;com a minha incerteza &lt;br /&gt;vos ilumino &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PRIMEIROS ANOS &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para uma vida de merda &lt;br /&gt;nasci em 1930 &lt;br /&gt;na rua dos prazeres &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas tábuas velhas do assoalho &lt;br /&gt;por onde me arrastei &lt;br /&gt;conheci baratas, formigas carregando espadas &lt;br /&gt;caranguejeiras &lt;br /&gt;                     que nada me ensinaram &lt;br /&gt;exceto o terror &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em frente ao muro negro no quintal &lt;br /&gt;as galinhas ciscavam, o girassol &lt;br /&gt;Gritava asfixiado &lt;br /&gt;           longe longe do mar &lt;br /&gt;           (longe do amor) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no entanto o mar jazia perto &lt;br /&gt;detrás de mirantes e palmeiras &lt;br /&gt;embrulhado em seu barulho azul &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E as tardes sonoras &lt;br /&gt;rolavam &lt;br /&gt;sobre nossos telhados &lt;br /&gt;sobre nossas vidas . &lt;br /&gt;Do meu quarto &lt;br /&gt;ouvia o século XX &lt;br /&gt;farfalhando nas árvores lá fora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois me suspenderam pela gola &lt;br /&gt;me esfregaram na lama &lt;br /&gt;me chutaram os colhões &lt;br /&gt;e me soltaram zonzo &lt;br /&gt;em plena capital do país &lt;br /&gt;sem ter sequer uma arma na mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Buenos Aires, 1975)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-4287218222475873555?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/4287218222475873555/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=4287218222475873555' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4287218222475873555'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4287218222475873555'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2010/06/ferreira-gullar-poemas.html' title='Ferreira Gullar - Poemas'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-1414160862192189245</id><published>2010-06-13T15:30:00.000+01:00</published><updated>2010-06-13T15:34:39.880+01:00</updated><title type='text'>FERREIRA GULLAR - Poema Sujo</title><content type='html'>&lt;a href="&lt;object width="480" height="385"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/BS1Lc-Aq3A8&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/BS1Lc-Aq3A8&amp;hl=pt_BR&amp;fs=1&amp;" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="385"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;"&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-1414160862192189245?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/1414160862192189245/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=1414160862192189245' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1414160862192189245'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1414160862192189245'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2010/06/ferreira-gullar-poema-sujo.html' title='FERREIRA GULLAR - Poema Sujo'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-4587312783945052204</id><published>2010-06-13T15:15:00.001+01:00</published><updated>2010-06-13T15:29:53.798+01:00</updated><title type='text'>FERREIRA GULLAR</title><content type='html'>Ferreira Gullar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um instante&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui me tenho&lt;br /&gt;Como não me conheço&lt;br /&gt;            nem me quis&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sem começo&lt;br /&gt;nem fim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          aqui me tenho&lt;br /&gt;          sem mim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nada lembro&lt;br /&gt;nem sei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à luz presente&lt;br /&gt;sou apenas um bicho&lt;br /&gt;        transparente&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-4587312783945052204?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/' title='FERREIRA GULLAR'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/4587312783945052204/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=4587312783945052204' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4587312783945052204'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4587312783945052204'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2010/06/ferreira-gullar.html' title='FERREIRA GULLAR'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-1840291447588280709</id><published>2009-08-23T19:43:00.005+01:00</published><updated>2009-08-25T16:05:09.548+01:00</updated><title type='text'>JEFF KOONS</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP6kh9eyJI/AAAAAAAAAJA/pQii6TqLWHQ/s1600-h/mih24_sm.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 311px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP6kh9eyJI/AAAAAAAAAJA/pQii6TqLWHQ/s400/mih24_sm.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373914285881608338" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP6LIJIYXI/AAAAAAAAAI4/wQps_iPFdsM/s1600-h/CRI_3109.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 276px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP6LIJIYXI/AAAAAAAAAI4/wQps_iPFdsM/s400/CRI_3109.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373913849454420338" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP6Ce3XiAI/AAAAAAAAAIw/HKU2cGOCCgk/s1600-h/koons6%2Baspirador.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 267px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP6Ce3XiAI/AAAAAAAAAIw/HKU2cGOCCgk/s400/koons6%2Baspirador.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373913700935108610" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP54kfNrcI/AAAAAAAAAIo/O4LMDuonrgo/s1600-h/koons4.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 273px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP54kfNrcI/AAAAAAAAAIo/O4LMDuonrgo/s400/koons4.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373913530645720514" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP5t3YXsFI/AAAAAAAAAIg/lvkUIbYO5r4/s1600-h/koons14.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 267px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP5t3YXsFI/AAAAAAAAAIg/lvkUIbYO5r4/s400/koons14.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373913346738729042" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP5lJzjoPI/AAAAAAAAAIY/LEAmyKpzAIY/s1600-h/koons11.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 267px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP5lJzjoPI/AAAAAAAAAIY/LEAmyKpzAIY/s400/koons11.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373913197065773298" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP5cK4NJMI/AAAAAAAAAIQ/HT286MnxFzs/s1600-h/koonsAB.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 400px; height: 242px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP5cK4NJMI/AAAAAAAAAIQ/HT286MnxFzs/s400/koonsAB.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373913042734884034" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP5J7ai7PI/AAAAAAAAAII/IeNfp6qixOE/s1600-h/jeff+koons+logotipo++google.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 242px; height: 145px;" src="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP5J7ai7PI/AAAAAAAAAII/IeNfp6qixOE/s400/jeff+koons+logotipo++google.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373912729346305266" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP4pnnhQxI/AAAAAAAAAIA/mWcM3IxsTQQ/s1600-h/rabbit+brancusi.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP4pnnhQxI/AAAAAAAAAIA/mWcM3IxsTQQ/s400/rabbit+brancusi.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373912174276199186" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP4bl2ma1I/AAAAAAAAAH4/j3X_-XpDRtE/s1600-h/Puppy.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP4bl2ma1I/AAAAAAAAAH4/j3X_-XpDRtE/s400/Puppy.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373911933284412242" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Jeff Koons - A Polêmica Pós-Moderna &lt;br /&gt;Jeff Koons nasceu em Nova York, 21 de janeiro de 1955, é escultor e artista plástico pop americano. Um artista conceitual que usa matériais diversos para construir sua obra. Jeff Koons é um dos artistas vivos mais cotados do mundo, suas obras são avaliadas em mais de US$20 milhões.&lt;br /&gt;Em seus trabalhos procura transformar o conceito kitch em obra de arte. O trabalho de Jeff Koons possue diversas características com as questões pós-modernas:&lt;br /&gt;Ele possue uma equipe encarregada de realizar seus trabalhos, não põe a 'mão na massa'. Os elementos do cotidiano são incorporados a sua arte de maneira a questioná-los e discuti-los. Jeff Koons gosta de questionar os paradigmas, os dogmas e os valores impostos pelo mercado de arte, com uma sutil ironia aos padrões de beleza, marca registrada presente em suas obras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre seus trabalhos mais famosos estão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PUPPY - um cachorro formado por flores, medindo 16 metros de altura, construído num jardim de um palácio. Esse trabalho, ele fez em protesto por não ter participado da Documenta de Kassel, em 1992, na Alemanha. Ele comparou a cidade alemã à Disneylandia. Atualmente a "escultura" está no Museu Guggenheim de Bilbao.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BRANCUSI - um coelho feito de plástico espelhado, imitando aço inoxidável. Nessa obra, o significado não está reconhecido, está aberto; ele reflete a personalidade do observador; ele se adequa ao ambiente como um camaleão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÉRIE DE OBJETOS DE PORCELANA - o artista fazia encomendas, a artesões, de pequenos objetos populares: estátuas religiosas (anjinhos), animais caricaturados (cachorrinhos, ursinhos) e até de alguns ícones populares (Michael Jackson, pantera cor-de-rosa), arranjo de flores - objetos presentes no cotidiano. Assim, ele se apropria de elementos estéticos da cultura de massa (que já possuem uma função), descontextualizando-as.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SÉRIE MADE IN HEAVEN - Jeff Koons, mostra uma série de fotos gigantescas onde apresenta atos sexuais explícitos, assim como fotos dele mantendo relações sexuais com a atriz-pornô Cicciolina (a ícone do gênero e ex-mulher de Jeff Koons). O tema de Koons nesse trabalho seria a validade da pornografia como arte. Segundo Koons, as imagens não possuem o objetivo de produzir atração sexual nos observadores, elas apenas mostram a intimidade de um casal - quebrando um padrão de moral, o que diferencia é a intenção. Essa afirmação é bastante discutível, mas a discussão levantada pelo artista tem sido considerada com freqüência por artistas contemporâneos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ICON GOOGLE - a 30 de Abril de 2008, o logotipo apresentado na página do Google é criação de Jeff Koons.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As relações que seus trabalhos possuem com o conceito de kitsch é que ele transforma o que é kitsch em obra de arte. Por exemplo: na obra PUPPY ele usa um jardim, que já possui uma função estética de pura decoração, em uma ironia dentro de um contexto específico; o coelho BRANCUSI ele juntou a vontade de emitir do emissor com a vontade de receber do receptor, para transformar o kitsch objeto em arte; as porcelanas põem em questão: obra de arte ou objeto de cultura de massa?.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dia 4 de Janeiro de 2009, sai de cartaz a exposição de jeff koons no palácio de versailles, "Jeff Koons Versailles", Muito polêmica foi contestada por muitos, inclusive pelo principe Charles Emmanuel de Bourbon-Parme, que pediu um tribunal administrativo em versailles para travar a exposição "Jeff Koons Versailles", que exibiu aspiradores de pó, balão gigante em forma de cão, mulheres nuas, entre outras obras. O príncipe chamou a mostra "uma profanação e um ataque contra o respeito devido aos mortos". A exposição teve mais de 500.000 visitantes desde sua abertura em setembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Balloon Dog (1999-2000)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Louis XIV" (1986)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Michael Jackson and Bubbles" (1998)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Aspirador de Pó"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Pink Panther" (1988)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jeff Koons prefere não comentar a polêmica em relação à exposição e diz apenas que ela representa "um sonho que se tornou realidade".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP9aJQyd8I/AAAAAAAAAJQ/70Kjc14exks/s1600-h/jeff-koons-hanging-heart.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 300px; height: 400px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP9aJQyd8I/AAAAAAAAAJQ/70Kjc14exks/s400/jeff-koons-hanging-heart.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5373917405987895234" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-1840291447588280709?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://procurandobob.files.wordpress.com/2009/08/pop23_sm.jpg' title='JEFF KOONS'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/1840291447588280709/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=1840291447588280709' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1840291447588280709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1840291447588280709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2009/08/jeff-koons.html' title='JEFF KOONS'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SpP6kh9eyJI/AAAAAAAAAJA/pQii6TqLWHQ/s72-c/mih24_sm.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-2320359462501446464</id><published>2009-08-23T19:29:00.001+01:00</published><updated>2009-08-23T19:31:41.529+01:00</updated><title type='text'>EDUARDO GALEANO</title><content type='html'>Defensa de la palabra&lt;br /&gt;por Eduardo Galeano &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;1.&lt;br /&gt;Uno escribe a partir de una necesidad de comunicación y de comunión con los demás, para denunciar lo que duele y compartir lo que da alegría. Uno escribe contra la propia soledad y la soledad de los otros. Uno supone que la literatura transmite conocimiento y actúa sobre el lenguaje y la conducta de quien la recibe; que nos ayuda a conocernos mejor para salvarnos juntos. Pero “los demás” y “los otros” son términos demasiado vagos; y en tiempos de crisis, tiempos de definición, la ambigüedad puede parecerse demasiado a la mentira. Uno escribe, en realidad, para la gente con cuya suerte, o mala suerte, uno se siente identificado, los malcomidos, los maldormidos, los rebeldes y los humillados de esta tierra, y la mayoría de ellos no sabe leer. Entre la minoría que sabe, ¿cuántos disponen de dinero para comprar libros? ¿Se resuelve esta contradicción proclamando que uno escribe para esa cómoda abstracción llamada “masa”?&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;No hemos nacido en la luna, no habitamos el séptimo cielo. Tenemos la dicha y la desgracia de pertenecer a una región atormentada del mundo, América Latina, y de vivir un tiempo histórico que golpea duro. Las contradicciones de la  sociedad de clases son, aquí, más feroces que en los países ricos. La miseria masiva es el precio que los países pobres pagan para que el seis por ciento de la población mundial pueda consumir impunemente la mitad de la riqueza que el mundo entero genera. Es mucho mayor la distancia, el abismo que en América Latina se abre entre el bienestar de pocos y la desgracia de muchos; y son más salvajes los métodos necesarios para salvaguardar esa distancia.&lt;br /&gt;El desarrollo de una industria restrictiva y dependiente, que aterrizó sobre las viejas estructuras agrarias y mineras sin alterar sus deformaciones esenciales, ha agudizado las contradicciones sociales en lugar de aliviarlas. La habilidad de los políticos tradicionales, expertos en las artes de la seducción y la estafa, resulta hoy insuficiente, anticuada, inútil; el juego populista que permitía otorgar para manipular ya no es posible, o revela su peligroso doble filo. Las clases y los países dominantes recurren a la maquinaria represiva. ¿De qué otra manera podría sobrevivir sin cambios un sistema social cada vez más parecida a un campo de concentración? ¿Cómo mantener a raya, sin alambradas de púas, a la reciente legión de los malditos? En la medida en que el sistema se siente amenazado por el desarrollo sin tregua de la desocupación, la pobreza y las tensiones sociales y políticas derivadas, se abrevia el espacio disponible para la simulación y los buenos modales: en los suburbios del mundo el sistema revela su verdadero rostro.&lt;br /&gt;¿Por qué no reconocer un cierto mérito de sinceridad en las dictaduras que oprimen, hoy por hoy, a la mayoría de nuestros países? La libertad de los   negocios implica, en tiempos de crisis, la prisión de las personas.&lt;br /&gt;Los científicos latinoamericanos emigran, los laboratorios y las universidades no tienen recursos, el “know how” industrial es siempre extranjero y se paga  carísimo, pero ¿por qué no reconocer un cierto mérito de creatividad en el  desarrollo de una tecnología del terror? América Latina está haciendo inspirados aportes universales en cuanto al desarrollo de métodos de torturas, técnicas del asesinato de personas e ideas, cultivo del silencio, multiplicación de la impotencia y siembra del miedo.&lt;br /&gt;Quienes queremos trabajar por una literatura que ayude a revelar la voz de los que no tienen voz, ¿cómo podemos actuar en el marco de esta realidad? ¿Podemos hacernos oír en medio de una cultura sorda y muda? Las nuestras son repúblicas del silencio. La pequeña libertad del escritor, ¿no es a veces la prueba de su fracaso? ¿Hasta dónde y hasta quiénes podemos llegar?&lt;br /&gt;Hermosa tarea la de anunciar el mundo de los justos y los libres; digna función la de negar el sistema del hambre y de las jaulas visibles o invisibles. Pero, ¿a cuántos metros tenemos la frontera? ¿Hasta dónde otorgan permiso los dueños del poder?&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;Mucho se ha discutido en torno de las formas directas de censura bajo los diversos regímenes sociales y políticos que en el mundo son o han sido, la prohibición de libros y periódicos incómodos o peligrosos y el destino de destierro, cárcel o fosa de algunos escritores y periodistas. Pero la censura indirecta actúa de un modo más sutil. No por menos aparente es menos real. Poco se habla de ella; sin embargo, en América Latina es la que más profundamente define el carácter opresor y excluyente del sistema que la mayoría de nuestros países padece. ¿En qué consiste esta censura que nunca osa  decir su nombre? Consiste en que no viaja el barco porque no hay agua en el mar: si un cinco por ciento de la población latinoamericana puede comprar refrigeradores, ¿qué porcentaje puede comprar libros? ¿Y qué porcentaje puede leerlos, sentir su necesidad, recibir su influencia?&lt;br /&gt;Los escritores latinoamericanos, asalariados de una industria de la cultura que  sirve al consumo de una elite ilustrada, provenimos de una minoría y escribimos para ella. Esta es la situación objetiva de los escritores cuya obra confirma la desigualdad social y la ideología dominante; y es también la situación objetiva de quienes pretendemos romper con ellas. Estamos bloqueados, en gran medida, por las reglas de juego de la realidad en la que actuamos.&lt;br /&gt;El orden social vigente pervierte o aniquila la capacidad creadora de la inmensa mayoría de los hombres y reduce la posibilidad de la creación – antigua respuesta al dolor humano y a la certidumbre de la muerte – al ejercicio profesional de un puñado de especialistas. ¿Cuántos somos, en América Latina, esos “especialistas”? ¿Para quiénes escribimos, a quiénes llegamos? ¿Cuál es nuestro público real? Desconfiemos de los aplausos. A veces nos felicitan quienes nos consideran inocuos.&lt;br /&gt;4.&lt;br /&gt;Uno escribe para despistar a la muerte y estrangular los fantasmas que por dentro lo acosan; pero lo que uno escribe puede ser históricamente útil sólo cuando de alguna manera coincide con la necesidad colectiva de conquista de la identidad.&lt;br /&gt;Esto, creo, quisiera uno: que al decir: “Así soy” y ofrecerse, el escritor pudiera ayudar a muchos a tomar conciencia de lo que son. Como medio de revelación de la identidad colectiva, el arte debería ser considerado un artículo de primera necesidad y no un lujo. Pero en América Latina el acceso a los productos de arte  y cultura está vedado a la inmensa mayoría.&lt;br /&gt;Para los pueblos cuya identidad ha sido rota por las sucesivas culturas de conquista, y cuya explotación despiadada sirve al funcionamiento de la maquinaria del capitalismo mundial, el sistema genera una “cultura de masas”. Cultura para masas, debería decirse, definición más adecuada de este arte degradado de circulación masiva que manipula las conciencias, oculta la realidad y aplasta la imaginación creadora. No sirve, por cierto, a la revelación de la identidad, sino que es un medio de borrarla o deformarla, para imponer modos de vida y pautas de consumo que se difunden masivamente a través de los medios de comunicación. Se llama “cultura nacional” a la cultura de la clase dominante, que vive una vida importada y se limita a copiar, con torpeza y mal gusto, a la llamada “cultura universal”, o lo que por ella entienden quienes la confunden con la cultura de los países dominantes. En nuestro tiempo, era de los mercados múltiples y las corporaciones multinacionales, se ha internacionalizado la economía y también la cultura, la “cultura de masas”, gracias al desarrollo acelerado y la difusión masiva de los medios. Los centros de poder nos exportan máquinas y patentes y también ideología. Si en América Latina está reservado a pocos el goce de los bienes terrenales, es preciso que la mayoría se resigne a consumir fantasías. Se vende ilusiones de riqueza a los pobres y de libertad a los oprimidos, sueños de triunfo para los vencidos y de poder para los débiles. No hace falta saber leer para consumir las apelaciones simbólicas que la televisión, la radio y el cine difunden para justificar la organización desigual del mundo. Para perpetuar el estado de cosas vigente en estas tierras donde cada minuto muere un niño de enfermedad o de hambre, es preciso que nos miremos a nosotros mismos con los ojos de quien nos oprime. Se domestica a la gente para que acepte “este” orden como el orden “natural” y por lo tanto eterno; y se identifica al sistema con la patria, de modo que el enemigo del régimen resulta ser un traidor o un agente foráneo. Se santifica la ley de la selva, que es la ley del sistema, para que los pueblos derrotados acepten su suerte como un destino; falsificando el pasado se escamotean las verdaderas causas del fracaso histórico de América Latina, cuya pobreza ha alimentado siempre la riqueza ajena: en la pantalla chica y en la pantalla grande gana el mejor, y el mejor es el más fuerte. El derroche, el exhibicionismo y la falta de escrúpulos no producen asco, sino admiración; todo puede ser comprado, vendido, alquilado, consumido, sin exceptuar el alma. Se atribuye a un cigarrillo, a un automóvil, a una botella de whisky o a un reloj, propiedades mágicas: otorgan personalidad, hacen triunfar en la vida, dan felicidad o éxito. A la proliferación de héroes y modelos extranjeros, corresponde el fetichismo de las marcas y las modas de los países ricos. Las fotonovelas y los teleteatros locales transcurren en un limbo de cursilería, al margen de los problemas sociales y políticos reales de cada país; y las series importadas venden democracia occidental y cristiana junto con violencia y salsa de tomates.&lt;br /&gt;5.&lt;br /&gt;En estas tierras de jóvenes, jóvenes que se multiplican sin cesar y que no encuentran empleo, el tic-tac de la bomba de tiempo obliga a los que mandan a dormir con un solo ojo. Los múltiples métodos de alienación cultural, máquinas de dopar y de castrar, cobran una importancia cada vez mayor. Las fórmulas de esterilización de las conciencias se ensayan con más éxito que los planes de control de la natalidad.&lt;br /&gt;La mejor manera de colonizar una conciencia consiste en suprimirla. En este sentido también opera, deliberadamente o no, la importación de una falsa contracultura que encuentra eco creciente en las nuevas generaciones de algunos países latinoamericanos. Los países que no abren a los muchachos opciones de participación política – por la petrificación de sus estructuras o por sus asfixiantes mecanismos de represión – ofrecen los terrenos mejor abonados para la proliferación de una presunta “cultura de protesta”, venida de afuera, subproducto de la sociedad del ocio y el despilfarro, que se proyecta hacia todas las clases sociales a partir del anti-convencionalismo postizo de las clases parasitarias.&lt;br /&gt;Los hábitos y símbolos de la revuelta juvenil de los años sesenta en Estados Unidos y en Europa, nacidos de una reacción contra la uniformidad del consumo, son ahora objeto de producción en serie. La ropa con diseños psicodélicos se vende al grito de “¡Libérate!”; la música, los posters, los peinados y los vestidos que reproducen los modelos estéticos de la alucinación por las drogas, son  volcados en escala industrial sobre el Tercer Mundo. Junto con los símbolos, coloridos y simpáticos, se ofrece pasajes al limbo a los jóvenes que quieren huir del infierno. Se invita a las nuevas generaciones a abandonar la historia, que duele, para viajar al Nirvana. Al incorporarse a esta “cultura de la droga”, ciertos sectores juveniles latinoamericanos realizan la ilusión de reproducir el modo de vida de sus equivalentes metropolitanos.&lt;br /&gt;Originada en el inconformismo de grupos marginales de la sociedad industrial alienada, esta falsa contra-cultura nada tiene que ver con nuestras necesidades reales de identidad y destino: brinda aventuras para paralíticos; genera resignación, egoísmo, incomunicación; deja intacta la realidad pero cambia su imagen; promete amor sin dolor y paz sin guerra. Además, al convertir a las sensaciones en artículos de consumo, encaja perfectamente con la “ideología de supermercado” que difunden los medios masivos de comunicación. Si el fetichismo de los autos y las heladeras no resulta suficiente para apagar la angustia y calmar la ansiedad, es posible comprar paz, intensidad y alegría en el supermercado clandestino.&lt;br /&gt;6.&lt;br /&gt;Encender conciencias, revelar la realidad: ¿Puede la literatura reivindicar mejor función en estos tiempos y estas tierras nuestras? La cultura del sistema, cultura de los sucedáneos de la vida, enmascara la realidad y anestesia la conciencia. Pero, ¿qué puede un escritor, por mucho que arda su fueguito, contra el engranaje ideológico de la mentira y el conformismo?&lt;br /&gt;Si la sociedad tiende a organizarse de tal modo que nadie se encuentra con nadie, y a reducir las relaciones humanas al juego siniestro de la competencia y&lt;br /&gt;el consumo – hombres solos usándose entre sí y aplastándose los unos a los otros -¿qué papel puede cumplir una literatura del vínculo fraternal y la participación solidaria? Hemos llegado a un punto en el que nombrar las cosas implica denunciarlas: ¿ante quiénes, para quiénes?&lt;br /&gt;7.&lt;br /&gt;Nuestro propio destino de escritores latinoamericanos está ligado a la  necesidad de transformaciones sociales profundas. Narrar es darse: parece obvio que la literatura, como tentativa de comunicación plena, continuará bloqueada de antemano mientras existan la miseria y el analfabetismo y los dueños del poder sigan realizando impunemente su proyecto de imbecilización colectiva a través de los medios masivos de comunicación.&lt;br /&gt;No comparto la actitud de quienes reivindican para los escritores un privilegio de libertad al margen de la libertad de los demás trabajadores. Grandes cambios, hondos cambios de estructura serán necesarios en nuestros países para que los escritores podamos llegar más allá de las ciudadelas cerradas de las élites y para que podamos expresarnos sin mordazas visibles o invisibles. Dentro de una sociedad presa, la literatura libre sólo puede existir como denuncia y esperanza.&lt;br /&gt;En el mismo sentido, creo que sería un sueño de una noche de verano suponer que por vías exclusivamente culturales podría llegar a liberarse la potencia creadora del pueblo, desde temprano adormecida por las duras condiciones materiales y las exigencias de la vida. ¿Cuántos talentos se extinguen, en América Latina, antes de que puedan llegar a manifestarse? ¿Cuántos escritores y artistas no llegan ni siquiera a enterarse de que lo son?&lt;br /&gt;8.&lt;br /&gt;Por otra parte, ¿puede realizarse cabalmente una cultura nacional en países donde las bases materiales del poder no son nacionales, o dependen de centros extranjeros? Si esto no es posible, ¿qué sentido tiene escribir? No hay un “grado cero” de la cultura, así como no existe un “grado cero” de la historia.&lt;br /&gt;Si reconocemos una inevitable continuidad entre la etapa del dominio y la etapa de la liberación en cualquier proceso de desarrollo social, ¿por qué negar la importancia de la literatura y su posible función revolucionaria en la exploración, revelación y difusión de nuestra verdadera identidad o de su proyecto? El opresor quiere que el espejo no devuelva al oprimido más que una mancha de azogue. ¿Qué proceso de cambio puede impulsar un pueblo que no sabe quién es, ni de dónde viene? Si no sabe quién es, ¿cómo puede saber lo que merece ser? ¿No puede la literatura ayudar, directa o indirectamente, a esa revelación? En gran medida, pienso, la posibilidad del aporte depende del grado de intensidad de la comunidad del escritor con las raíces, los andares y el destino de su pueblo. También de su sensibilidad para percibir el latido, el sonido y el ritmo de la auténtica contra-cultura en ascenso. Muchas veces lo que se considera “incultura” contiene semillas o frutos de “otra” cultura, que enfrenta a la cultura dominante y no tiene sus valores ni su retórica. Se la suele menospreciar, por error, como a una mera repetición degradada de los productos “cultos” de la élite o de los modelos culturales que el sistema fabrica en serie, pero a menudo es más reveladora y valiosa una crónica popular que una novela “profesional”, y el pulso de la vida real se siente con más fuerza en ciertas coplas anónimas del cancionero nacional que en muchos libros de poesía escritos en el código de los iniciados; los testimonios de la gente que de mil modos expresa sus lastimaduras y sus esperanzas frecuentemente resultan más elocuentes y bellos que las obras escritas “en nombre del pueblo”.&lt;br /&gt;Nuestra auténtica identidad colectiva nace del pasado y se nutre de él – huellas sobre las que caminan nuestros pies, pasos que presienten nuestros andares de ahora – pero no se cristaliza en la nostalgia. No vamos a encontrar, por cierto, nuestro escondido rostro en la perpetuación artificial de trajes, costumbres y objetos típicos que los turistas exigen a los pueblos vencidos. Somos lo que hacemos, y sobre todo lo que hacemos para cambiar lo que somos: nuestra identidad reside en la acción y en la lucha. Por eso la revelación de lo que somos implica la denuncia de lo que nos impide ser lo que podemos ser. Nos definimos a partir del desafío y por oposición al obstáculo.&lt;br /&gt;Una literatura nacida del proceso de crisis y de cambio y metida a fondo en el riesgo y la aventura de su tiempo, bien puede ayudar a crear los símbolos de la realidad nueva y quizás alumbre, si el talento no falta y el coraje tampoco, las señales del camino.&lt;br /&gt;No es inútil cantar al dolor y la hermosura de haber nacido en América.&lt;br /&gt;9.&lt;br /&gt;No siempre los datos de tiraje o venta dan la medida de la resonancia de un libro. A veces la obra escrita irradia una influencia mucho mayor que su difusión aparente; a veces responde con años de anticipación a las preguntas y necesidades colectivas, si el creador ha sabido vivirlas previamente como dudas y desgarramientos dentro de sí. La obra brota de la conciencia herida del escritor y se proyecta al mundo: el acto de creación es un acto de solidaridad que no siempre cumple su destino en vida de quien lo realiza.&lt;br /&gt;10.&lt;br /&gt;No comparto la actitud de los escritores que se atribuyen privilegios divinos no otorgados al común de los mortales, ni la actitud de quienes se golpean el pecho y rasgan sus vestiduras clamando el perdón público por vivir al servicio de una vocación inútil. Ni tan dioses ni tan insectos. La conciencia de nuestras imitaciones no es una conciencia de impotencia: la literatura, una forma de la acción, no tiene poderes sobrenaturales, pero el escritor puede ser un poquito mago cuando consigue que sobrevivan, a través de su obra, personas y experiencias que valen la pena. Si lo que escribe no es leído impunemente y cambia o alimenta, en alguna medida, la conciencia de quien lee, bien puede un escritor reivindicar su parte en el proceso de cambio: sin soberbia ni falsa humildad, y sabiéndose padecido de algo mucho más vasto.&lt;br /&gt;Me parece coherente que renieguen de la palabra quienes cultivan el monólogo con sus propias sombras y laberintos sin fin; pero la palabra tiene sentido para quienes queremos celebrar y compartir la certidumbre de que la condición humana no es una cloaca. Buscamos interlocutores, no admiradores; ofrecemos diálogo, no espectáculo. Escribimos a partir de una tentativa de encuentro, para que el lector comulgue con palabras que nos vienen de él y que vuelven a él como aliento y profecía.&lt;br /&gt;11.&lt;br /&gt;Sostener que la literatura va a cambiar, de por sí, la realidad, sería un acto de locura o soberbia. No me parece menos necio negar que en algo puede ayudar a que cambie.&lt;br /&gt;La conciencia de nuestras limitaciones es, en definitiva, una conciencia de nuestra realidad. En medio de la niebla de la desesperanza y la duda, es posible enfrentar las cosas cara a cara y pelearlas cuerpo a cuerpo: a partir de nuestras limitaciones, pero contra ellas.&lt;br /&gt;En este sentido, resulta tan desertora una literatura “revolucionaria” escrita para los convencidos, como una literatura conservadora consagrada al éxtasis en la contemplación del propio ombligo. Hay quienes cultivan una literatura “ultra” y de tono apocalíptico, dirigida a un público reducido y que está de antemano de acuerdo con lo que propone y trasmite: ¿cuál es el riesgo que asumen estos escritores, por más revolucionarios que digan ser, si escriben para la minoría que piensa y siente como ellos y le dan lo que espera recibir? No hay, entonces, posibilidad de fracaso; pero tampoco de éxito. ¿De qué sirve escribir si no es para desafiar el bloqueo que el sistema impone al mensaje disidente? Nuestra eficacia depende de nuestra capacidad de ser audaces y astutos, claros y atractivos. Ojalá podamos crear un lenguaje entrador y más hermoso que el que los escritores conformistas emplean para saludar al crepúsculo.&lt;br /&gt;12.&lt;br /&gt;Pero no es solamente un problema de lenguaje. También de medios. La cultura de la resistencia emplea todos los medios a su alcance y no se concede el lujo de desperdiciar ningún vehículo ni oportunidad de expresión. El tiempo es breve, ardiente el desafío, enorme la tarea: para un escritor latinoamericano enrolado en la causa del cambio social, la producción de libros forma parte de un frente de trabajo múltiple. No compartimos la sacralización de la literatura como institución congelada de la cultura burguesa. La crónica y el reportaje de tirajes masivos, los guiones para radio, cine y televisión y la canción popular no siempre son géneros “menores”, de categoría subalterna, como creen algunos marqueses del discurso literario especializado que los miran por encima del hombro. Las fisuras abiertas por el periodismo rebelde latinoamericano en el engranaje alienante de los medios masivos de comunicación, han sido a menudo el resultado de trabajos sacrificados y creadores que nada tienen que envidiar, por su nivel estético y su eficacia, a las buenas novelas y cuentos de ficción.&lt;br /&gt;13.&lt;br /&gt;Creo en mi oficio; creo en mi instrumento. Nunca pude entender por qué escriben los escritores que mientras tanto declaran, tan campantes, que escribir no tiene sentido en un mundo donde la gente muere de hambre. Tampoco pude nunca entender a los que convierten a la palabra en blanco de furias o en objeto de fetichismo. La palabra es un arma, y puede ser usada para bien o para mal: la culpa del crimen nunca es del cuchillo.&lt;br /&gt;Creo que una función primordial de la literatura latinoamericana actual consiste en rescatar la palabra, usada y abusada con impunidad y frecuencia para impedir o traicionar la comunicación. “Libertad” es, en mi país, el nombre de una cárcel para presos políticos y “Democracia” se llaman varios regímenes de terror; la palabra “amor” define la relación del hombre con su automóvil y por “revolución” se entiende lo que un nuevo detergente puede hacer en su cocina; la “gloria” es algo que produce un jabón suave de determinada marca y la “felicidad” una sensación que da comer salchichas. “País en paz” significa, en muchos lugares de América Latina, “cementerio en orden”, y donde dice “hombre sano” habría que leer a veces “hombre impotente”.&lt;br /&gt;Escribiendo es posible ofrecer, a pesar de la persecución y la censura, el testimonio de nuestro tiempo y nuestra gente – para ahora y después -. Se puede escribir como diciendo, en cierto modo: “Estamos aquí, aquí estuvimos; somos así, así fuimos”.&lt;br /&gt;Lentamente va cobrando fuerza y forma, en América Latina, una literatura que no ayuda a los demás a dormir, sino que les quita el sueño; que no se propone enterrar a nuestros muertos, sino perpetuarlos; que se niega a barrer las cenizas y procura, en cambio, encender el fuego. Esa literatura continúa y enriquece una formidable tradición de palabras peleadoras. Si es mejor, como creemos, la esperanza que la nostalgia, quizás esa literatura naciente pueda llegar a merecer la belleza de las fuerzas sociales que tarde o temprano, por las buenas o por las malas, cambiarán radicalmente el curso de nuestra historia. Y quizás ayude a guardar para los jóvenes.&lt;br /&gt;* Fuente: Contextos&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Observaciones: El texto Defensa de la Palabra se encuentra publicado en el libro de Eduardo Galeano Nosotros decimos No (Crónicas 1963 -1988) – Editorial Siglo XXI.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-2320359462501446464?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.sololiteratura.com/gal/biografiagaleano.htm' title='EDUARDO GALEANO'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/2320359462501446464/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=2320359462501446464' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2320359462501446464'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2320359462501446464'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2009/08/eduardo-galeano.html' title='EDUARDO GALEANO'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7421717835332620175</id><published>2009-06-21T21:50:00.000+01:00</published><updated>2009-06-21T22:00:30.460+01:00</updated><title type='text'>Haroldo de Campos</title><content type='html'>11/05/08&lt;br /&gt;Haroldo de Campos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GALAXIAS ( I )&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e começo aqui e meço aqui este começo e recomeço e remeço e arremesso&lt;br /&gt;e aqui me meço quando se vive sob a espécie da viagem o que importa&lt;br /&gt;não é a viagem mas o começo da por isso meço por isso começo escrever&lt;br /&gt;mil páginas escrever milumapáginas para acabar com a escritura para&lt;br /&gt;começar com a escritura para acabarcomeçar com a escritura por isso&lt;br /&gt;recomeço por isso arremeço por isso teço escrever sobre escrever é&lt;br /&gt;o futuro do escrever sobrescrevo sobrescravo em milumanoites miluma-&lt;br /&gt;páginas ou uma página em uma noite que é o mesmo noites e páginas&lt;br /&gt;mesmam ensimesmam onde o fim é o comêço onde escrever sobre o escrever&lt;br /&gt;é não escrever sobre não escrever e por isso começo descomeço pelo&lt;br /&gt;descomêço desconheço e me teço um livro onde tudo seja fortuito e&lt;br /&gt;forçoso um livro onde tudo seja não esteja um umbigodomundolivro&lt;br /&gt;um umbigodolivromundo um livro de viagem onde a viagem seja o livro&lt;br /&gt;o ser do livro é a viagem por isso começo pois a viagem é o comêço&lt;br /&gt;e volto e revolto pois na volta recomeço reconheço remeço um livro&lt;br /&gt;é o conteúdo do livro e cada página de um livro é o conteúdo do livro&lt;br /&gt;e cada linha de uma página e cada palavra de uma linha é o conteúdo&lt;br /&gt;da palavra da linha da página do livro um livro ensaia o livro&lt;br /&gt;todo livro é um livro de ensaio de ensaios do livro por isso o fim-&lt;br /&gt;comêço começa e fina recomeça e refina e se afina o fim no funil do&lt;br /&gt;comêço afunila o comêço no fuzil do fim no fim do fim recomeça o&lt;br /&gt;recomêço refina o refino do fum e onde fina começa e se apressa e&lt;br /&gt;regressa e retece há milumaestórias na mínima unha de estória por&lt;br /&gt;isso não conto por isso não canto por isso a nãoestória me desconta&lt;br /&gt;ou me descanta o avesso da estória que pode ser escória que pode&lt;br /&gt;ser cárie que pode ser estória tudo depende da hora tudo depende&lt;br /&gt;da glória tudo depende de embora e nada e néris e reles e nemnada&lt;br /&gt;de nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas&lt;br /&gt;e nanjas de nullus e nures de nenhures e nesgas de nulla res e&lt;br /&gt;nenhumzinho de nemnada nunca pode ser tudo pode ser todo pode ser total&lt;br /&gt;tudossomado todo somassuma de tudo suma somatória do assomo do assombro&lt;br /&gt;e aqui me meço e começo e me projeto eco do comêço eco do eco de um&lt;br /&gt;começo em eco no soco de um comêço em eco no oco de um soco&lt;br /&gt;no osso e aqui ou além ou aquém ou láacolá ou em toda parte ou em&lt;br /&gt;nenhuma parte ou mais além ou menos aquém ou mais adiante ou menos atrás&lt;br /&gt;ou avante ou paravante ou à ré ou a raso ou a rés começo re começo&lt;br /&gt;rés começo raso começo que a unha-de-fome da estória não me come&lt;br /&gt;não me consome não me doma não me redoma pois no osso do comêço só&lt;br /&gt;conheço o osso o osso buço do comêço a bossa do comêço onde é viagem&lt;br /&gt;onde a viagem é maravilha de tornaviagem é tornassol viagem de maravilha&lt;br /&gt;onde a migalha a maravilha a apara é maravilha é vanilla é vigília&lt;br /&gt;é cintila de centelha é favilha de fábula é lumínula de nada e descanto&lt;br /&gt;a fábula e desconto as fadas e conto as favas pois começo a fala&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Trecho do poema Galáxias de Haroldo de Campos *&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Haroldo Eurico Browne de Campos&lt;br /&gt;seu primeiro livro é de 1949 poeta de vasta, profunda e sofisticada cultura, poliglota, aprendeu "os primeiros" idiomas no Colégio São Bento, como o latin, inglês, espanhol e francês., O Auto do Possesso quando, ao lado de Décio Pignatari, participava do Clube de Poesia. em 1952, Décio, Haroldo e seu irmão Augusto de Campos rompem com o Clube, por divergirem quanto ao conservadorismo predominante entre os poetas, conhecidos como Geração de 45". a crença em uma "crise no verso" o levou ao experimentalismo, à busca de novas formas de estruturação e sintaxe, em curtos poemas-objeto ou longos poemas em prosa.fundam, então, o grupo Noigandres, passando a publicar poemas na revista de mesmo título. nos anos seguintes defendeu as teses que levariam os três a inaugurar em 1956 o movimento concretismo, ao qual manteve-se fiel até o ano de 1963, quando inaugura um trajeto particular, centrando suas atenções no projeto do livro-poema "Galáxias". doutorou-se pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, sob orientação de Antônio Cândido. considerado o "mais barroco" dos concretistas, em 1999, o Prêmio Jabuti de poesia foi conferido para seu livro "Crisantempo: No Espaço Curvo Nasce Um" (1998). foi professor da PUC-SP, bem como na Universidade do Texas, em Austin. dirigiu até o final de sua vida a coleção Signos da Editora Perspectiva. "Transcriou" em português poemas de autores como Homero, Dante, Mallarmé, Goethe, Mayakovski, além de textos bíblicos, como o Gênesis e o Eclesiastes. com mais de 30 livros publicados, como "A Máquina do Mundo Repensada", último livro publicado em vida, onde declara já em seu título o diálogo com A Divina Comédia (Dante), Os Lusíadas (Camões), produziu numerosos e fundamentais ensaios de teoria literária, entre eles A Arte no Horizonte do Provável (1969).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7421717835332620175?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://pt.wikipedia.org/wiki/Haroldo_de_Campos' title='Haroldo de Campos'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7421717835332620175/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7421717835332620175' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7421717835332620175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7421717835332620175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2009/06/haroldo-de-campos.html' title='Haroldo de Campos'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-2335070351822936610</id><published>2009-04-27T19:47:00.000+01:00</published><updated>2009-04-27T19:48:31.434+01:00</updated><title type='text'>POEMA</title><content type='html'>POEMA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Tomando-se como ponto de partida a origem grega da palavra e alguns dos inúmeros sentidos a ela ligados no mundo grego:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"POIÉO"  (verbo)  -   "fazer"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I.             Fabricar, executar, confeccionar, falando-se de obras manuais ou manufaturadas; particularmente falando-se de obras de arte: poiéo eídolon (fabricar uma estátua); confeccionar qualquer coisa com qualquer coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II.            Criar, produzir: 1. falando de homem: engendrar; 2. falando de mulher: dar à luz; 3. falando do sol, das plantas: produzir (cevada, frutas, etc.); 4. por analogia, falando das coisas: produzir ou repor dinheiro; 5. fazer nascer, no sentido de causar: fazer chover, fazer nascer o medo, o riso, fazer calar, fazer nascer a doença ou a pobreza; colocar dentro de: colocar um pensamento na alma, cobrir a cidade de ódio, colocar alguém sob o poder de alguém; fazer vir a ser, conduzir: colocar alguém em segurança, colocar alguém na prisão, fazer com que alguém sinta ódio, fazer alguém chorar; transformar pobre em rico, feliz em infeliz, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III.          Agir, ser eficaz, inclusive no caso de remédios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV.           Compor um poema, falando da atividade do artista, do poeta; fazer para os gregos a genealogia dos seus deuses, isto é, criar, inventar, compor uma Teogonia; compor uma tragédia, uma comédia; compor poemas, versos; compor em versos; compor versos em honra de alguém; pôr uma fábula em versos; falar em prosa e em verso sobre os deuses; 1. representar, pintar como um poeta; 2. imaginar, inventar, criar, criar palavras; 3. fazer com arte, trabalhar; 4. supor; 5. olhar como, tomar como, estimar, julgar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“POIEMA” (substantivo, gênero neutro) – “o que se faz”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I.             Obra, algo como composição ou produção: 1. obra manual (móvel, estátua, etc.); 2. criação do espírito, invenção, particularmente, “produção” de poesia, de poema, ou de versos isolados; ficção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II.            Ação de fazer a obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“POIESIS” (substantivo, gênero feminino) – “ação de fazer”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I.             Criação (por oposição a práxis); em conseqüência: a criação, isto é, o mundo criado, particularmente, em Direito, criação legal por adoção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II.            Falando-se de obras manuais: fabricação, confecção (de navios, de perfumes, etc).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III.          Falando-se de inteligência: 1. ação de compor obras poéticas. 2. faculdade de compor obras poéticas, arte da poesia, donde abstratamente a poesia. 3. obra poética, poema, poesia. 4. gênero poético, isto é, a tragédia e a comédia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na evolução da palavra até hoje, as conceituações mais estritas para POEMA nem sempre são muito precisas, e, em muitos casos, confundem-se com os conceitos para POESIA, embora, de modo geral, POEMA seja entendido como uma das expressões possíveis da POESIA. Destacamos algumas definições normalmente encontradas: 1. obra literária em verso; 2. composição poética de extensão variável; 3. obra literária em prosa, em que há ficção e estilo poético; 4. as peças orquestrais de caráter descritivo: “poemas sinfônicos”; 5. da arte de escrever em versos e cada um dos gêneros de composição poética de pouca extensão; 6. maneira de fazer versos peculiar a um autor ou a um estilo; 7. aquilo que desperta o sentimento estético do “belo”; 8. diz-se da atividade lingüística que tem um objetivo de arte e procura criar com a linguagem um estado psíquico de emoção estética por meio da aplicação sistemática de processos estilísticos. A língua transcende neste caso da função essencial de meio de comunicação, para se tornar ela própria o objeto essencial da atividade e servir de matéria-prima para uma obra de arte literária. Essa aplicação artística de uma língua é espontânea e se encontra em todos os tipos de sociedades, mesmo as mais rudimentares, na sua vida material e espiritual. Como expressão lingüística, um poema tende a organizar-se em frases ritmadas, com base na entonação, no número de sílabas, na distribuição mais ou menos regular, ou irregular, das sílabas acentuadas, constituindo-se desta maneira numa série de versos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Segundo Octavio Paz, “poema” é uma palavra semanticamente instável, que se vincula, pela etimologia e por natureza, à poesia: considera-se poema toda composição literária de índole poética, “um organismo verbal que contém, suscita ou segrega poesia”. Assumida ortodoxamente, a conexão entre poema e poesia implicaria um juízo de valor, ainda que de primeiro grau: todo poema encerraria poesia, e vice-versa, pois, sistematicamente, a poesia se coagularia em poema. Na verdade a correlação apenas se observa como tendência historicamente verificável, pois “existem poemas sem poesia”, e a poesia pode surgir, por exemplo, no âmbito da estrutura formal de um romance ou de um conto, de modo que muitos autores consideram que um poema pode ser estruturado não apenas em versos, mas também em prosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Considerando de outra maneira, já em si poética, afirma o mesmo Octavio Paz: “[...] o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tenha nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntando ao poema pelo ser da poesia, não confundimos arbitrariamente poesia e poema? Já Aristóteles dizia que “nada há de comum, exceto a métrica, entre Homero e Empédocles; e por isso com justiça se chama de poeta o primeiro e de filósofo o segundo”. E assim é: nem todo poema _ ou, para sermos exatos, nem toda obra construída sob as leis da métrica _ contém poesia. Por outro lado, há poesia sem poemas, pois, paisagens, pessoas e fatos podem ser poéticos, portanto, podem ser poesia sem ser poema. Quando a poesia acontece como uma condensação do acaso ou quando é uma cristalização de poderes e circunstâncias alheios à vontade criadora do poeta, estamos diante do poético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas é principalmente no poema que a poesia se recolhe e se revela mais plenamente. É lícito perguntar ao poema pelo ser da poesia, se deixamos de concebê-lo como uma forma capaz de se encher com qualquer conteúdo. O poema não é apenas uma forma literária, mas o lugar de encontro entre a poesia e o homem. O poema é um organismo verbal que contém, suscita ou emite poesia. Neste caso, forma e substância são a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas teorias da literatura pretendem reduzir a gêneros a vertiginosa pluralidade do poema. Por sua própria natureza, a pretensão padece de uma dupla insuficiência: reduzindo-se a poesia a umas tantas formas _ épicas, líricas, dramáticas _, o que faremos, pergunta Octavio Paz, com os romances, os poemas em prosa e esses livros diferentes como, por exemplo, Os Cantos de Maldoror (de Lautréamont) ou Nadja (de Andre Breton)? Se aceitarmos todas as exceções e todas as formas intermediárias, a classificação se converterá num catálogo infinito. Todas as atividades verbais, para não abandonar o âmbito da linguagem, são susceptíveis de mudar de signo e se transformar em poemas: desde a interjeição até o discurso lógico. Por isso, as classificações de uma retórica mais tradicional e mais fechada podem acabar sendo muito limitadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Cada poema é especial, irredutível e irrepetível. A única característica comum a todos os poemas consiste em serem obras, produtos humanos, como os quadros dos pintores e as cadeiras dos carpinteiros. No entanto, os poemas são obras de um feitio estranho: não há entre um e outro a relação de parentesco que, de modo tão palpável, se verifica com os instrumentos de trabalho. Técnica e criação, utensílio e poema são realidades distintas. Cada poema é um objeto único, criado por uma “técnica” que morre no instante mesmo da criação. Aquilo que se pode denominar “técnica poética” não é transmissível porque não é feita de receitas ou fórmulas, mas de invenções com a linguagem que servem, principalmente, para seu criador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Na atividade poética formal de construção de um poema, exploram-se as possibilidades da linguagem em geral e da língua específica, em particular: a) no material sonoro; b) nas palavras; c) nas associações de idéias; d) nas construções frasais, utilizando-se o ritmo, a harmonia imitativa, a rima, a assonância, a aliteração, as figuras de palavras, as figuras de pensamento, as figuras de sintaxe. Para Jean Cohen, de um modo geral, um poema é breve, limitado e obediente a certos requisitos formais, visto ser, precisamente, uma “técnica lingüística de produção de um tipo de consciência que o espetáculo do mundo não produz ordinariamente”. Já Antonio Quilis, define o poema como um contexto lingüístico no qual “a linguagem, tomada em seu conjunto de significante e significado como matéria artística, alcança nova dimensão formal, que, em virtude da intenção do poeta, se realiza potenciando os valores expressivos de linguagem por meio de um ritmo pleno”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Em sentido formal, é costume chamar-se poema à forma de expressão ordenada segundo certas regras e dividida em unidades rítmicas. Verso é a unidade rítmica em cujos limites se acham as unidades de sentido de que se compõem o poema. O ritmo poético, que na essência não difere das outras modalidades de ritmo, geralmente se caracteriza pela repetição. O ritmo consiste na divisão perceptível do tempo e do espaço em intervalos iguais, ou, com alguma regularidade. Quando o poema se constitui de unidades rítmicas semelhantes, diz-se que a versificação é regular, e, quando isto não ocorre, a versificação é mais irregular ou livre, sendo bom lembrar que o ritmo poético utiliza recursos que nem sempre podem ser coincidentes de idioma para idioma. Há poemas que se apresentam como forma fixa, isto é, submetida a regras pré-determinadas quanto à combinação dos versos, das rimas, ou das estrofes. Como exemplos, podem ser mencionados o soneto (que tem longa e profunda vitalidade em várias literaturas, inclusive na portuguesa e na brasileira), o rondó, o rondel, a balada, o canto real, o vilancete, a vilanela, a sextina, o pantum, o haicai e a quadra popular.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Os estilos vão e vêm. Os poemas permanecem e cada um deles constitui uma unidade auto-suficiente, um exemplar isolado, que não se repetirá jamais. O poema é feito de palavras, seres equívocos que, sendo cor e som, também são significado. Esse tipo de organismo “anfíbio” começa na palavra, um ser significante, mas, no poema, a linguagem recupera sua originalidade primitiva, mutilada pela redução que lhe impõem a prosa e a fala cotidiana. O poema é algo que está mais além da linguagem. Entretanto, paradoxalmente, isso que está mais além da linguagem só pode ser conseguido através da própria linguagem. Um quadro será “poema”, no sentido mais amplo do termo, se for algo mais que linguagem pictórica. Nessa medida, ser um grande pintor também significa ser um grande “poeta”: alguém capaz de transcender os limites da linguagem em que se expressa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poema é, então, uma tentativa de transcender o próprio idioma. A fala _ a linguagem social _ concentra-se no poema, articula-se e levanta-se. O poema é essa linguagem “erguida”. Assim, podemos dizer que duas forças antagônicas habitam o poema, sendo uma de elevação ou desenraizamento, que arranca a palavra da linguagem; e outra de gravidade, que a faz voltar. O poema é uma criação original e única, mas também é leitura e recitação: participação. O poeta o cria; alguém, ao lê-lo ou recitá-lo, o recria. Desta maneira, poeta e leitor acabam por ser dois momentos de uma mesma realidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sentido principal do poema é o próprio poema: suas imagens não nos levam a outra coisa, como, geralmente, ocorre com a prosa, mas nos colocam diante de uma realidade concreta, porque suas referências são muito mais internas, isto é, encontram-se em si mesmas. O poema transcende a linguagem porque é linguagem _ linguagem antes de ser submetida à “mutilação” da prosa ou da conversação _, mas é também alguma coisa mais. E esse algo mais é inexplicável pela linguagem, embora só possa ser alcançado por ela. Embora nascido da palavra, o poema desemboca nesse algo que a ultrapassa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz-se, também, que o poema é “linguagem em tensão: em extremo de ser e em ser até o extremo. Extremos da palavra e palavras extremas, voltadas sobre suas próprias entranhas, mostrando o reverso da fala: o silêncio e a não-significação. O poema possui uma inegável unidade de tom, ritmo e temperatura. É um todo, ou um conjunto de fragmentos, vivos também, ainda resplandecentes, de um todo. Mas a unidade do poema não é de ordem física ou material: tom, temperatura, ritmo e imagens têm unidade porque o poema é uma obra. E toda obra é fruto de uma vontade que transforma e submete a matéria bruta segundo seus desígnios”. Em suma, a unidade do poema se dá, como a unidade de todas as obras, por sua direção ou sentido. Mas quem imprime sentido à marcha ziguezagueante de um poema? O ato de escrever poemas se oferece a nossos olhos como um nó de forças antagônicas, no qual nossa voz e outras vozes se enlaçam e se confundem. As fronteiras se extinguem e nosso discorrer se transforma insensivelmente em algo que não podemos dominar totalmente. Nessa ambigüidade consistiria o mistério do que se conhece como “inspiração”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O poema, sem deixar de ser palavra e história, transcende, também, a história. Sob condição de examinar com mais atenção em que consiste esse ultrapassar a história, podemos concluir que a pluralidade de poemas não nega, antes afirma, a unidade da poesia. Todo poema, qualquer que seja a sua índole _ lírica, épica ou dramática – manifesta um modo peculiar de ser histórico. Mas, para apreender realmente esta singularidade não basta enunciá-la numa forma abstrata, e sim aproximarmo-nos do poema em sua realidade histórica e ver de  maneira mais concreta qual é sua função dentro de uma determinada sociedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Para alguns, o poema é a experiência do abandono; para outros, do rigor. Cada leitor procura algo no poema. E não é insólito que o encontre: de alguma forma já o trazia dentro de si. Graças ao poema podemos chegar à experiência poética. O poema é uma possibilidade aberta a todos os homens, qualquer que seja seu temperamento, seu ânimo ou sua disposição. No entanto, o poema não é senão isto: possibilidade, algo que só se anima ao contato de um leitor ou de um ouvinte. Há, assim, uma característica comum a todos os poemas, sem a qual nunca seriam poesia: a participação. Cada vez que o leitor revive realmente o poema, atinge um estado que podemos, na verdade, chamar de poético. O poema é, também, mediação: graças a ele, o tempo original _ “pai dos tempos” _ materializa-se num momento. A sucessão se converte em presente puro, manancial que se alimenta a si próprio e transmuta o homem. A leitura do poema mostra grande semelhança com a criação poética: “O poeta cria imagens, poemas; o poema faz do leitor imagem, poesia, pois é via de acesso ao tempo puro, imersão nas águas originais da existência. A poesia não é nada senão tempo, impulso rítmico perpetuamente criador”. Vejamos um exemplo, destacando-se as duas primeiras estrofe do ‘metapoema’ intitulado Motivo, de Cecília Meireles:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu canto porque o instante existe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a minha vida está completa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sou alegre nem sou triste:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou poeta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Irmão das coisas fugidias,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sinto gozo nem tormento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atravesso noites e dias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No vento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afirma, ainda, Octavio Paz: tragédia, epopéia, canção, o poema tende a repetir e recriar um instante, um fato ou conjunto de fatos que, de alguma maneira, se tornam arquetípicos. O tempo do poema é distinto do tempo cronológico. “O que passou, passou”, dizem. Para o poeta o que passou voltará a ser, voltará a se materializar. O poeta, disse o centauro Quíron a Fausto, “não está amarrado pelo tempo”. E este responde: “Aquiles encontrou Helena fora do tempo”. “Fora do tempo? Melhor, no tempo original”. O poema é tempo arquetípico, que se faz presente mal os lábios de alguém, repetem suas frases rítmicas. Essas frases rítmicas são o que chamamos de versos e sua função é recriar o tempo. Vejamos um pequeno exemplo poético dessa questão temporal, destacado do Cancioneiro de Fernando Pessoa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Recordo outro ouvir-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se te ouvi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa minha infância&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que me lembra em ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com que ânsia tão raiva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero aquele outrora!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eu era feliz? Não sei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui-o outrora agora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poema possui o mesmo caráter complexo e indivisível da linguagem e de sua célula, a frase. Todo poema é uma totalidade encerrada dentro de si mesma: é uma frase ou um conjunto de frases que formam um todo. Porém, a célula do poema _ seu núcleo mais simples _ é a frase, que encerra seu impulso rítmico-poético. Assim, enquanto o poema se apresenta como uma ordem fechada, a prosa tende a manifestar-se como uma consciência aberta e linear. Paul Valéry, por exemplo, comparou a prosa com a marcha e a poesia com a dança. Assim voltamos à idéia de ritmo, que não é outra coisa que esta constante repetição e recriação, como a maré que vai e que vem, que cai e se levanta. Diferentemente, então, do que acontece com a prosa, a unidade da frase, o que a constitui como tal e forma a linguagem, não é o sentido ou direção significativa, mas, principalmente, o que se caracteriza como ritmo. Neste caso, o ritmo não é apenas medida, mas, principalmente, visão do mundo, e, assim, calendários, moral, política, técnica, artes, filosofias, tudo enfim que chamamos de cultura tem suas raízes no ritmo. Novamente recorrendo ao Cancioneiro de Fernando Pessoa, que fala de todas essas coisas através dos próprios poemas:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No piano anônimo da praia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tocam nenhuma melodia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De cujo ritmo por fim saia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todo o sentido deste dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ritmo não é apenas o elemento mais antigo e permanente da linguagem, como também não é difícil que seja anterior à própria fala. Em certo sentido, pode-se dizer que a linguagem nasce do ritmo ou, pelo menos, que todo ritmo implica ou prefigura uma linguagem. Como então distinguir prosa e poema? Deste modo: o ritmo se dá espontaneamente em toda forma verbal, mas só no poema se manifesta plenamente. Sem ritmo não há poema; só com ritmo não há prosa. O ritmo é condição do poema, ao passo que não é essencial para a prosa. O poema apresenta-se como um círculo ou uma esfera _ algo que se fecha sobre si mesmo, universo auto-suficiente e no qual o fim é também um princípio que volta, se repete e se recria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conforme Alfredo Bosi, num poema primitivo ou arcaico, o ritmo procura retomar, concentrar e realçar os acentos da linguagem oral. No poema clássico, o ritmo tende a demarcar, no interior de uma língua geral, uma área particular de regularidades, ou de continuidades. No poema moderno, o ritmo tende a abalar o cânon da uniformidade estrita, isto é, procura-se abolir o verso, determinando uma procura e uma exploração, cada vez mais conscientes, das potências e virtualidades musicais da frase. É interessante destacar, porém, que metrificação e ritmo não são a mesma coisa. O ritmo é inseparável da frase, não é composto só de palavras soltas nem é só medida e quantidade silábica, acentos e pausas: é imagem e sentido. Ritmo, imagem e significado apresentam-se simultaneamente numa unidade indivisível e compacta: a frase poética, o verso. A metrificação, pelo contrário, é medida abstrata e independente da imagem. A distinção entre metro e ritmo proíbe chamar poemas a um grande número de obras corretamente versificadas que, por pura inércia, constam como tais nos manuais de literatura. Por outro lado, segundo Octavio Paz, obras como Alice no País das Maravilhas (de Lewis Carroll) ou El jardín de los senderos que se bifurcam (de Jorge Luis Borges), entre muitas outras, poderiam ser chamados de poemas. Nelas a prosa acaba negando a si mesma. As frases não se sucedem obedecendo a uma ordem conceitual ou narrativa, mas são principalmente presididas pelas leis da imagem e do ritmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como curiosidade, alguns pensamentos instigantes de Schlegel: “há tanta poesia, e, no entanto, nada é mais raro que um poema. E isto inclui a enorme quantidade de esboços poéticos, estudos, fragmentos, tendências, ruínas e materiais”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, também: “Assim como uma criança é na verdade alguém que se tornará um homem, um poema é apenas um produto da natureza que se tornará obra de arte”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, ainda: “Em todo bom poema é preciso que tudo seja intenção e tudo instinto. Por isso ele se torna ideal”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, mais outra: “Anotações para um poema são como lições de anatomia sobre um assado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto isso, R. Whately, afirma, no dicionário de Shipley, que: “qualquer composição em verso (e nenhuma que não o seja) é sempre chamada, seja boa ou má, um Poema, por todos que não possuem uma hipótese específica a sustentar”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bibliografia: BAILLY, Anatole. Dictionaire Grec-Française, Paris: Hachette, 16ª ed., 1950; BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia, São Paulo: Cultrix, 1983; COHEN, Jean. Structure du langage poétique, Paris: Flammarion, 1966; CUNHA, Celso. Gramática do Português Contemporâneo, Belo Horizonte: Ed. Bernardo Álvares, 3ª ed., 1972; MATTOSO CÂMARA Jr., Joaquim. Dicionário de Lingüística e Gramática, Petrópolis: Vozes, 11ª ed.,1984; MEIRELES, Cecília. Obra Poética, Rio de Janeiro: Editora José Aguilar, 1958; MOISÉS, Massaud. Dicionário de Termos Literários, São Paulo: Cultrix, 3ª ed., 1982; PAZ, Octavio. O Arco e a Lira, Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 1982; PAZ, Octavio. Signos em Rotação, São Paulo: Perspectiva, 2ª ed., 1976; PESSOA, Fernando. Obra Poética, Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1983; QUILIS, Antonio. Métrica Espanhola, Barcelona: Ariel, 2ª ed. corrigida y aumentada, 1985; SCHLEGEL, Friedrich. Conversa sobre a poesia e outros fragmentos, Tradução de Victor-Pierre Stirnimann, São Paulo: Iluminuras, 1994; SHIPLEY, Joseph. Dictionary of World Literature, New Jersey: Littleford, Adams &amp; Co., 1972.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sílvia Regina Pinto&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-2335070351822936610?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/2335070351822936610/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=2335070351822936610' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2335070351822936610'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2335070351822936610'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2009/04/poema.html' title='POEMA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-4801256072115777025</id><published>2009-04-08T15:00:00.001+01:00</published><updated>2009-04-08T15:06:16.283+01:00</updated><title type='text'>TRÊS POEMAS de ÉRICO NOGUEIRA</title><content type='html'>DILÚCULO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um lume chega – ou vem do alto, ou vem de baixo,&lt;br /&gt;a treva, devagar, expele um novo dia;&lt;br /&gt;sorriem bocas, mas num outro pasto,&lt;br /&gt;que neste não há boca que sorria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A folha verde desprendeu-se do salgueiro,&lt;br /&gt;vagou luzindo pelo vento largo:&lt;br /&gt;secou a folha logo, por inteiro,&lt;br /&gt;o lume naufragou, salgado como um barco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GLOSA DE MOTE ALHEIO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem bússola, sem mapa ou astrolábio&lt;br /&gt;com que se ache, amigo, a tua estrela,&lt;br /&gt;apruma o pinho, põe no mastro a ave&lt;br /&gt;que te pareça bem ali, de vela;&lt;br /&gt;daquela funda treva não se sabe&lt;br /&gt;como voltar, a altura não se anela:&lt;br /&gt;te resta o mar pisado e repisado,&lt;br /&gt;pescar, talvez, o que já foi pescado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa mão ergue, amigo, num instante,&lt;br /&gt;outra mão em seguida o arruína:&lt;br /&gt;por isso não há rota, e o navegante&lt;br /&gt;perde o que teve, ganha o que não tinha,&lt;br /&gt;e sem saber se é quartzo, se diamante,&lt;br /&gt;lapida o que lhe coube na partilha;&lt;br /&gt;de um torso sem os membros quem cinzela&lt;br /&gt;faz ave se calhar, destino, estela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;AS QUATRO ESTAÇÕES&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.&lt;br /&gt;A noite, e tudo o que é escuro e cíclico&lt;br /&gt;e liquefaz-se ao tempo do farol,&lt;br /&gt;está predita em todos os testículos,&lt;br /&gt;nas orquídeas que chegam com a estação,&lt;br /&gt;embora não vejamos. Só o ouvido,&lt;br /&gt;que pinça o inominado, pinça, então,&lt;br /&gt;do rio a cuja beira estive, estou,&lt;br /&gt;o ar da bolha, da que morre o grito.&lt;br /&gt;Eu não ouvia bem naquele tempo&lt;br /&gt;quando meu olho, então recém-aberto,&lt;br /&gt;se iluminava, fixo no desenho&lt;br /&gt;que as folhas têm olhadas mais de perto;&lt;br /&gt;tanto pior, tanto mais fria a noite&lt;br /&gt;de quem vai nu ao mar, vai nu ao monte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;a João Ângelo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o átimo em que se aniquilam&lt;br /&gt;dos corpos toda sombra e traço dúbio,&lt;br /&gt;quando o globo é mais túrgido e mais nítido,&lt;br /&gt;tem mais saliva a língua, que mergulha,&lt;br /&gt;é quando o espinho, antes imprevisto&lt;br /&gt;em fruta incandescente assim, e úmida,&lt;br /&gt;entala na garganta e não afunda&lt;br /&gt;se não levar quem mergulhou consigo.&lt;br /&gt;Eu cuidava que as águas eram rasas,&lt;br /&gt;e que corais nem pérolas havia&lt;br /&gt;senão os ossos que à maré mesquinha&lt;br /&gt;apetecia abandonar na praia:&lt;br /&gt;lambido o fogo, vi-me em água densa&lt;br /&gt;abrindo a ostra ao fogo nada infensa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;Amarelece o ar, a terra, a água;&lt;br /&gt;o fogo amadurece e, doce, azula;&lt;br /&gt;se incide sobre as pedras na penumbra,&lt;br /&gt;ele descobre-lhes a face exata&lt;br /&gt;e delas vai fazendo busto e estátua:&lt;br /&gt;tendo subido aqui, a esta altura,&lt;br /&gt;indiferente sob estio ou chuva,&lt;br /&gt;vejo que pedras tenho só, talhadas,&lt;br /&gt;mas pedras mesmo assim. Pergunto ao fogo&lt;br /&gt;de que me vale a mim a galeria,&lt;br /&gt;se em breve escorrerei ao negro poço&lt;br /&gt;e passarei: “De nada valeria,&lt;br /&gt;se a cerejeira não florisse agora&lt;br /&gt;sob o vento que passa e a luz que doura.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4.&lt;br /&gt;E a nuvem torna, torna enfim o vidro&lt;br /&gt;de que se enche aquele mar imóvel&lt;br /&gt;onde o cardume acaba, e o rio que corre;&lt;br /&gt;o louro seco, a taça já sem vinho&lt;br /&gt;e a neve elementar no céu friíssimo&lt;br /&gt;parecem proclamar que se dissolve&lt;br /&gt;o quanto pelos lábios dança e escorre:&lt;br /&gt;se o galho esplende, pesa sobre o abismo.&lt;br /&gt;Neste penhasco, na aridez da pedra,&lt;br /&gt;me apronto agora para ser levado,&lt;br /&gt;para voltar enfim a ser areia,&lt;br /&gt;e penso em tudo, e olho a todo lado;&lt;br /&gt;não sei se é luz ou não o que há no gelo,&lt;br /&gt;mas sei que é calmo, que não vou temê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;+&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Érico Nogueira nasceu em Bragança Paulista em 1979. Poeta e estudioso da Antigüidade greco-latina, ganhou o “Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura” de 2008 com O Livro de Scardanelli (É Realizações, 2008), de que selecionamos os poemas aqui publicados. Vive em São Paulo, onde trabalha como editor (Dicta &amp; Contradicta) e professor de línguas e literaturas clássicas (Instituto Internacional de Ciências Sociais).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-4801256072115777025?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://ericonogueira.blogspot.com/' title='TRÊS POEMAS de ÉRICO NOGUEIRA'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/4801256072115777025/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=4801256072115777025' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4801256072115777025'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4801256072115777025'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2009/04/tres-poemas-de-erico-nogueira.html' title='TRÊS POEMAS de ÉRICO NOGUEIRA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-8597843201038426343</id><published>2009-03-13T19:55:00.001Z</published><updated>2009-04-08T14:48:43.722+01:00</updated><title type='text'>E  TUDO  ERA  POSSÍVEL</title><content type='html'>Na minha juventude antes de ter saído&lt;br /&gt;da casa de meus pais disposto a viajar&lt;br /&gt;eu conhecia já o rebentar do mar&lt;br /&gt;das páginas dos livros que já tinha lido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegava o mês de maio era tudo florido&lt;br /&gt;o rolo das manhãs punha-se a circular&lt;br /&gt;e era só ouvir o sonhador falar&lt;br /&gt;da vida como se ela houvesse acontecido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo se passava numa outra vida&lt;br /&gt;e havia para as coisas sempre uma saída&lt;br /&gt;Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só sei que tinha o poder duma criança&lt;br /&gt;entre as coisas e mim havia vizinhança&lt;br /&gt;e tudo era possível era só querer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ruy Belo, Homem de Palavra[s]&lt;br /&gt;Lisboa, Editorial Presença, 1999 (5ª ed.)&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/Sdyq0YiIwUI/AAAAAAAAAGo/4ffKOSJVwtA/s1600-h/Ruy+Belo.bmp"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;width: 235px; height: 320px;" src="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/Sdyq0YiIwUI/AAAAAAAAAGo/4ffKOSJVwtA/s320/Ruy+Belo.bmp" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5322316676560634178" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ruy Belo nasceu em S. João da Ribeira, pequena aldeia do concelho de Rio Maior, em 1933. Foi aluno do liceu de Santarém e cursou Direito, primeiro na Universidade de Coimbra, depois na Universidade de Lisboa, onde se diplomou em 1956. De partida para Roma, doutorou-se em Direito Canónico na Universidade de S. Tomás de Aquino. Em Lisboa, viria a frequentar também a Faculdade de Letras, terminando em 1967 a licenciatura em Filologia Românica. Além de actividade no domínio editorial, Ruy Belo foi também professor. Leitor na Universidade de Madrid desde 1971, regressou ao país em 1977, vindo a falecer de modo súbito no ano seguinte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nome de destaque na poesia portuguesa contemporânea, exerceu igualmente intensa actividade de  ensaísta e crítico literário. Da sua obra poética fazem parte Aquele Grande Rio Eufrates (1961), Boca Bilingue (1966), Despeço-me da Terra da Alegria (1977).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Obra Poética de Ruy Belo encontra-se reunida em dois volumes publicados pela Editorial Presença, com organização e comentários de Joaquim Manuel Magalhães. Os livros do poeta estão a ser reeditados pela mesma editora. Um volume único com toda a obra poética, significativamente intitulado Todos os Poemas, foi ainda recentemente dado à estampa pelo Círculo de Leitores (2000) e pela Assírio &amp; Alvim (2001).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-8597843201038426343?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/8597843201038426343/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=8597843201038426343' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8597843201038426343'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8597843201038426343'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2009/03/e-tudo-era-possivel-na-minha-juventude.html' title='E  TUDO  ERA  POSSÍVEL'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/Sdyq0YiIwUI/AAAAAAAAAGo/4ffKOSJVwtA/s72-c/Ruy+Belo.bmp' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-375861435748803965</id><published>2008-10-12T10:20:00.005+01:00</published><updated>2008-10-17T18:36:23.787+01:00</updated><title type='text'>JORGE DE SENA</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SPjNDqgjENI/AAAAAAAAAE0/djdmK7nnwGY/s1600-h/goya-thirdofmay.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SPjNDqgjENI/AAAAAAAAAE0/djdmK7nnwGY/s320/goya-thirdofmay.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5258178027789160658" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Fuzilamentos de Goya&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CARTA A MEUS FILHOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.&lt;br /&gt;É possível, porque tudo é possível, que ele seja&lt;br /&gt;aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,&lt;br /&gt;onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém&lt;br /&gt;de nada haver que não seja simples e natural.&lt;br /&gt;Um mundo em que tudo seja permitido,&lt;br /&gt;conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,&lt;br /&gt;o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.&lt;br /&gt;E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto&lt;br /&gt;o que vos interesse para viver. Tudo é possível,&lt;br /&gt;ainda quando lutemos, como devemos lutar,&lt;br /&gt;por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,&lt;br /&gt;ou mais que qualquer delas uma fiel&lt;br /&gt;dedicação à honra de estar vivo.&lt;br /&gt;Um dia sabereis que mais que a humanidade&lt;br /&gt;não tem conta o número dos que pensaram assim,&lt;br /&gt;amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,&lt;br /&gt;de insólito, de livre, de diferente,&lt;br /&gt;e foram sacrificados, torturados, espancados,&lt;br /&gt;e entregues hipocritamente â secular justiça,&lt;br /&gt;para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»&lt;br /&gt;Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,&lt;br /&gt;a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas&lt;br /&gt;à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,&lt;br /&gt;foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,&lt;br /&gt;e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,&lt;br /&gt;ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.&lt;br /&gt;Às vezes, por serem de uma raça, outras&lt;br /&gt;por serem de urna classe, expiaram todos&lt;br /&gt;os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência&lt;br /&gt;de haver cometido. Mas também aconteceu&lt;br /&gt;e acontece que não foram mortos.&lt;br /&gt;Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,&lt;br /&gt;aniquilando mansamente, delicadamente,&lt;br /&gt;por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.&lt;br /&gt;Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,&lt;br /&gt;foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha&lt;br /&gt;há mais de um século e que por violenta e injusta&lt;br /&gt;ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,&lt;br /&gt;que tinha um coração muito grande, cheio de fúria&lt;br /&gt;e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.&lt;br /&gt;Apenas um episódio, um episódio breve,&lt;br /&gt;nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)&lt;br /&gt;de ferro e de suor e sangue e algum sémen&lt;br /&gt;a caminho do mundo que vos sonho.&lt;br /&gt;Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém&lt;br /&gt;vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.&lt;br /&gt;É isto o que mais importa - essa alegria.&lt;br /&gt;Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto&lt;br /&gt;não é senão essa alegria que vem&lt;br /&gt;de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém&lt;br /&gt;está menos vivo ou sofre ou morre&lt;br /&gt;para que um só de vós resista um pouco mais&lt;br /&gt;à morte que é de todos e virá.&lt;br /&gt;Que tudo isto sabereis serenamente,&lt;br /&gt;sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,&lt;br /&gt;e sobretudo sem desapego ou indiferença,&lt;br /&gt;ardentemente espero. Tanto sangue,&lt;br /&gt;tanta dor, tanta angústia, um dia&lt;br /&gt;- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -&lt;br /&gt;não hão-de ser em vão. Confesso que&lt;br /&gt;multas vezes, pensando no horror de tantos séculos&lt;br /&gt;de opressão e crueldade, hesito por momentos&lt;br /&gt;e uma amargura me submerge inconsolável.&lt;br /&gt;Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,&lt;br /&gt;quem ressuscita esses milhões, quem restitui&lt;br /&gt;não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?&lt;br /&gt;Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes&lt;br /&gt;aquele instante que não viveram, aquele objecto&lt;br /&gt;que não fruíram, aquele gesto&lt;br /&gt;de amor, que fariam «amanhã».&lt;br /&gt;E. por isso, o mesmo mundo que criemos&lt;br /&gt;nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa&lt;br /&gt;que não é nossa, que nos é cedida&lt;br /&gt;para a guardarmos respeitosamente&lt;br /&gt;em memória do sangue que nos corre nas veias,&lt;br /&gt;da nossa carne que foi outra, do amor que&lt;br /&gt;outros não amaram porque lho roubaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;JORGE DE SENA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal&lt;br /&gt;(1919-1978)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-375861435748803965?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/375861435748803965/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=375861435748803965' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/375861435748803965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/375861435748803965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2008/10/jorge-de-sena.html' title='JORGE DE SENA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/SPjNDqgjENI/AAAAAAAAAE0/djdmK7nnwGY/s72-c/goya-thirdofmay.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-8059458085939381316</id><published>2007-11-07T23:09:00.000Z</published><updated>2007-11-07T23:13:39.225Z</updated><title type='text'>Claridade e Rigor na Poesia de Eugénio de Andrade</title><content type='html'>MAIS de cinquenta anos passados sobre a revelação em livro, a poética de Eugénio de Andrade, na clara solaridade vocabular que em todos os seus poemas se patenteia com exuberância, tem reincidido nos últimos livros na mesma sinceridade e brevidade expressivas que fazem de toda a sua obra essa morada onde pairam sempre as sombras, passos e lugares que foram da infância e adolescência, de peregrinação e de vagabundagem por muitas outras paragens. Por isso, retomar o diálogo com o Poeta de Mar de Setembro, mesmo na insistência de uma concisão vocabular que o fazem mergulhar por vezes em certas imagens quase comuns ou de menor forma expressiva, de algum modo estabelecer o convívio com uma das vozes mais coerentes da poesia desta segunda metade do século XX português.&lt;br /&gt;Na verdade, cada novo livro de Eugénio de Andrade, sendo ainda e sempre um mesmo e outro livro, prolonga ou retoma esse discurso cristalino e sincero, breve e incisivo, de saber guiar o leitor pelos lugares obscuros, 'branco no branco' (mesmo na aparente contradição expressiva e poética), que traz consigo essa tradição lírica portuguesa de Bernardin, Camões ou até dos primeiros trovadores medievais. Mas esse discurso, sendo idêntico e sempre diferente, ainda o mesmo tom e modo de o Poeta saber falar da vida e do mundo, dos pessoas e das coisas, dos olhares e dos sentimentos, nesse dizer por dizer ao rés das  águas límpidas ou dos rios e lugares de diversa peregrinação, na persistente e decantada claridade poética:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a ciência está  aqui,&lt;br /&gt;na maneira como esta mulher&lt;br /&gt;dos arredores de Cantão&lt;br /&gt;os dos campos de Alpedrinha&lt;br /&gt;rega quatro ou cinco leiras de couves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, por essa repetida 'arte poética', Eugénio de Andrade, na brevidade e sinceridade do verbo, na emotiva e sempre renovada forma de abordar ou olhar o mundo, reencontra ou redescobre, mesmo num lódão perto da casa onde morara, num Porto que desde há  muitos anos lhe pertence por direito de íntima coabitação, esse sentido solar da sua própria efemeridade, no fazer rente ao dizer e na carga simbólica e sentida das palavras com que todo esse seu 'verbo' poético se tece e enaltece:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também a poesia é filha da necessidade&lt;br /&gt;- esta que me chega um pouco já  fora do tempo,&lt;br /&gt;deixou de ser a sumarenta alegria&lt;br /&gt;do sol sobre a boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, na avalanche metafórica e expressiva de um propositado e claro rigor de expressão, uma poesia que arrebata e comove, destituída de sombras ou inibições, liberta de ironias ou de sarcasmos, mas, como declara Jorge de Sena, todavia'uma poesia aberta com generosidade a todos os anseios de libertação, sempre concebida num bom gosto que defendeu o poeta dos exageros do neo-realismo, do surrealismo ou do barroquismo hispânico', alcançando, no termo dessa sua pessoal experiência e aventura poética cumprida em largos anos, uma plenitude que faz a poesia de Eugénio de Andrade ser hoje verdadeiramente das mais lidas e admiradas por amplas camadas de leitores.&lt;br /&gt;Talvez porque no rigor prosseguído no fio calmo dos anos, o que o Poeta de As Mãos e os Frutos deseja acima de tudo é que, pela simplicidade formal e pela transfiguração da sua expressão e clareza, essa solidariedade se confirme, de livro a livro, na cadência dos próprios versos, nessa inocência quase pagã sem deuses nem excessos, no cantante enaltecer do corpo, da terra e da vida, ou como já  observara Eduardo Lourenço poder ainda dizer-se nenhum poeta como Eugénio de Andrade escreveu poesia de tal modo convincente com as figuras que lha sugerem e o obrigam a cantá-las, como se tudo estivesse certo no universo e só nós, no fundo, estivéssemos a mais'.&lt;br /&gt;E assim, na intencional insistência dessa música vital que perpassa em cada poema de Eugénio de Andrade, saber-se que o rumor do mundo se constrói ainda e sempre de palavras, que nessa poética carregam todo o peso da memória, pelas sombras e lugares de um inalterável peregrinar, em trajecto que é único e singularíssimo na poesia portuguesa do nosso tempo, e ter sabido desde longe andar em boas companhias: Homero, Platão, Whitman ou Blake, Lorca, Machado, Montale ou Pessoa. E uma vez mais proclamar num dos poemas emblemáticos de Rente ao Dizer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;materna casa da alegria&lt;br /&gt;e da mágoa;&lt;br /&gt;dança do sol e do sal;&lt;br /&gt;língua em que escrevo;&lt;br /&gt;ou antes: falo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Serafim Ferreira&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-8059458085939381316?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/8059458085939381316/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=8059458085939381316' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8059458085939381316'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8059458085939381316'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/11/claridade-e-rigor-na-poesia-de-eugnio.html' title='Claridade e Rigor na Poesia de Eugénio de Andrade'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-8851209460927564437</id><published>2007-11-07T23:02:00.000Z</published><updated>2007-11-07T23:03:45.202Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RzJENGkwCCI/AAAAAAAAAD8/e-gk-9q7X0I/s1600-h/eugenio_de_andrade_1.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RzJENGkwCCI/AAAAAAAAAD8/e-gk-9q7X0I/s320/eugenio_de_andrade_1.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5130237917422159906" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-8851209460927564437?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/8851209460927564437/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=8851209460927564437' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8851209460927564437'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8851209460927564437'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/11/blog-post_1321.html' title=''/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RzJENGkwCCI/AAAAAAAAAD8/e-gk-9q7X0I/s72-c/eugenio_de_andrade_1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7645696647754274790</id><published>2007-11-07T22:59:00.000Z</published><updated>2007-11-07T23:01:50.959Z</updated><title type='text'>SOU FILHO DE CAMPONESES...</title><content type='html'>"Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio de amor vigilante e sem fadiga da minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elementar. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitectura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em reflectir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico - o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas é sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estava dividido, a luz, cindida, o bem e o mal compartimentados; e ainda uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7645696647754274790?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7645696647754274790/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7645696647754274790' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7645696647754274790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7645696647754274790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/11/sou-filho-de-camponeses.html' title='SOU FILHO DE CAMPONESES...'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-6418252027979339227</id><published>2007-11-06T19:39:00.000Z</published><updated>2007-11-06T19:40:53.099Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RzDDJmkwCBI/AAAAAAAAAD0/0L7Lyk5PRlo/s1600-h/bib_c.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RzDDJmkwCBI/AAAAAAAAAD0/0L7Lyk5PRlo/s320/bib_c.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5129814545315923986" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-6418252027979339227?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/6418252027979339227/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=6418252027979339227' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/6418252027979339227'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/6418252027979339227'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/11/blog-post_06.html' title=''/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RzDDJmkwCBI/AAAAAAAAAD0/0L7Lyk5PRlo/s72-c/bib_c.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-11179556767992587</id><published>2007-11-06T10:16:00.000Z</published><updated>2007-11-06T10:17:58.737Z</updated><title type='text'>HOMENAGEM A EUGÉNIO DE ANDRADE, MORTO.</title><content type='html'>Andityas Soares de Moura&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conheci Eugénio de Andrade pessoalmente. A seu respeito só sei aquilo que toda a gente sabe, além de algumas fábulas e lendas adicionais que me foram confiadas pelo poeta Xosé Lois García, esse sim, amigo íntimo do falecido. Não conheci Eugénio e não gostaria de tê-lo conhecido. Sua cínica vaidade, associada a uma presunçosa ironia, o tornavam, para mim, uma pessoa, no mínimo, de convivência difícil. Não me sentiria à vontade em sua presença. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso, evidentemente, não é um problema. Na verdade, não gostaria de conhecer quase nenhum dos poetas que admiro. Quem conseguiria conversar com Dante qualquer coisa que não fosse, pelo menos, solene? E Rimbaud, será que alguém se habilitaria a dividir o quarto com o moço, sabendo que, entre outros hábitos, ele cultivava piolhos na própria cabeça? É possível imaginar mesa de bar mais tediosa do que uma à qual se sentassem Eliot, Pound e Rilke? Não conseguiria falar sobre assuntos triviais e humanos com Lorca, meu grande e querido Lorca, que só é assim porque o tenho, irreal, no coração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Definitivamente, é preciso deixar os poetas em paz, cada qual com suas esquisitices, e, atividade que se torna cada vez mais rara no dias de hoje, ler as suas obras. A de Eugénio de Andrade vale a pena. Esse homem que agora morreu deixou-nos algumas das páginas mais límpidas da poesia portuguesa contemporânea. A leveza de seu estilo, a pureza de timbre e a arquitetura algo apolínea de seus versos são suficientes para diferenciá-lo e localizá-lo muito acima da maioria dos poetas portugueses vivos – e boa parte dos mortos, com exceção de um Pessoa ou de um Sá Carneiro. Quando nos aproximamos de seus poemas, somos invadidos por qualquer coisa de inefável e intraduzível. Suas palavras parecem escolhidas ao acaso. Todavia, compõem um todo harmônico habilmente projetado do qual quase não notamos as molas mestras, tão naturais que são: rigor e simplicidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poeta do corpo e de suas paixões, Eugénio sabia manejar o verbo poético, conferindo-lhe uma realidade erótica crepuscular. Contudo, jamais permitia que sua dicção soasse banal ou, o que é pior, vulgar. Compreendia muito bem, com Wilde, que, assim como todo crime é vulgar, toda vulgaridade é criminosa. A nitidez de suas tintas líricas lembram os clássicos e ele, ao seu modo muito peculiar, foi um deles: árcade desgarrado no tempo e no espaço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor na poesia de Eugénio nunca é alegre ou epifânico. O silêncio de gestos repetidos, de ternuras agônicas escorrem por suas páginas, molhadas do mais frio orvalho dos tempos: “Nada podeis contra o amor,/ Contra a cor da folhagem,/ contra a carícia da espuma,/ contra a luz, nada podeis./ Podeis dar-nos a morte,/ a mais vil, isso podeis/ – e é tão pouco!” (in Frente a frente). A ciência do amor, essa impura sabedoria, que só se aprende tarde, no limite – Drummond dixit –, foi, sem dúvida, o tema central da obra do poeta português, e isso contra todas as modas pós-modernas que insistem em não falar de coisas “ultrapassadas” como o amar. Mas não nos enganemos: o amor em Eugénio não é esfera de despreocupação ou de gratuidade lírica. Na poesia amorosa (erótica? pornográfica, algumas vezes?) de Eugênio não há trivialidades. Nela, se há inocência ou alegria, tal se dá apenas como gozo momentâneo ou explosão erótica. Na maioria das vezes, o amor é triste. Não há derramamentos pueris e ingênuos. Eugênio, como Mallarmé, leu todos os livros da carne: “Já gastámos as palavras./ Quando agora digo: meu amor,/ já não se passa absolutamente nada./ E no entanto, antes das palavras gastas,/ tenho a certeza/ de que todas as coisas estremeciam/ só de murmurar o teu nome/ no silêncio do meu coração” ( in Adeus). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As imagens de seus versos evocam uma espécie de paraíso perdido neopagão no qual a carnalidade do desejo se expõe sem mágoas, preconceitos ou ilusões. Nesse sentido, resgata, talvez sem querer, um lirismo autóctone muito português, entranhado, simples e claro. É com “As mãos e os frutos” (1948) que notamos a diferença e a força do seu radical erotismo, que não se compromete com correntes literárias, mas apenas com seus próprios impulsos e visões. Erotismo do corpo, mas também da palavra que o assediava. Somente a mais cortejada das camponesas portuguesas, a poesia, era capaz de fazer Eugénio sorrir de leve, como quem relembra uma antiga paixão juvenil: “Surdo, subterrâneo rio de palavras/ me corre lento pelo corpo todo;/ amor sem margens onde a lua rompe/ e nimba de luar o próprio lodo” (in Surdo, subterrâneo rio). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dono de uma voz peculiar e fluida, José Fontinhas – era esse o verdadeiro nome do escritor, nascido aos 19 de Janeiro de 1923 em Póvoa de Atalaia e morto no Porto, aos 82 anos de idade – misturava aos seus versos uma sonoridade lúdica – verdadeiramente lusa –, muitas vezes comparada a dos trovadores medievais. O recitativo de Eugénio nos lembra o andamento ambíguo, carregado e sensual do fado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falando em fados e ritmos, um das características mais notáveis da poesia de Eugénio de Andrade é a sua recusa consciente de cantar a alma portuguesa, de ser “natural” e acessível às classificações da crítica. Eugénio de Andrade canta como quem não canta. Os modelos canônicos do “poeta da terra”, do “poeta essencial” à moda de Caeiro, personae que tanto infestam a nova poesia portuguesa, não eram importantes para alguém que, como Eugénio, sabia que “as palavras estão gastas” (in Adeus). Por mais de uma vez o poeta se referiu com desdém aos chamados “temas tradicionais portugueses”. Dessa sua honestidade surgiram poemas belíssimos, naturais e gostosamente irônicos: “O meu país sabe as amoras bravas/ no verão./ Ninguém ignora que não é grande,/ nem inteligente, nem elegante o meu país,/ mas tem esta voz doce/ de quem acorda cedo para cantar nas silvas” (in As amoras). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Iniciei estas linhas dizendo que não gostaria de ter conhecido Eugénio de Andrade. E nisso não vai nenhuma repugnância. Sei que em seus últimos anos Eugénio queria ficar livre dos leitores e de todo o resto: das fofocas, dos boatos, das homenagens vazias etc. Talvez por isso tenha preferido se exilar no Porto, cidade céu escuro e tenso, de cinzas igrejas, onde até o rio parece ser de pedra. Ele chegou aquela espécie de estágio letárgico que o impedia de conviver com os seres humanos rasteiros. Isso porque, antes mesmo de morrer, já havia cumprido o seu destino. Virou vate: alma da poesia. Mesmo sem conhecê-lo, ó Eugénio, despeço-me com carinho. Que a eternidade te seja breve, como nos versos finais de teu poema: “Cai o silêncio nos ombros e a luz/ impura, até doer./ É urgente o amor, é urgente/ permanecer” (in É urgente o amor). &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belo Horizonte (Brasil), 20 de junho de 2005.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-11179556767992587?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/11179556767992587/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=11179556767992587' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/11179556767992587'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/11179556767992587'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/11/homenagem-eugnio-de-andrade-morto.html' title='HOMENAGEM A EUGÉNIO DE ANDRADE, MORTO.'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7546354119723696192</id><published>2007-11-06T00:20:00.000Z</published><updated>2007-11-06T00:25:42.203Z</updated><title type='text'>EUGÉNIO DE ANDRADE - Biografia</title><content type='html'>Vida do poeta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eugénio de Andrade foi o pseudónimo de José Fontinhas poeta português do séc. XX, nascido na freguesia de Póvoa de Atalaia (Fundão) em 19 de Janeiro de 1923, fixando-se em Lisboa em 1932 com a mãe, que entretanto se separara do pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estudou no Liceu Passos Manuel e na Escola Técnica Machado de Castro, tendo escrito os seus primeiros poemas em 1936, o primeiro dos quais, intitulado “Narciso”, publicou três anos mais tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1943 mudou-se para Coimbra, onde regressa depois de cumprido o serviço militar convivendo com Miguel Torga e Eduardo Lourenço. Tornou-se funcionário público em 1947, exercendo durante 35 anos as funções de inspector administrativo do Ministério da Saúde. Uma transferência de serviço levá-lo-ia a instalar-se no Porto em 1950, numa casa que só deixou mais de quatro décadas depois, quando se mudou para o edifício da Fundação Eugénio de Andrade, na Foz do Douro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sua consagração já acontecera dois anos antes, em 1948, com a publicação de “As mãos e os frutos”, que mereceu os aplausos de críticos como Jorge de Sena ou Vitorino Nemésio. Entre as dezenas de obras que publicou encontram-se, na poesia, “Os amantes sem dinheiro” (1950), “As palavras interditas” (1951), “Escrita da Terra” (1974), “Matéria Solar” (1980), “Rente ao dizer” (1992), “Ofício da paciência” (1994), “O sal da língua” (1995) e “Os lugares do lume” (1998).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em prosa, publicou “Os afluentes do silêncio” (1968), “Rosto precário” (1979) e “À sombra da memória” (1993), além das histórias infantis “História da égua branca” (1977) e “Aquela nuvem e as outras” (1986).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante os anos que se seguem até hoje, o poeta fez diversas viagens, foi convidado para participar em vários eventos e travou amizades com muitas personalidades da cultura portuguesa e estrangeira, como Joel Serrão, Miguel Torga, Afonso Duarte, Carlos Oliveira, Eduardo Lourenço, Joaquim Namorado, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teixeira de Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Mário Cesariny de Vasconcelos, José Luís Cano, Ángel Crespo, Luís Cernuda, Marguerite Yourcenar, Herberto Helder, Joaquim Manuel Magalhães, João Miguel Fernandes Jorge, Óscar Lopes, e muitos outros…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com “essa debilidade do coração que é a amizade”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebeu inúmeras distinções, entre as quais o Prémio da Associação Internacional de Críticos Literários (1986), Prémio D. Dinis (1988), Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores (1989) e Prémio Camões (2001). Em Setembro de 2003 a sua obra “Os sulcos da sede” foi distinguida com o prémio de poesia do Pen Clube. Viveu em Lisboa de 1932 a 1943. Fixou-se no Porto, a partir de 1950, como funcionário dos Serviços Médico-Sociais. Faleceu a 13 de Junho de 2005, no Porto, após doença neurológica prolongada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7546354119723696192?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7546354119723696192/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7546354119723696192' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7546354119723696192'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7546354119723696192'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/11/eugnio-de-andrade-biografia.html' title='EUGÉNIO DE ANDRADE - Biografia'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-4773954952821935171</id><published>2007-11-05T23:38:00.000Z</published><updated>2007-11-05T23:41:51.070Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/Ry-qAmkwCAI/AAAAAAAAADs/pWPbvuu4wzg/s1600-h/FHLP443_z.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/Ry-qAmkwCAI/AAAAAAAAADs/pWPbvuu4wzg/s320/FHLP443_z.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5129505427929696258" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-4773954952821935171?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/4773954952821935171/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=4773954952821935171' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4773954952821935171'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4773954952821935171'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/11/blog-post.html' title=''/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/Ry-qAmkwCAI/AAAAAAAAADs/pWPbvuu4wzg/s72-c/FHLP443_z.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7104619847366217901</id><published>2007-11-05T23:10:00.000Z</published><updated>2007-11-05T23:37:47.648Z</updated><title type='text'>EUGÉNIO DE ANDRADE - Antologia</title><content type='html'>Balança&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No prato da balança um verso basta&lt;br /&gt;para pesar no outro a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde me levas, rio que cantei...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde me levas, rio que cantei,&lt;br /&gt;esperança destes olhos que molhei&lt;br /&gt;de pura solidão e desencanto?&lt;br /&gt;Onde me leva?, que me custa tanto.&lt;br /&gt;Não quero que conduzas ao silêncio&lt;br /&gt;duma noite maior e mais completa.&lt;br /&gt;com anjos tristes a medir os gestos&lt;br /&gt;da hora mais contrária e mais secreta.&lt;br /&gt;Deixa-me na terra de sabor amargo&lt;br /&gt;como o coração dos frutos bravos.&lt;br /&gt;pátria minha de fundos desenganos,&lt;br /&gt;mas com sonhos, com prantos, com espasmos.&lt;br /&gt;Canção, vai para além de quanto escrevo&lt;br /&gt;e rasga esta sombra que me cerca.&lt;br /&gt;Há outra fase na vida transbordante:&lt;br /&gt;que seja nessa face que me perca.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num exemplar das Geórgicas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os livros. A sua cálida,&lt;br /&gt;terna, serena pele. Amorosa&lt;br /&gt;companhia. Dispostos sempre&lt;br /&gt;a partilhar o sol&lt;br /&gt;das suas águas. Tão dóceis,&lt;br /&gt;tão calados, tão leais.&lt;br /&gt;Tão luminosos na sua&lt;br /&gt;branca e vegetal e cerrada&lt;br /&gt;melancolia. Amados&lt;br /&gt;como nenhuns outros companheiros&lt;br /&gt;da alma. Tão musicais&lt;br /&gt;no fluvial e transbordante&lt;br /&gt;ardor de cada dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lugar da Casa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma casa que fosse um areal&lt;br /&gt;deserto; que nem casa fosse;&lt;br /&gt;só um lugar&lt;br /&gt;onde o lume foi aceso, e à sua roda&lt;br /&gt;se sentou a alegria; e aqueceu&lt;br /&gt;as mãos; e partiu porque tinha&lt;br /&gt;um destino; coisa simples&lt;br /&gt;e pouca, mas destino:&lt;br /&gt;crescer como árvore, resistir&lt;br /&gt;ao vento, ao rigor da invernia,&lt;br /&gt;e certa manhã sentir os passos&lt;br /&gt;de abril&lt;br /&gt;ou, quem sabe?, a floração&lt;br /&gt;dos ramos, que pareciam&lt;br /&gt;secos, e de novo estremecem&lt;br /&gt;com o repentino canto da cotovia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oiço falar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oiço falar da minha vocação&lt;br /&gt;mendicante e sorrio. Porque não sei&lt;br /&gt;se tal vocação não é apenas&lt;br /&gt;uma escolha entre riquezas, como Keats&lt;br /&gt;diz ser a poesia.&lt;br /&gt;Desci á rua pensando nisto,&lt;br /&gt;atravessei o jardim, um cão&lt;br /&gt;saltava á minha frente,&lt;br /&gt;louco com as folhas do outono&lt;br /&gt;que principiara e doiravam&lt;br /&gt;o chão. A música,&lt;br /&gt;digamos assim,&lt;br /&gt;a que toda a alma aspira,&lt;br /&gt;quando a alma&lt;br /&gt;aspira a ter do mundo o melhor dele,&lt;br /&gt;corria á minha frente, subia&lt;br /&gt;por certo aos ouvidos de deus&lt;br /&gt;com a ajuda de um cão,&lt;br /&gt;que nem sequer me pertencia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sal da língua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuta, escuta: tenho ainda&lt;br /&gt;uma coisa a dizer.&lt;br /&gt;Não é importante, eu sei, não vai&lt;br /&gt;salvar o mundo, não mudará&lt;br /&gt;a vida de ninguém - mas quem&lt;br /&gt;é hoje capaz de salvar o mundo&lt;br /&gt;ou apenas mudar o sentido&lt;br /&gt;da vida de alguém?&lt;br /&gt;Escuta-me, não te demoro.&lt;br /&gt;É coisa pouca, como a chuvinha&lt;br /&gt;que vem vindo devagar.&lt;br /&gt;São três, quatro palavras, pouco&lt;br /&gt;mais. Palavras que te quero confiar,&lt;br /&gt;para que não se extinga o seu lume,&lt;br /&gt;o seu lume breve.&lt;br /&gt;Palavras que muito amei,&lt;br /&gt;que talvez ame ainda.&lt;br /&gt;Elas são a casa, o sal da língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É urgente o amor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É urgente o amor.&lt;br /&gt;É urgente um barco no mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É urgente destruir certas palavras,&lt;br /&gt;ódio, solidão e crueldade,&lt;br /&gt;alguns lamentos,&lt;br /&gt;muitas espadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É urgente inventar alegria,&lt;br /&gt;multiplicar os beijos, as searas,&lt;br /&gt;é urgente descobrir rosas e rios&lt;br /&gt;e manhãs claras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cai o silêncio nos ombros e a luz&lt;br /&gt;impura, até doer.&lt;br /&gt;É urgente o amor, é urgente&lt;br /&gt;permanecer.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os teus lábios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os teus lábios&lt;br /&gt;é que a loucura acode,&lt;br /&gt;desce à garganta,&lt;br /&gt;invade a água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No teu peito&lt;br /&gt;é que o pólen do fogo&lt;br /&gt;se junta à nascente,&lt;br /&gt;alastra na sombra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos teus flancos&lt;br /&gt;é que a fonte começa&lt;br /&gt;a ser rio de abelhas,&lt;br /&gt;rumor de tigre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da cintura aos joelhos&lt;br /&gt;é que a areia queima,&lt;br /&gt;o sol é secreto,&lt;br /&gt;cego o silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deita-te comigo.&lt;br /&gt;Ilumina meus vidros.&lt;br /&gt;Entre lábios e lábios&lt;br /&gt;toda a música é minha.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz homem, diz criança, diz estrela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz homem, diz criança, diz estrela.&lt;br /&gt;Repete as sílabas&lt;br /&gt;onde a luz é feliz e se demora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volta a dizer: homem, mulher, criança.&lt;br /&gt;Onde a beleza é mais nova.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É na escura folhagem do sono&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É na escura folhagem do sono&lt;br /&gt;que brilha&lt;br /&gt;a pele molhada,&lt;br /&gt;a difícil floração da língua.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colhe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Colhe&lt;br /&gt;todo o oiro do dia&lt;br /&gt;na haste mais alta&lt;br /&gt;da melancolia.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda sabemos cantar...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda sabemos cantar,&lt;br /&gt;só a nossa voz é que mudou:&lt;br /&gt;somos agora mais lentos,&lt;br /&gt;mais amargos,&lt;br /&gt;e um novo gesto é igual ao que passou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um verso já não é a maravilha,&lt;br /&gt;um corpo já não é a plenitude.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca o verão se demorara&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca o verão se demorara&lt;br /&gt;assim nos lábios&lt;br /&gt;e na água&lt;br /&gt;- como podíamos morrer,&lt;br /&gt;tão próximos&lt;br /&gt;e nus e inocentes?&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devias estar aqui rente aos meus lábios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devias estar aqui rente aos meus lábios&lt;br /&gt;para dividir contigo esta amargura&lt;br /&gt;dos meus dias partidos um a um&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu vi a terra limpa no teu rosto,&lt;br /&gt;Só no teu rosto e nunca em mais nenhum&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;De palavra em palavra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De palavra em palavra&lt;br /&gt;a noite sobe&lt;br /&gt;aos ramos mais altos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e canta&lt;br /&gt;o êxtase do dia.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi para ti que criei as rosas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi para ti que criei as rosas.&lt;br /&gt;Foi para ti que lhes dei perfume.&lt;br /&gt;Para ti rasguei ribeiros&lt;br /&gt;e dei ás romãs a cor do lume.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Húmido de beijos e de lágrimas,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Húmido de beijos e de lágrimas,&lt;br /&gt;ardor da terra com sabor a mar,&lt;br /&gt;o teu corpo perdia-se no meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Vontade de ser barco ou de cantar.)&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sê paciente; espera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sê paciente; espera&lt;br /&gt;que a palavra amadureça&lt;br /&gt;e se desprenda como um fruto&lt;br /&gt;ao passar o vento que a mereça.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje roubei todas as rosas dos jardins&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje roubei todas as rosas dos jardins&lt;br /&gt;e cheguei ao pé de ti de mãos vazias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;À breve, azul cantilena&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À breve, azul cantilena&lt;br /&gt;dos teus olhos quando anoitecem.  &lt;br /&gt;Vê como o verão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê como o verão&lt;br /&gt;subitamente&lt;br /&gt;se faz água no teu peito,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e a noite se faz barco,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e minha mão marinheiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Eram de longe...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram de longe.&lt;br /&gt;Do mar traziam&lt;br /&gt;o que é do mar: doçura&lt;br /&gt;e ardor nos olhos fatigados.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A raiz do linho...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A raiz do linho&lt;br /&gt;foi meu alimento,&lt;br /&gt;foi o meu tormento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas então cantava.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase Nada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor&lt;br /&gt;é uma ave a tremer&lt;br /&gt;nas mãos de uma criança.&lt;br /&gt;Serve-se de palavras&lt;br /&gt;por ignorar&lt;br /&gt;que as manhãs mais limpas&lt;br /&gt;não têm voz.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Madrigal&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tu já tinhas um nome, e eu não sei &lt;br /&gt;se eras fonte ou brisa ou mar ou flor. &lt;br /&gt;Nos meus versos chamar-te-ei amor.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São como cristal,&lt;br /&gt;as palavras.&lt;br /&gt;Algumas, um punhal,&lt;br /&gt;um incêndio.&lt;br /&gt;Outras,&lt;br /&gt;orvalho apenas.&lt;br /&gt;Secretas vêm, cheias de memória.&lt;br /&gt;Inseguras navegam:&lt;br /&gt;barcos ou beijos,&lt;br /&gt;as águas estremecem.&lt;br /&gt;Desamparadas, inocentes,&lt;br /&gt;leves.&lt;br /&gt;Tecidas são de luz&lt;br /&gt;e são a noite.&lt;br /&gt;E mesmo pálidas&lt;br /&gt;verdes paraísos lembram ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem as escuta? Quem&lt;br /&gt;as recolhe, assim,&lt;br /&gt;cruéis, desfeitas,&lt;br /&gt;nas suas conchas puras?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rotina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passamos pelas coisas sem as ver,&lt;br /&gt;gastos, como animais envelhecidos:&lt;br /&gt;se alguém chama por nós não respondemos,&lt;br /&gt;se alguém nos pede amor não estremecemos,&lt;br /&gt;como frutos de sombra sem sabor,&lt;br /&gt;vamos caindo ao chão, apodrecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adeus&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já gastámos as palavras pela rua, meu amor, &lt;br /&gt;e o que nos ficou não chega &lt;br /&gt;para afastar o frio de quatro paredes. &lt;br /&gt;Gastámos tudo menos o silêncio. &lt;br /&gt;Gastámos os olhos com o sal das lágrimas, &lt;br /&gt;gastámos as mãos à força de as apertarmos, &lt;br /&gt;gastámos o relógio e as pedras das esquinas &lt;br /&gt;em esperas inúteis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meto as mãos nas algibeiras &lt;br /&gt;e não encontro nada. &lt;br /&gt;Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro! &lt;br /&gt;Era como se todas as coisas fossem minhas: &lt;br /&gt;quanto mais te dava mais tinha para te dar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes! &lt;br /&gt;E eu acreditava! &lt;br /&gt;Acreditava, &lt;br /&gt;porque ao teu lado &lt;br /&gt;todas as coisas eram possíveis. &lt;br /&gt;Mas isso era no tempo dos segredos, &lt;br /&gt;no tempo em que o teu corpo era um aquário, &lt;br /&gt;no tempo em que os teus olhos &lt;br /&gt;eram peixes verdes. &lt;br /&gt;Hoje são apenas os teus olhos. &lt;br /&gt;É pouco, mas é verdade, &lt;br /&gt;uns olhos como todos os outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já gastámos as palavras. &lt;br /&gt;Quando agora digo: meu amor... &lt;br /&gt;já não se passa absolutamente nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no entanto, antes das palavras gastas, &lt;br /&gt;tenho a certeza &lt;br /&gt;de que todas as coisas estremeciam &lt;br /&gt;só de murmurar o teu nome &lt;br /&gt;no silêncio do meu coração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não temos nada que dar. &lt;br /&gt;Dentro de ti &lt;br /&gt;Não há nada que me peça água. &lt;br /&gt;O passado é inútil como um trapo. &lt;br /&gt;E já te disse: as palavras estão gastas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adeus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A boca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boca,&lt;br /&gt;onde o fogo &lt;br /&gt;de um verão&lt;br /&gt;muito antigo cintila,&lt;br /&gt;a boca espera&lt;br /&gt;(que pode uma boca esperar senão outra boca?) &lt;br /&gt;espera o ardor do vento&lt;br /&gt;para ser ave e cantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levar-te à boca,&lt;br /&gt;beber a água mais funda do teu ser &lt;br /&gt;se a luz é tanta,&lt;br /&gt;como se pode morrer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Também o deserto vem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também o deserto vem&lt;br /&gt;do mar. Não sei em que navio,&lt;br /&gt;mas foi desses lugares&lt;br /&gt;que chegaram ao meu jardim&lt;br /&gt;as palmeiras.&lt;br /&gt;Com o sol das areias&lt;br /&gt;em cada folha,&lt;br /&gt;na coroa o sopro&lt;br /&gt;ainda húmido das estrelas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Green God&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trazia consigo a graça  &lt;br /&gt;das fontes quando anoitece.  &lt;br /&gt;Era o corpo como um rio  &lt;br /&gt;em sereno desafio  &lt;br /&gt;com as margens quando desce.  &lt;br /&gt;Andava como quem passa  &lt;br /&gt;sem ter tempo de parar.  &lt;br /&gt;Ervas nasciam dos passos,  &lt;br /&gt;cresciam troncos dos braços  &lt;br /&gt;quando os erguia no ar.  &lt;br /&gt;Sorria como quem dança.  &lt;br /&gt;E desfolhava ao dançar  &lt;br /&gt;o corpo, que lhe tremia  &lt;br /&gt;num ritmo que ele sabia  &lt;br /&gt;que os deuses devem usar.  &lt;br /&gt;E seguia o seu caminho,  &lt;br /&gt;porque era um deus que passava.  &lt;br /&gt;Alheio a tudo o que via,  &lt;br /&gt;enleado na melodia  &lt;br /&gt;duma flauta que tocava.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na varanda de Florbela&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui cantaste nua.&lt;br /&gt;Aqui bebeste a planicie, a lua,&lt;br /&gt;e ao vento deste os olhos a beber.&lt;br /&gt;Aqui abandonaste as mãos&lt;br /&gt;a tudo o que não chega a acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui vieram bailar as estações&lt;br /&gt;e com elas tu bailaste.&lt;br /&gt;Aqui mordeste os seios por abrir,&lt;br /&gt;fechaste o corpo à sede das searas&lt;br /&gt;e no lume de ti própria te queimaste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;As Palavras Interditas&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os navios existem e existe o teu rosto &lt;br /&gt;encostado ao rosto dos navios.  &lt;br /&gt;Sem nenhum destino flutuam nas cidades, &lt;br /&gt;partem no vento, regressam nos rios.   &lt;br /&gt;Na areia branca, onde o tempo começa, &lt;br /&gt;uma criança passa de costas para o mar. &lt;br /&gt;Anoitece. Não há dúvida, anoitece.  &lt;br /&gt;É preciso partir, é preciso ficar.   &lt;br /&gt;Os hospitais cobrem-se de cinza. &lt;br /&gt;Ondas de sombra quebram nas esquinas. &lt;br /&gt;Amo-te... E abrem-se janelas &lt;br /&gt;mostrando a brancura das cortinas.  &lt;br /&gt;As palavras que te envio são interditas &lt;br /&gt;até, meu amor, pelo halo das searas;  &lt;br /&gt;se alguma regressasse, nem já reconhecia &lt;br /&gt;o teu nome nas minhas curvas claras.  &lt;br /&gt;Dói-me esta água, este ar que se respira,  &lt;br /&gt;dói-me esta solidão de pedra escura, &lt;br /&gt;e estas mãos noturnas onde aperto  &lt;br /&gt;os meus dias quebrados na cintura.   &lt;br /&gt;E a noite cresce apaixonadamente. &lt;br /&gt;Nas suas margens vivas, desenhadas,  &lt;br /&gt;cada homem tem apenas para dar &lt;br /&gt;um horizonte de cidades bombardeadas.  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adeus&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Como se houvesse uma tempestade&lt;br /&gt;escurecendo os teus cabelos,&lt;br /&gt;ou, se preferes, minha boca nos teus olhos&lt;br /&gt;carregada de flor e dos teus dedos; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como se houvesse uma criança cega&lt;br /&gt;aos tropeções dentro de ti,&lt;br /&gt;eu falei em neve - e tu calavas&lt;br /&gt;a voz onde contigo me perdi.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Como se a noite se viesse e te levasse,&lt;br /&gt;eu era só fome o que sentia;&lt;br /&gt;Digo-te adeus, como se não voltasse&lt;br /&gt;ao país onde teu corpo principia.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Como se houvesse nuvens sobre nuvens&lt;br /&gt;e sobre as nuvens mar perfeito,&lt;br /&gt;ou, se preferes, a tua boca clara&lt;br /&gt;singrando largamente no meu peito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canção&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Tu eras neve.&lt;br /&gt;Branca neve acariciada.&lt;br /&gt;Lágrima e jasmim&lt;br /&gt;no limiar da madrugada. &lt;br /&gt;Tu eras água.&lt;br /&gt;Água do mar se te beijava.  &lt;br /&gt;Alta torre, alma, navio, &lt;br /&gt;adeus que não começa nem acaba. &lt;br /&gt;Eras o fruto&lt;br /&gt;nos meus dedos a tremer.&lt;br /&gt;Podíamos cantar&lt;br /&gt;ou voar, podíamos morrer. &lt;br /&gt;Mas do nome&lt;br /&gt;que maio decorou,&lt;br /&gt;nem a cor&lt;br /&gt;nem o gosto me ficou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mar de Setembro &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Tudo era claro:&lt;br /&gt;céu, lábios, areias.&lt;br /&gt;O mar estava perto, &lt;br /&gt;Fremente de espumas.  &lt;br /&gt;Corpos ou ondas: &lt;br /&gt;iam, vinham, iam, &lt;br /&gt;dóceis, leves, só &lt;br /&gt;alma e brancura.&lt;br /&gt;Felizes, cantam;&lt;br /&gt;serenos, dormem; &lt;br /&gt;despertos, amam, &lt;br /&gt;exaltam o silêncio.  &lt;br /&gt;Tudo era claro, &lt;br /&gt;jovem, alado.&lt;br /&gt;O mar estava perto, &lt;br /&gt;puríssimo, doirado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retrato Ardente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No teu peito &lt;br /&gt;é que o pólen do fogo &lt;br /&gt;se junta à nascente, &lt;br /&gt;alastra na sombra.  &lt;br /&gt;Nos teus flancos &lt;br /&gt;é que a fonte começa &lt;br /&gt;a ser rio de abelhas, &lt;br /&gt;rumor de tigre.  &lt;br /&gt;Da cintura aos joelhos &lt;br /&gt;é que a areia queima, &lt;br /&gt;o sol é secreto, &lt;br /&gt;cego o silêncio.  &lt;br /&gt;Deita-te comigo. &lt;br /&gt;Ilumina meus vidros. &lt;br /&gt;Entre lábios e lábios &lt;br /&gt;toda a música é minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Silêncio&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Quando a ternura &lt;br /&gt;parece já do seu ofício fatigada,  &lt;br /&gt;e o sono, a mais incerta barca, &lt;br /&gt;inda demora,  &lt;br /&gt;quando azuis irrompem &lt;br /&gt;os teus olhos  &lt;br /&gt;e procuram &lt;br /&gt;nos meus navegação segura,  &lt;br /&gt;é que eu te falo das palavras &lt;br /&gt;desamparadas e desertas,  &lt;br /&gt;pelo silêncio fascinadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pequena elegia de setembro&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Não sei como vieste, &lt;br /&gt;mas deve haver um caminho &lt;br /&gt;para regressar da morte.  &lt;br /&gt;Estás sentada no jardim, &lt;br /&gt;as mãos no regaço cheias de doçura, &lt;br /&gt;os olhos pousados nas últimas rosas &lt;br /&gt;dos grandes e calmos dias de setembro.  &lt;br /&gt;Que música escutas tão atentamente &lt;br /&gt;que não dás por mim? &lt;br /&gt;Que bosque, ou rio, ou mar? &lt;br /&gt;Ou é dentro de ti &lt;br /&gt;que tudo canta ainda?  &lt;br /&gt;Queria falar contigo, &lt;br /&gt;dizer-te apenas que estou aqui, &lt;br /&gt;mas tenho medo, &lt;br /&gt;medo que toda a música cesse &lt;br /&gt;e tu não possas mais olhar as rosas. &lt;br /&gt;Medo de quebrar o fio &lt;br /&gt;com que teces os dias sem memória.  &lt;br /&gt;Com que palavras &lt;br /&gt;ou beijos ou lágrimas &lt;br /&gt;se acordam os mortos sem os ferir, &lt;br /&gt;sem os trazer a esta espuma negra &lt;br /&gt;onde corpos e corpos se repetem, &lt;br /&gt;parcimoniosamente, no meio de sombras?  &lt;br /&gt;Deixa-te estar assim, &lt;br /&gt;ó cheia de doçura, &lt;br /&gt;sentada, olhando as rosas, &lt;br /&gt;e tão alheia &lt;br /&gt;que nem dás por mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;As mãos&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Que tristeza tão inútil essas mãos &lt;br /&gt;que nem sempre são flores &lt;br /&gt;que se dêem: &lt;br /&gt;abertas são apenas abandono, &lt;br /&gt;fechadas são pálpebras imensas &lt;br /&gt;carregadas de sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Abril&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Brinca a manhã feliz e descuidada, &lt;br /&gt;como só a manhã pode brincar, &lt;br /&gt;nas curvas longas desta estrada &lt;br /&gt;onde os ciganos passsam a cantar.  &lt;br /&gt;Abril anda à solta nos pinhais &lt;br /&gt;coroado de rosas e de cio, &lt;br /&gt;e num salto brusco, sem deixar sinais, &lt;br /&gt;rasga o céu azul num assobio.  &lt;br /&gt;Surge uma criança de olhos vegetais, &lt;br /&gt;carregados de espanto e de alegria, &lt;br /&gt;e atira pedras às curvas mais distantes &lt;br /&gt;- onde a voz dos ciganos se perdia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os amantes sem dinheiro&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Tinham o rosto aberto a quem passava &lt;br /&gt;Tinham lendas e mitos &lt;br /&gt;e frio no coração. &lt;br /&gt;Tinham jardins onde a lua passeava &lt;br /&gt;de mãos dadas com a água &lt;br /&gt;e um anjo de pedra por irmão.  &lt;br /&gt;Tinha como toda a gente &lt;br /&gt;o milagre de cada dia &lt;br /&gt;escorrenbdo pelos telhados; &lt;br /&gt;e olhos de oiro &lt;br /&gt;onde ardiam &lt;br /&gt;os sonhos mais tresmalhados.  &lt;br /&gt;Tinham fome e sede como os bichos, &lt;br /&gt;e silêncio &lt;br /&gt;à roda dos seus passos, &lt;br /&gt;mas a cada gesto que faziam &lt;br /&gt;um pássaro nascia dos seus dedos &lt;br /&gt;e deslumbrado penetrava nos espaços. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem sempre o corpo se parece...&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;Nem sempre o corpo se parece com&lt;br /&gt;um bosque, nem sempre o sol&lt;br /&gt;atravessa o vidro,&lt;br /&gt;ou um melro cante na neve.&lt;br /&gt;Há um modo de olhar vindo&lt;br /&gt;do deserto,&lt;br /&gt;mirrado sopro de folhas,&lt;br /&gt;de lábios, digo.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa mulher, a doce melancolia...&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Essa mulher, a doce melancolia&lt;br /&gt;dos seus ombros, canta.&lt;br /&gt;O rumor&lt;br /&gt;da sua voz entra-me pelo sono,&lt;br /&gt;é muito antigo.&lt;br /&gt;Traz o cheiro acidulado&lt;br /&gt;da minha infância chapinhada ao sol.&lt;br /&gt;O corpo leve quase de vidro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa a mão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixa a mão&lt;br /&gt;caminhar&lt;br /&gt;perder o alento&lt;br /&gt;até onde se não respira. &lt;br /&gt;Deixa a mão&lt;br /&gt;errar&lt;br /&gt;sobre a cintura&lt;br /&gt;apenas conivente&lt;br /&gt;com nácar da língua. &lt;br /&gt;Só um grito desde o chão&lt;br /&gt;pode fulminá-la. &lt;br /&gt;A morte&lt;br /&gt;não é um segredo&lt;br /&gt;não é em nós um jardim de areia. &lt;br /&gt;De noite&lt;br /&gt;no silêncio baço dos espelhos&lt;br /&gt;um homem&lt;br /&gt;pode trazer a morte pela mão. &lt;br /&gt;Vou ensinar-te como se reconhece&lt;br /&gt;repara&lt;br /&gt;é ainda um rapaz&lt;br /&gt;não acaba de crescer&lt;br /&gt;nos ombros&lt;br /&gt;a luz&lt;br /&gt;desatada&lt;br /&gt;a fulva&lt;br /&gt;lucidez dos flancos. &lt;br /&gt;A boca sobre a boca nevava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Litania&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O teu rosto inclinado pelo vento;&lt;br /&gt;a feroz brancura dos teus dentes;&lt;br /&gt;as mãos, de certo modo irresponsáveis,&lt;br /&gt;e contudo sombrias, e contudo transparentes; &lt;br /&gt;O triunfo cruel das tuas pernas,&lt;br /&gt;colunas em repouso se anoitece:&lt;br /&gt;o peito raso, claro, feito de água;&lt;br /&gt;a boca sossegada onde apetece &lt;br /&gt;navegar ou cantar, ou simplesmente ser&lt;br /&gt;a cor dum fruto, o peso duma flor;&lt;br /&gt;as palavras mordendo a solidão,&lt;br /&gt;atravessadas de alegria e de terror; &lt;br /&gt;são a grande razão, a única razão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Lettera amorosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respiro o teu corpo:&lt;br /&gt;sabe a lua-de-água&lt;br /&gt;ao amanhecer,&lt;br /&gt;sabe a cal molhada,&lt;br /&gt;sabe a luz mordida,&lt;br /&gt;sabe a brisa nua,&lt;br /&gt;ao sangue dos rios,&lt;br /&gt;sabe a rosa louca,&lt;br /&gt;ao cair da noite&lt;br /&gt;sabe a pedra amarga,&lt;br /&gt;sabe à minha boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corpo Habitado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corpo num horizonte de água,&lt;br /&gt;corpo aberto&lt;br /&gt;à lenta embriaguez dos dedos,&lt;br /&gt;corpo defendido&lt;br /&gt;pelo fulgor das maçãs,&lt;br /&gt;rendido de colina em colina,&lt;br /&gt;corpo amorosamente humedecido &lt;br /&gt;pelo sol dócil da língua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corpo com gosto a erva rasa&lt;br /&gt;de secreto jardim,&lt;br /&gt;corpo onde entro em casa,&lt;br /&gt;corpo onde me deito&lt;br /&gt;para sugar o silêncio,&lt;br /&gt;ouvir&lt;br /&gt;o rumor das espigas,&lt;br /&gt;respirar&lt;br /&gt;a doçura escuríssima das silvas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corpo de mil bocas,&lt;br /&gt;e todas fulvas de alegria,&lt;br /&gt;todas para sorver,&lt;br /&gt;todas para morder até que um grito&lt;br /&gt;irrompa das entranhas,&lt;br /&gt;e suba às torres, &lt;br /&gt;e suplique um punhal.&lt;br /&gt;Corpo para entregar às lágrimas.&lt;br /&gt;Corpo para morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corpo para beber até ao fim -&lt;br /&gt;meu oceano breve&lt;br /&gt;e branco,&lt;br /&gt;minha secreta embarcação,&lt;br /&gt;meu vento favorável,&lt;br /&gt;minha vária, sempre incerta&lt;br /&gt;navegação.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7104619847366217901?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.fundacaoeugenioandrade.pt/' title='EUGÉNIO DE ANDRADE - Antologia'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7104619847366217901/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7104619847366217901' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7104619847366217901'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7104619847366217901'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/11/eugnio-de-andrade-antologia.html' title='EUGÉNIO DE ANDRADE - Antologia'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-5594580585665345448</id><published>2007-10-23T21:34:00.000+01:00</published><updated>2007-10-23T21:36:13.426+01:00</updated><title type='text'>Eugénio de Andrade - O Sorriso</title><content type='html'>O SORRISO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Creio que foi o sorriso,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sorriso foi quem abriu a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era um sorriso com muita luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;lá dentro, apetecia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;entrar nele, tirar a roupa, ficar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nu dentro daquele sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correr, navegar, morrer naquele sorriso."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LA SONRISA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Creo que fue la sonrisa,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;la sonrisa fue quien abrió la puerta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era una sonrisa con mucha luz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dentro, y apetecia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;entrar en ella, quitarse la ropa, quedarse&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;desnudo dentro de aquella sonrisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correr, navergar, morir en aquella sonrisa."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LE SOURIRE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Je crois que ce fut le sourire,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;le sourire, lui, qui ouvrit la porte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;C'était un sourire avec beaucoup de lumière&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à l'ínterieur, il me plaisait&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;d'y entrer, de me dévêtir, de rester&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nu à l'interieur de ce sourire.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Courir, naviguer, mourir dans ce sourire."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;THE SMILE&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I think it was the smile,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;it was the smile who opened the door.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;It was the smile with light, much light&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;inside, I longed to&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;enter it, take off my clothes, and stay,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;naked there within that smile.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;To run, to sail, to die within that smile."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-5594580585665345448?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/5594580585665345448/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=5594580585665345448' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/5594580585665345448'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/5594580585665345448'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/10/eugnio-de-andrade-o-sorriso.html' title='Eugénio de Andrade - O Sorriso'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-4956433467091218096</id><published>2007-06-16T19:05:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T19:07:09.923+01:00</updated><title type='text'>Pedro Calapez</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnQmtsnyDEI/AAAAAAAAADc/-rtJnpnESOg/s1600-h/PedrocalapezLugar.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnQmtsnyDEI/AAAAAAAAADc/-rtJnpnESOg/s320/PedrocalapezLugar.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5076725246467378242" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' 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rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnQmtsnyDEI/AAAAAAAAADc/-rtJnpnESOg/s72-c/PedrocalapezLugar.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-6643066108279557636</id><published>2007-06-16T19:02:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T19:05:25.090+01:00</updated><title type='text'>ANTÓNIO RAMOS ROSA  /  Obra ao Verde / Maria Estela Guedes</title><content type='html'>Antonio Ramos Rosa: obra ao verde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Estela Guedes&lt;br /&gt; .  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. Os leitores face à obra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascido em Faro, em 1924, António Ramos Rosa é um dos mais acarinhados poetas portugueses contemporâneos, e com toda a justiça. Faz parte de uma constelação de grandes visionários da palavra que nos têm dado a nós, portugueses, e também a povos de outras línguas, alguns dos mais importantes exemplos da excelência e beleza da nossa lírica - Natália Correia, Mário Cesariny de Vasconcelos, Eugénio de Andrade, Herberto Helder, para citar alguns.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi em Faro que António Ramos Rosa publicou o primeiro livro de poemas, “O grito claro”, em 1958. Aí foram editadas as revistas Árvore (1951-53), Cassiopeia (1955) e Cadernos do Meio-Dia (1958), que dirigiu, até as publicações terem sido interrompidas pela censura. Nessa fase importante, criou amizade e companheirismo com outro grande poeta, Casimiro de Brito, que ainda dura. É importante esta fase inicial porque António Ramos Rosa, com as revistas, estava a criar dispositivos de autonomia literária e independência do sistema. Uma revista que nos pertence é diferente daquela de cuja direcção e aceitação do nosso trabalho estamos dependentes. As revistas não duraram muito tempo, mas o facto de a censura ter aparecido em cena prova que a independência de espírito dos autores dava os seus frutos e que a sua presença se fazia sentir de várias maneiras, e não apenas no espaço literário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A obra de António Ramos Rosa é muito vasta e variada, dentro e fora da literatura e do país. Dentro e fora da literatura, porque também se dedica às artes visuais, não só como ilustrador, mas expondo em galerias de arte. Dentro e fora de Portugal, porque está traduzido em vários países, sobretudo de língua francesa e castelhana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma consulta rápida na Biblioteca Nacional permite verificar que António Ramos Rosa figura como autor em mais de duas centenas de títulos, e como título numas dezenas de registos de livro. Além de serem já muitos os volumes de poesia publicados, vários são duplos, como o mais recente, “Génese”, que inaugura uma nova colecção de poesia, dirigida por Casimiro de Brito (1). Realmente são dois livros num único registo: “Génese seguido de Constelações”, número um da colecção Sopro, na Roma Editora. Já não é viável aproveitar ocasiões como esta, em que homenageamos o autor, para apresentar um estudo que contemple ao menos parte significativa dos seus livros, porque são muitos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a registos com o nome de António Ramos Rosa em título, trata-se naturalmente de livros sobre a sua obra: teses de mestrado, antologias, retratos de jornalistas e ensaios literários. Entre os ensaios, saliento “António Ramos Rosa ou o diálogo com o universo”, de João Rui de Sousa (2), e “Mediação crítica e criação poética em António Ramos Rosa”, de Ana Paula Coutinho Mendes (3). Esta autora também assina a “Antologia portátil de António Ramos Rosa”, que abrange textos desde o primeiro livro, “O grito claro”, de 1958, até “Choque e pavor”, de 2003 (4). Já que falo de antologias, é preciso lembrar Casimiro de Brito, íntimo leitor do poeta, seu amigo de muitos anos, que assinou um livro de ensaios poéticos sobre a sua obra, “Vagabundagem na poesia de António Ramos Rosa seguido de uma Antologia (5).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O reconhecimento dos leitores pela obra do poeta manifesta-se, além das entrevistas e do muito ensaísmo sobre os seus livros, dado à estampa em jornais e revistas, e agora também na Internet, nos mais importantes prémios que em Portugal se atribuem aos intelectuais. Entre outros, António Ramos Rosa já recebeu o Prémio Pessoa, o do Pen Clube, e o Grande Prémio de Poesia. O Grande Prémio de Poesia, da Associação Portuguesa de Escritores, foi-lhe atribuído em 1988 ou em 1989, pertencia eu então aos corpos directivos. Fiz parte do júri que o elegeu. E como o discurso se tornou agora tão pessoal, informo a audiência, e em especial António Ramos Rosa, que entre os sítios no ciberespaço onde se editam poemas seus e ensaios sobre a sua obra, se conta o TriploV (http://triplov.com), que dirijo. António Ramos Rosa tem a sua webpage no TriploV, construída com a colaboração dos poetas Rui Mendes e António Cardoso Pinto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Homenagens também já várias foram prestadas a António Ramos Rosa, esta que hoje lhe fazemos na II Bienal de Poesia não é a primeira nem será a última. Como estamos no Algarve, recordo a que lhe fez Faro, sua terra natal, em 1999, com um festival de poesia de que resultou a obra colectiva “Encontros de Outono”(6).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passemos agora ao que tem motivado o reconhecimento do público, a obra de António Ramos Rosa. Entre os cerca de duzentos títulos em que o seu nome figura como autor, a maior parte são os livros de poesia. Mas o poeta é também tradutor, ensaísta, crítico de literatura e de artes visuais, por isso recordo os seus ensaios: “A Poesia moderna e a interrogação do real” (7), “Poesia, liberdade livre” (8), “Incisões oblíquas” (9) e “A parede azul: estudos sobre poesia e artes plásticas” (10).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para terminar esta nota introdutória, refiram-se as muitas traduções que desde sempre Ramos Rosa tem assinado, invariavelmente de autores muito marcantes da literatura mundial: Paul Éluard, Marguerite Yourcenar, Michel Foucault, André Gide, Brecht, Teilhard de Chardin, Albert Camus e tantos outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Liberdade de ser&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;António Ramos Rosa, como outros poetas que começaram a publicar antes do 25 de Abril, manifesta na sua poesia linhas temáticas que, apesar do regime de censura, são politicamente muito claras. Esses temas dizem respeito, como não podia deixar de ser, e tendo ele a experiência da tesoura, à falta de liberdade, e por isso à prisão da vida mesquinha de todos os funcionários cansados, sob a ditadura de Salazar. É ao desejo de liberdade que se aspira quando nos poemas aparecem gaiolas, prisões e pássaros, como acontece precisamente no conhecido Poema dum funcionário cansado, que remata com “palavras soterradas na prisão” da vida (11). Essa reclamação aparece com grande veemência no redundante título da colectânea de ensaios, “Poesia, liberdade livre”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parece que no meio das muitas correspondências poéticas, a poesia é o mesmo que liberdade. Mas se a liberdade da poesia é uma liberdade livre, quer dizer que fora dela o não é. Admitindo-se assim que há uma liberdade que não é livre, verificamos que entre os termos “liberdade” e “livre” não existe total correspondência. Ou então só existe na poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A falta de liberdade não se limita à prisão do corpo, e por isso o poeta não a perde como linha de força em mudanças de regime político, nem nos confins dos primeiros poemas. É um tema permanente, ontológico, ele atravessa toda a obra, unindo linguagem e ser numa só natureza ou estado de correspondência. Declara António Ramos Rosa, numa entrevista: “A minha poesia é cognitiva e metapoética. Se a metafísica é uma forma de conhecimento do universo, das coisas, da linguagem, então sim, tenho essa inquietação. Os meus textos não se reduzem a um âmbito circunstancial. Mas quando escrevo um poema, o tema que se me impõe imediatamente é o da palavra, da linguagem. Desde sempre.” (12).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A liberdade que o poeta reclama para a palavra ultrapassa a liberdade de expressão, porque o ser e a palavra não se distinguem na sua perspectiva ontológica: o poeta escreve sol (13) da mesma maneira que as árvores falam, isto é, o poeta cria mundo com as palavras. Dos diversos mundos ou diversas categorias de realidade, entre elas a criada pela linguagem, ocupou-se Karl Popper. Há de facto uma dimensão cognitiva na poesia de António Ramos Rosa, que decorre da perspectiva filosófica com que vê a comunicação, e não só humana, pois também admite os códigos da Natureza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque a Natureza fala, o poeta escreve: “Conheço as palavras das árvores” (14). O homem é um ser de linguagem, todo o seu afecto, saber e história residem nela. Por isso, ao interrogar a palavra, é o mundo e a vida que questiona. E também por isso a liberdade reclamada para a palavra é a liberdade de ser, e não apenas a de ser proferida ou impressa. Porque o universo é sentido como linguagem, a poesia tem nele um referente e um interlocutor, e ao poeta, o primeiro tema que se lhe impõe é o da palavra. É assim que se estabelece, entre a Natureza e a palavra, e entre a linguagem e o homem, a maior de todas as correspondências.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas deixemos a porta aberta, neste domínio das correspondências, em que verde é a letra “u”, como escreve Rimbaud, a transmutações mais fáceis do que as alquímicas: quando num poema falamos desse assunto, nós, que escrevemos em português, temos também em mente e no plano de significação imediata dos termos, a correspondência amorosa, o estabelecimento de elos afectivos entre leitor e autor. O poeta assinou um pacto consigo mesmo e com o público, tem um compromisso ao qual sente que deve responder. E a liberdade faz parte dessa relação de intersubjectividade, em que de um lado existe uma expectativa e do outro o desejo de correspondência. Eis o que lemos em “Génese” (1), o mais recente livro de António Ramos Rosa, no qual não havia razão para estar presente o tema da liberdade, se essa liberdade fosse apenas aquela que nos garante a democracia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrever é procurar corresponder &lt;br /&gt;Ainda que não se saiba a quê ou se esse quê existe &lt;br /&gt;A nossa liberdade nasce de uma incerteza radical &lt;br /&gt;E a sua metamorfose é a invenção de um espaço &lt;br /&gt;De correspondências que visam uma esfera inviolável&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos num mundo prático, utilitário, economicista. O nosso cérebro, mesmo poeta, só se satisfaz com argumentos contabilizáveis. Por isso, ainda o poeta vivia no Algarve, fez contas à vida, interrogou-se sobre o sentido da sua e do que escrevia. Olhando para o resultado das contas, tomou a decisão que lhe pareceu mais justa. Sabemos qual foi a opção de António Ramos Rosa: a liberdade do franciscanismo poético. Não uso sem critério a imagem de S. Francisco: na Natureza dos poemas não faltam pássaros com os quais o poeta comunica. E apesar de não transparecer na obra nenhum tema católico, a verdade é que esvoaçam anjos nela. Por muito que sejam Anjos de terra (15), e o poeta esclareça que os anjos que conhece são de erva e de silêncio (16), anjos são anjos, e vivem na cor da esperança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem emprego, sem cargos públicos, a vida, dedicada apenas à arte, só podia oferecer-lhe dificuldades materiais. No entanto, essa marginalidade franciscana não impediu Ramos Rosa de ter voz activa nas convulsões políticas e sociais em geral, e em particular nas anteriores à revolução portuguesa do 25 de Abril. Pertenceu ao MUD juvenil, embora nunca tivesse militado em nenhum partido político. Por ter ido receber Maria Lamas a Portimão, com outros intelectuais, foi preso pela PIDE, a Polícia política de então (17).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entende-se assim que o desprendimento por empregos ou cargos públicos, e mesmo a recusa em receber um prémio do SNI, correspondeu à rejeição de um sistema político anti-democrático. Se S. Francisco falava às aves e Santo António aos peixes, é porque com os homens não era possível o diálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Insisto porém em que o tema da liberdade, embora vinculado a estas experiências de vida, não está preso a elas - é mais amplo e mais profundo. Eduardo Pitta considera os ensaios “emblemáticos de uma obra centrada na noção de liberdade” (18). Essa centralidade constitui uma rede que põe todos os poemas em comunicação, não apenas próprios como alheios. Tal como a linguagem, também a liberdade é interpelada quanto ao que de facto é e quanto aos seus limites. No seu último livro, “Constelações”, a liberdade é condicional, depende do desaparecimento do sujeito na brancura, isto é, da anulação do ser na inexistência de cor:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a condição da liberdade seja esta abolição no branco &lt;br /&gt;Que tornará possível a nudez de um começo o esplendor do novo (19)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A liberdade, em Ramos Rosa, é a possibilidade de sermos o que queremos ser. Resultado da soma de querer e poder, a liberdade é tão difícil de alcançar que se projecta no plano da utopia. Nos versos que acabei de citar, a abolição no branco não é absoluta: ela abre a porta à renovação, e por conseguinte ao esplendor cromático da vegetação. Esta brancura é o lugar de onde fala o sujeito poético, o vazio de sentido e de valores que José Augusto Mourão, em ensaio sobre Ramos Rosa publicado agora pela primeira vez, no TriploV, diz ser insuportável ao pensamento ocidental (20). A nossa natureza tem horror ao vazio, por isso lança sementes em todos os buracos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não podemos dizer que António Ramos Rosa seja um poeta católico, apesar dos seus anjos, também não poderemos dizer que seja um poeta hermético. Mas que há na sua poesia uma obra ao verde, bem primaveril, lá isso, há, como vamos ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. As palavras são cores&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A poesia de António Ramos Rosa deambula entre conceptualismo e pintura. Certos poemas são muito impressionistas no colorido, e já sabemos que o poeta também é artista visual e também faz crítica de pintura. Não admira assim que nos surja uma criação poética estimulada pela percepção da luz e das cores. Por vezes, à semelhança da pintura moderna, mais voltada para o efeito plástico dos materiais do que para o que possam representar, as palavras são cores, pincelando a página de verde, azul, branco, negro e amarelo, que simultaneamente produzem música:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A praia era de guitarras destruídas, &lt;br /&gt;voos negros rosados sobre azul, &lt;br /&gt;e sobre o branco multiplicado do céu cantava &lt;br /&gt;o azul, &lt;br /&gt;cantava o branco sol e azul &lt;br /&gt;e os fragmentos de guitarra verdes vermelhos &lt;br /&gt;negros &lt;br /&gt;cantavam mar azul, praia vermelha, &lt;br /&gt;voos de andorinha negros. (21)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos poemas pictóricos, sobretudo nos que surtem efeito figurativo, percebemos corpos e objectos em movimento num discurso que se apresenta como paisagem. Nem todos os elementos da paisagem são naturais, concretos como os pontos de referência do conhecido que guardamos na memória. Mas eles tornam-se elementos naturais pelo facto de terem certas cores. A cor é algo próprio da matéria, ou é algo que a luz faz reagir na matéria. Em António Ramos Rosa, as cores dominantes são o branco e o verde. Na brancura há sinal negativo, é quase sempre uma falta que o poeta precisa de cumular com a palavra, pois a falta está associada à página antes do Génesis, a génese da escrita, como o último título do poeta deixa claro: “Génese” tem por tema o nascimento do poema, ser orgânico, animal, como Aristóteles o definiu, por isso expresso pelo léxico normal do parto. O poema é um elemento da Natureza, como uma árvore. Daí que fale dele como gerado num “útero verde” (22).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No extremo oposto da brancura, signo da falta e do vazio, não está o negro. O negro, tal como o branco, é sinal de ausência de luz, e a luz não é só um elemento natural, próprio da physis, ela é também um elemento psíquico e cognitivo: a treva mete medo porque não sabemos o que se esconde nela, ao passo que a luz acalma ao iluminar objectos de serenidade. A luz torna visíveis as coisas, por isso as ficamos a conhecer pelo olhar e pela inteligência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A equilibrar a balança, pesada de carga negativa com a brancura, fica, em Ramos Rosa, uma cor positiva, eufórica, cheia de esperança - o verde, evidentemente. Basta notar que quase sempre o verde surge em situação de redundância, para nos apercebermos do seu valor genesíaco, o valor de “útero verde”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na poesia rosiana, as coisas mexem, os elementos são dotados de som, forma, cor e velocidade. Alguns reiteram-se, como ícones que conhecemos noutros autores e noutras pinturas, caso da mulher que irrompe venusinamente do seio das águas. Os textos conceptuais tendem para a filosofia, esboçando ideias e temas. Além da liberdade, do amor, do erotismo, da questa de felicidade, da génese, etc., aponte-se ainda a adolescência como estado privilegiado da poesia. Neste último livro, “Génese seguido de Constelações”, a adolescência associa-se naturalmente à fertilidade, ela é um estado de alma propício para a criação poética:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o abdómen de uma adolescente &lt;br /&gt;a página suscita a fértil fragilidade &lt;br /&gt;de uma caligrafia que se apaga sobre os sulcos de neve (23)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ramos Rosa é um poeta nervoso e inquieto, por isso certamente não encontraremos poemas puros, nem fóticos nem reflexivos, antes híbridos. A sua lírica acusa variações e mudanças bruscas de ritmo, não só ao longo dos anos como ao longo dos poemas de um mesmo livro, e até num só poema. Para usar um modelo de análise fornecido por Fontanille, numa obra que trata da semiótica da luz (24), e que propõe três estesias na obra de cultura, a estesia reflexiva, a estesia transitiva e a estesia recíproca, podemos considerar que a estesia reflexiva, em Ramos Rosa, diz respeito aos poemas centrados na relação do sujeito consigo mesmo; a estesia transitiva, que é a relação entre o sujeito e o mundo, tem um exemplo transparente em frases como “escrevo árvores”, “escrevo casas”, em que a transitividade do verbo se desloca dos seus objectos próprios para algo que pertence de resto à estesia reflexiva, por ser a concepção da linguagem como organismo, logo como criadora do mundo: o poeta não escreve poemas sobre a natureza, as palavras são as cores, as casas, por isso a linguagem cria a Natureza. E finalmente, ensina Jacques Fontanille, há a estesia recíproca, uma dimensão na arte que cria relações de intersubjectividade. A intersubjectividade, em Ramos Rosa, passa, como já referi, pelo desejo de correspondência, de responder ao pacto amoroso com o leitor; às vezes, mais explicitamente, com a leitora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O movimento entre o reflexivo, o inventivo e o amoroso pode relacionar-se com posicionamentos paradigmáticos, próprios de opções de escola ou de movimento. É admissível que o poeta recuse a transparência, se lhe parece colada a uma estética fora de moda, mas Ramos Rosa alcançou uma posição em que essas questões se tornam insignificantes e os conceitos a que se ligam não passam de preconceitos. Eu diria que as variações se devem ao desejo de obscuridade, pois há na poesia um lado de enigma e mistério que convoca a vontade de conhecimento, e também a deslizamentos do humor. Em geral a revelação e o irrevelável andam de mãos dadas, acontece um poema começar com uma ideia claramente expressa, que depois se enigmatiza e transmuta em pintura muito colorida, passando-se assim de um estilo a outro completamente diverso. Vejamos um poema para exemplo, de que cito os dois primeiros e os dois últimos versos. Entre eles, estabelece-se uma polifonia de pinceladas que impedem o que, a desenvolver-se segundo as expectativas criadas nos versos iniciais, daria qualquer coisa como um ensaio, e um ensaio certamente sobre a transparência de cristal das palavras:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez a simplicidade nunca seja atingida &lt;br /&gt;Porque a nudez está entre a ficção e o real &lt;br /&gt;[…] &lt;br /&gt;Que ele reúna a chama e o grito numa lâmpada &lt;br /&gt;De cristal e uma sombra se mova como uma lâmpada na lâmpada. (25)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4. a obra ao verde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para entrarmos de chofre no tema da obra ao verde, dou como exemplo o “Telegrama sem classificação especial” (26), em que aparece um sujeito de enunciação plural, o nós, todos os que partilhavam com o poeta as mesmas contrariedades. Vejamos os primeiros versos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos nus e gramamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Referências&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1) Escrever é procurar corresponder. Em “Génese seguido de Constelações”. Lisboa, Roma Editora, 2005. &lt;br /&gt;(2) João Rui de Sousa, “António Ramos Rosa ou o diálogo com o universo”. Leiria, Diferença, 1999. &lt;br /&gt;(3) Ana Paula Coutinho Mendes, “Mediação crítica e criação poética em António Ramos Rosa ”. Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2003. &lt;br /&gt;(4) Ana Paula Coutinho Mendes, “O poeta na rua, Antologia portátil de António Ramos Rosa”. Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2004. &lt;br /&gt;(5) Casimiro de Brito, “Vagabundagem na poesia de António Ramos Rosa seguido de uma Antologia”. Vila Nova de Famalicão, Quasi, 2001. &lt;br /&gt;(6) Augusto Miranda (ed.), “Encontros de Outono - 1999, Homenagem da cidade de Faro a António Ramos Rosa”. Câmara Municipal de Faro, 1999. &lt;br /&gt;(7) “A poesia moderna e a Interrogação do Real”. Lisboa, Arcádia, 2 vols, 1979-1980. &lt;br /&gt;(8) “Poesia, liberdade livre”. Lisboa, Ulmeiro, 1986. &lt;br /&gt;(9) “Incisões oblíquas: estudos sobre poesia portuguesa contemporânea”. Lisboa, Editorial Caminho, 1987. &lt;br /&gt;(10) “A parede azul: estudos sobre poesia e artes plásticas”. Lisboa, Editorial Caminho, 1991. &lt;br /&gt;(11) Poema dum funcionário cansado. In: “O grito claro”, 1958. &lt;br /&gt;(12) António Ramos Rosa - Só a poesia. Entrevista de Ana Marques Gastão no Diário de Notícias, 4 de Julho de 1998. &lt;br /&gt;(13) Estou vivo e escrevo sol. Em “Animal Olhar”, Lisboa, Plátano, 1966. &lt;br /&gt;(14) Os prestígios simples. Em “Volante Verde”, 1986. &lt;br /&gt;(15) Anjos de terra. Em “O não e o sim”, 1990. &lt;br /&gt;(16) Os anjos que conheço são de erva e de silêncio. Em “Ciclo do cavalo”, 1975. &lt;br /&gt;(17) Maria Leonor Nunes, António Ramos Rosa, Vida de palavras. Jornal de Letras, 4 de Abril de 2001. &lt;br /&gt;(18) Eduardo Pitta, “ Constelação Terrestre”. Diário de Notícias, Outubro de 1998. &lt;br /&gt;(19) Eis a cal da página sem constelações. Em “Génese seguido de Constelações”, 2005. &lt;br /&gt;(20) José Augusto Mourão, Em torno de um texto teórico de Ramos Rosa. Em linha em http://triplov.com/poesia/ramos_rosa/jam/index.htm.&lt;br /&gt;(21) Göetz. Em “Animal Olhar”, 1975. &lt;br /&gt;(22) Se a vida como um rio tivesse duas margens. Em “Génese seguido de Constelações”, 2005. &lt;br /&gt;(23) Há palavras que esperam que o branco as desnude. Em “Génese seguido de Constelações”, 2005. &lt;br /&gt;(24) Jacques Fontanille, «Sémiotique du visible - Des mondes de lumière». PUF, Paris, 1995. &lt;br /&gt;(25) Talvez a simplicidade nunca seja atingida. Em “Génese seguido de Constelações”, 2005. &lt;br /&gt;(26) Telegrama sem classificação especial. Em «Viagem através duma nebulosa”, 1960. &lt;br /&gt;(27) O obscuro. Em “Volante Verde”, Lisboa, Mooraes Editores, 1986. &lt;br /&gt;(28) Esta leve obstinação de um cálido tremor. Em “Génese”, 2005. &lt;br /&gt;(29) Escrevo para que a liberdade respire. Em “Génese”, 2005. &lt;br /&gt;(30) As palavras no centro vazio. Em “Boca incompleta”, 1977. &lt;br /&gt;(31) Transcrição da terra. Em “Animal olhar”, 1975. &lt;br /&gt;(32) É assim que vem o fogo como troncos de uma grande pedra. Em “Génese seguido de Constelações”, 2005. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria Estela Guedes (Portugal, 1947). Escritora, investigadora do Centro Interdisciplinar de Ciência, Tecnologia e Sociedade da Universidade de Lisboa. Dirige o TriploV [http://triplov.org]. Autora de livros como Herberto Helder, Poeta Obscuro (1979) e Lápis de Carvão (2005). Conferência proferida na homenagem a António Ramos Rosa na II Bienal de Poesia. Câmara Municipal de Silves, abril de 2005. A fotografia de ARR é de Maria José Palla. Contacto: estela@triplov.com. Página ilustrada com obras de Nicolau Saião (Portugal).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-6643066108279557636?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/6643066108279557636/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=6643066108279557636' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/6643066108279557636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/6643066108279557636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/antnio-ramos-rosa-obra-ao-verde-maria.html' title='ANTÓNIO RAMOS ROSA  /  Obra ao Verde / Maria Estela Guedes'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-3776924556765428542</id><published>2007-06-16T18:59:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T19:00:46.389+01:00</updated><title type='text'>ANTÓNIO RAMOS ROSA - Biografia</title><content type='html'>António Ramos Rosa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Nascimento: 1924 Faro&lt;br /&gt;    País: Portugal&lt;br /&gt;     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Poeta e ensaísta português, natural de Faro. Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, Ramos Rosa tomou o rumo para Lisboa, depois de ter passado a juventude em Faro. Na capital, vivendo intensamente a vitória dos Aliados, trabalhou no comércio, actividade que logo abandonou para se dedicar à poesia.&lt;br /&gt;    Nos anos cinquenta, um dos directores das revistas Árvore, Cassiopeia e Cadernos do Meio-Dia. Colaborou ainda com textos de crítica literária na Seara Nova e na Colóquio Letras, entre outras publicações periódicas.&lt;br /&gt;    Como poeta, estreou-se na colectânea O Grito Claro (1958). Estava criado o movimento da moderna poesia portuguesa. Ramos Rosa era o poeta do presente absoluto, da «liberdade livre» e sobe todos os degraus da admiração europeia. Em Portugal é comparado com os grandes escritores nacionais. Urbano Tavares Rodrigues considerou-o como o empolgante poeta da coisas primordiais, da luz, da pedra e da água.&lt;br /&gt;    Em meados dos anos sessenta, Ramos Rosa radicou-se em Lisboa, onde publicou Viagem Através Duma Nebulosa (1960). Um dos mais fecundos poetas portugueses da contemporaneidade, a sua produção reflecte uma evolução do subjectivismo, em relação à objectividade. Reflectem-se nela variadas tendências, desde certas formas experimentais até a um neobarroquismo. A sua escrita, caracterizada por uma grande originalidade e riqueza de imagens tácteis e visuais, testemunha muitas vezes uma fusão com a natureza, uma busca de unidade universal em que o humano participa e se integra no mundo, estabelecendo uma linha de continuidade entre si e os objectos materiais, numa afirmação de vida e sensualidade. Nos seus textos, está frequentemente presente uma reflexão sobre o próprio acto da escrita e a natureza da criação poética, a questão do dizível e do indizível.&lt;br /&gt;    Ramos Rosa, também tradutor, escreveu dezenas de volumes de poesia, entre os quais Voz Inicial (1960), Sobre o Rosto da Terra (1961), Terrear (1964), A Constituição do Corpo (1969), A Pedra Nua (1972), Ciclo do Cavalo (1975), Incêndio dos Aspectos (1980), Volante Verde (1986, Grande Prémio de Poesia Inasset), Acordes (1989, Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores), Clamores (1992), Dezassete Poemas (1992), Lâmpadas Com Alguns Insectos (1993), O Teu Rosto (1994), O Navio da Matéria (1994), Três (1995), As Armas Imprecisas (1992, Delta, Pela Primeira Vez (1996) e A Mesa do Vento (1997, primeiramente editado em França), Pátria Soberana e Nova Ficção (2000).&lt;br /&gt;    Entre os seus ensaios, contam-se Poesia, Liberdade Livre (1962), A Poesia Moderna e a Interrogação do Real (1979), Incisões Oblíquas (1987), A Parede Azul (1991) e As Palavras (2001).&lt;br /&gt;    Tem recebido numerosos prémios nacionais e estrangeiros, entre os quais o Prémio Pessoa, em 1988. É geralmente tido como um dos grandes poetas portugueses contemporâneos.&lt;br /&gt;    Para Ramos Rosa, escrever é, sempre, a necessidade de respirar as palavras e de às palavras fornecer o frémito do ser, os pulmões do sonho, e, com elas, criar a dádiva do poeta.&lt;br /&gt;    Em 2001, o poeta lançou Antologia Poética, com prefácio e selecção de Ana Paula Coutinho Mendes&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-3776924556765428542?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/3776924556765428542/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=3776924556765428542' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3776924556765428542'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3776924556765428542'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/antnio-ramos-rosa-biografia.html' title='ANTÓNIO RAMOS ROSA - Biografia'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-966654680795220205</id><published>2007-06-16T18:54:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T18:58:37.359+01:00</updated><title type='text'>ANTÓNIO RAMOS ROSA</title><content type='html'>Não posso adiar o amor&lt;br /&gt;Não posso adiar o amor para outro século&lt;br /&gt;Não posso&lt;br /&gt;Ainda que o grito sufoque na garganta&lt;br /&gt;Ainda que o ódio estale e crepite e arda&lt;br /&gt;Sob montanhas cinzentas&lt;br /&gt;E montanhas cinzentas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso adiar este abraço&lt;br /&gt;Que é uma arma de dois gumes&lt;br /&gt;Amor e ódio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso adiar&lt;br /&gt;Ainda que a noite pese séculos sobre as costas&lt;br /&gt;E a aurora indecisa demore&lt;br /&gt;Não posso adiar para outro século a minha vida&lt;br /&gt;Nem o meu amor&lt;br /&gt;Nem o meu grito de libertação&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não posso adiar o coração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Viagem através duma Nebulosa(1960)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poema dum Funcionário Cansado&lt;br /&gt;A noite trocou-me os sonhos e as mãos&lt;br /&gt;dispersou-me os amigos&lt;br /&gt;tenho o coração confundido e a rua é estreita&lt;br /&gt;estreita em cada passo&lt;br /&gt;as casas engolem-nos&lt;br /&gt;sumimo-nos&lt;br /&gt;estou num quarto só num quarto só&lt;br /&gt;com os sonhos trocados&lt;br /&gt;com toda a vida às avessas a arder num quarto só&lt;br /&gt;Sou um funcionário apagado&lt;br /&gt;um funcionário triste&lt;br /&gt;a minha alma não acompanha a minha mão&lt;br /&gt;Débito e Crédito Débito e Crédito&lt;br /&gt;a minha alma não dança com os números&lt;br /&gt;tento escondê-la envergonhado&lt;br /&gt;o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente&lt;br /&gt;e debitou-me na minha conta de empregado&lt;br /&gt;Sou um funcionário cansado dum dia exemplar&lt;br /&gt;Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?&lt;br /&gt;Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço&lt;br /&gt;Soletro velhas palavras generosas&lt;br /&gt;Flor rapariga amigo menino&lt;br /&gt;irmão beijo namorada&lt;br /&gt;mãe estrela música&lt;br /&gt;São as palavras cruzadas do meu sonho&lt;br /&gt;palavras soterradas na prisão da minha vida&lt;br /&gt;isto todas as noites do mundo numa só noite comprida&lt;br /&gt;num quarto só.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Viagem através duma Nebulosa(1960)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para uma amigo tenho sempre um relógio&lt;br /&gt;esquecido em qualquer fundo da algibeira.&lt;br /&gt;Mas esse relógio não marca o tempo inútil.&lt;br /&gt;São restos de tabaco e de ternura rápida.&lt;br /&gt;É um arco-íris de sombra,quente e trémulo.&lt;br /&gt;É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Viagem através duma Nebulosa(1960)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O boi da paciência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Noite dos limites e das esquinas nos ombros&lt;br /&gt;noite por de mais aguentada com filosofia a mais&lt;br /&gt;que faz o boi da paciência aqui?&lt;br /&gt;que fazemos nós aqui?&lt;br /&gt;este espectáculo que não vem anunciado&lt;br /&gt;todos os dias cumprido com as leis do diabo&lt;br /&gt;todos os dias metido pelos olhos adentro&lt;br /&gt;numa evidência que nos cega&lt;br /&gt;até quando?&lt;br /&gt;Era tempo de começar a fazer qualquer coisa&lt;br /&gt;os meus nervos estão presos na encruzilhada&lt;br /&gt;e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante&lt;br /&gt;e a minha vida não é mais que um teorema&lt;br /&gt;por demais sabido!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pobreza do meu caderno&lt;br /&gt;como inscrever este céu que suspeito&lt;br /&gt;como amortecer um pouco a vertigem desta órbita&lt;br /&gt;e todo o entusiasmo destas mãos de universo&lt;br /&gt;cuja carícia é um deslizarr de estrelas?&lt;br /&gt;Há uma casa que me espera&lt;br /&gt;para uma festa de irmãos&lt;br /&gt;há toda esta noite a negar que me esperam&lt;br /&gt;e estes rostos de insónia&lt;br /&gt;e o martelar opaco num muro de papel&lt;br /&gt;e o arranhar persistente duma pena implacável&lt;br /&gt;e a surpresa subornada pela rotina&lt;br /&gt;e o muro destrutível destruindo as nossas vidas&lt;br /&gt;e o marcar passo à frente deste muro&lt;br /&gt;e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro&lt;br /&gt;até quando? até quando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teoricamente livre para navegar entre estrelas&lt;br /&gt;minha vida tem limites assassinos&lt;br /&gt;Supliquei aos meus companheiros.Mas fuzilem-me!&lt;br /&gt;Inventei um deus só para que me matasse&lt;br /&gt;Muralhei-me de amor e o amor desabrigou-me&lt;br /&gt;Escrevi cartas a minha mãe desesperadas&lt;br /&gt;colori mitos e distribuí-me em segredo&lt;br /&gt;e ao fim ao cabo&lt;br /&gt;recomeçar&lt;br /&gt;Mas estou cansado de recomeçar!&lt;br /&gt;Quereria gritar:Dêem árvores para um novo&lt;br /&gt;recomeço!&lt;br /&gt;Aproximem-me a natureza até que a cheire!&lt;br /&gt;Desertem-me este quarto onde me perco!&lt;br /&gt;Deixem-me livre por um momento em qualquer parte&lt;br /&gt;para uma meditação mais natural e fecunda&lt;br /&gt;que me limpe o sangue!&lt;br /&gt;Recomeçar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas originalmente com uma nova respiração&lt;br /&gt;que me limpe o sangue deste polvo de detritos&lt;br /&gt;que eu sinta os pulmões com duas velas pandas&lt;br /&gt;e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos&lt;br /&gt;em nome do sofrimento e da felicidade&lt;br /&gt;em nome dos animais e dos utensílios criadores&lt;br /&gt;em nome de todas as vidas sacrificadas&lt;br /&gt;em nome dos sonhos&lt;br /&gt;em nome das colheitas em nome das raízes&lt;br /&gt;em nome dos países em nome das crianças&lt;br /&gt;em nome da paz&lt;br /&gt;que a vida vale a pena que ela é a nossa medida&lt;br /&gt;que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias&lt;br /&gt;que o reino da bondade dos olhos dos poetas&lt;br /&gt;vai começar na terra sobre o horror e a miséria&lt;br /&gt;que o nosso coração se deve engrandecer&lt;br /&gt;por ser tamanho de todas as esperanças&lt;br /&gt;e tão claro como os olhos das crianças&lt;br /&gt;e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o homenzinho diário recomeça&lt;br /&gt;no seu giro de desencontros&lt;br /&gt;A fadiga substituiu-lhe o coração&lt;br /&gt;As cores da inércia giram-lhe nos olhos&lt;br /&gt;Um quarto de aluguer&lt;br /&gt;Como perservar este amor&lt;br /&gt;ostentando-o na sombra&lt;br /&gt;Somos colegas forçados&lt;br /&gt;Os mais simples são os melhores&lt;br /&gt;nos seus limites conservam a humanidade&lt;br /&gt;Mas este sedento lúcido e implacável&lt;br /&gt;familiar do absurdo que o envolve&lt;br /&gt;como uma vida de relógio a funcionar&lt;br /&gt;e um mapa da terra com rios verdadeiros&lt;br /&gt;correndo-lhe na cabeça&lt;br /&gt;como poderá suportar viver na contenção total&lt;br /&gt;na recusa permanente a este absurdo vivo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ó boi da paciência que fazes tu aqui?&lt;br /&gt;Quis tornar-te amável ser teu familiar&lt;br /&gt;fabriquei projectos com teus cornos&lt;br /&gt;lambi o teu focinho acariciei-te em vão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tua marcha lenta enerva-me e satura-me&lt;br /&gt;As constelações são mais rápidas nos céus&lt;br /&gt;a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo&lt;br /&gt;Lá fora os homens caminham realmente&lt;br /&gt;Há tanta coisa que eu ignoro&lt;br /&gt;e é tão irremediável este tempo perdido!&lt;br /&gt;Ó boi da paciência sê meu amigo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Viagem através duma Nebulosa(1960)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Casa de sol onde os animais pensam&lt;br /&gt;erguida nos ares com raízes na terra&lt;br /&gt;ampla e pequena como um pagode&lt;br /&gt;com salas nuas e baixas camas&lt;br /&gt;casa de andorinhas e gatos nos sótãos&lt;br /&gt;grande nau navegando imóvel&lt;br /&gt;num mar de ócio e de nuvens brancas&lt;br /&gt;com antigos ditados e flores picantes&lt;br /&gt;com frescura de passado e pó de rebanhos&lt;br /&gt;ó casa de sonos e silêncios tão longos&lt;br /&gt;e de alegrias ruidosas e pães cheirosos&lt;br /&gt;ó casa onde se dorme para se renascer&lt;br /&gt;ó casa onde a pobreza resplende de fartura&lt;br /&gt;onde a liberdade ri segura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Voz Inicial(1960)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou vivo e escrevo sol&lt;br /&gt;Eu escrevo versos ao meio-dia&lt;br /&gt;e a morte ao sol é uma cabeleira&lt;br /&gt;que passa em fios frescos sobre a minha cara de vivo&lt;br /&gt;Estou vivo e escrevo sol&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se as minhas lágrimas e os meus dentes cantam&lt;br /&gt;no vazio fresco&lt;br /&gt;é porque aboli todas as mentiras&lt;br /&gt;e não sou mais que este momento puro&lt;br /&gt;a coincidência perfeita&lt;br /&gt;no acto de escrever e sol&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vertigem única da verdade em riste&lt;br /&gt;a nulidade de todas as próximas paragens&lt;br /&gt;navego para o cimo&lt;br /&gt;tombo na claridade simples&lt;br /&gt;e os objectos atiram suas faces&lt;br /&gt;e na minha língua o sol trepida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melhor que beber vinho é mais claro&lt;br /&gt;ser no olhar o próprio olhar&lt;br /&gt;a maraviha é este espaço aberto&lt;br /&gt;a rua&lt;br /&gt;um grito&lt;br /&gt;a grande toalha do silêncio verde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Estou Vivo E Escrevo Sol(1966)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No silêncio da terra&lt;br /&gt;No silêncio da terra.Onde ser é estar.&lt;br /&gt;A sombra se inclina.&lt;br /&gt;Habito dentro da grande pedra de água e sol.&lt;br /&gt;Respiro sem o saber,respiro a terra.&lt;br /&gt;Um intervalo de suavidade ardente e longa.&lt;br /&gt;Sem adormecer no sono verde.&lt;br /&gt;Afundo-me,sereno,&lt;br /&gt;flor ou folha sobre folha abrindo-se,&lt;br /&gt;respirando-me,flectindo-me&lt;br /&gt;no intervalo aberto.Não sei se principio.&lt;br /&gt;Um rosto se desfaz,um sabor ao fundo&lt;br /&gt;da água ou da terra,&lt;br /&gt;o fogo único consumindo em ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis o lugar em que o centro se abre&lt;br /&gt;ou a lisa permanência clara,&lt;br /&gt;abandono igual ao puro ombro&lt;br /&gt;em que nada se diz&lt;br /&gt;e no silêncio se une a boca ao espaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pedra harmoniosa&lt;br /&gt;do abrigo simples,&lt;br /&gt;lúcido,unido,silencioso umbigo&lt;br /&gt;do ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aí&lt;br /&gt;o teu corpo&lt;br /&gt;renasce&lt;br /&gt;à flor da terra.&lt;br /&gt;Tudo principia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de A Pedra Nua(1972)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde mora a memória obscura,onde&lt;br /&gt;esse cavalo persiste como um relâmpago de pedra,&lt;br /&gt;onde o corpo se nega,onde a noite ensurdece,&lt;br /&gt;caminho sobre pedras na minha casa pobre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não conheço esse lago,não fui a esse país.&lt;br /&gt;Mas aqui é um termo ou princípio novo.&lt;br /&gt;Com a baba do cavalo,com os seus nervos mais finos&lt;br /&gt;reconstruí o corpo,silenciei os membros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se estancou a sede,no mesmo caos de agora,&lt;br /&gt;mas a língua rebenta,as vértebras estalam&lt;br /&gt;por uma nova língua,por um cavalo que una&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a terra à tua boca,e a tua boca à água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Ciclo do Cavalo(1975)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semelhante à imóvel&lt;br /&gt;transparência&lt;br /&gt;à inesgotável face&lt;br /&gt;à pedra larga onde o olhar repousa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Água sombra e a figura&lt;br /&gt;azul quase um jardim por sob a sombra&lt;br /&gt;a iminência viva aérea&lt;br /&gt;de uma palavra suspensa&lt;br /&gt;na folhagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Semelhante ao disperso ao ínfimo&lt;br /&gt;chama-se agora aqui o sono da erva&lt;br /&gt;a ligeireza livre&lt;br /&gt;a nuvem sobre a página&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de A Nuvem sobre a Página(1978)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras&lt;br /&gt;Adiro a uma nova terra adiro a um novo corpo&lt;br /&gt;As palavras identificam-se com o asfalto negro&lt;br /&gt;o tropel das nuvens&lt;br /&gt;a espessura azul das árvores acesas pelos faróis&lt;br /&gt;o rumor verde&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras saem de um ferida exangue&lt;br /&gt;de teclas de metal fresco&lt;br /&gt;de caminhos e sombras&lt;br /&gt;da vertigem de ser só um deserto&lt;br /&gt;de armas de gume branco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há palavras carregadas de noite e de ombros surdos&lt;br /&gt;e há palavras como giestas vivas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Matrizes primordiais matéria habitada&lt;br /&gt;forma indizível num rectângulo de argila&lt;br /&gt;quem alimenta este silêncio senão o gosto de&lt;br /&gt;colocar pedra sobre pedra até á oblíqua exactidão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras vêm de lugares fragmentários&lt;br /&gt;de uma disseminação de iniciais&lt;br /&gt;de magmas respirados&lt;br /&gt;de odor de gérmen de olhos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras podem formar uma escrita nativa&lt;br /&gt;de corpos claros&lt;br /&gt;Que são as palavras?Imprecisas armas&lt;br /&gt;em praias concêntricas&lt;br /&gt;torres de sílex e de cal&lt;br /&gt;aves insólitas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras são travessias brancas faces&lt;br /&gt;giratórias&lt;br /&gt;elas permitem a ascensão das formas&lt;br /&gt;elevam-se estrato após estrato&lt;br /&gt;ou voam em diagonal&lt;br /&gt;até à cúpula diáfana&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que enfrentam as palavras?O espelho&lt;br /&gt;da noite a sua impossível&lt;br /&gt;elipse&lt;br /&gt;Saem da noite despedaçadas feridas&lt;br /&gt;e são signos do acaso pedras de sol e sal&lt;br /&gt;a da sua língua nascem estrelas trituradas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Gravitações(1984)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um astro&lt;br /&gt;Ouve a longa incoerência da palavra e a memória&lt;br /&gt;do sangue que se apaga.Ouve a terra taciturna.&lt;br /&gt;Tudo é furtivo e as sombras não acolhem.Nenhum jardim&lt;br /&gt;de segredos.Nenhuma pátria entre as ervas e a areia.&lt;br /&gt;Onde é que nasce a sombra e a claridade?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eis as vertentes da terra árida e negra.Quem&lt;br /&gt;reconhece o equilíbrio das evidências serenas?&lt;br /&gt;Estas palavras têm o odor de portas enterradas.&lt;br /&gt;Como dominar a desmesura da ausência e a vertigem?&lt;br /&gt;Como reunir o obscuro em palavras evidentes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuta,escuta a longa incoerência da terra&lt;br /&gt;e da palavra.Ao longo da distância&lt;br /&gt;murmura a perfeição monótona de um mar.&lt;br /&gt;Num pudor de esquecimento um astro se aveluda&lt;br /&gt;em denso azul na corola do silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Volante Verde(1986)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascimento último&lt;br /&gt;Como se não tivesse substância e de membros apagados.&lt;br /&gt;Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.&lt;br /&gt;E germinar no sono,germinar na árvore.&lt;br /&gt;Tudo acabaria na noite,lentamente,sob uma chuva densa.&lt;br /&gt;Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.&lt;br /&gt;No encontro e no abandono,na última nudez,&lt;br /&gt;respiraria ao ritmo do vento,na relação mais viva.&lt;br /&gt;Seria de novo o gérmen que fui,o rosto indivisível.&lt;br /&gt;E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila&lt;br /&gt;e o repouso do ser no ser,os seus obscuros terraços.&lt;br /&gt;Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de No Calcanhar do Vento(1987)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor cerra os olhos,não para ver mas para absorver:a obscura transparência,a espessura das sombras ligeiras, a ondulação ardente: a alegria.Um cavalo corre na lenta velocidade das artérias.O amor conhece-se sobre a terra coroada:animal das águas,animal do fogo,animal do ar:a matéria é só uma,terrestre e divina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Três Lições Materiais(1989)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A palavra&lt;br /&gt;A palavra é uma estátua submersa,um leopardo&lt;br /&gt;que estremece em escuros bosques,uma anémona&lt;br /&gt;sobre uma cabeleira.Por vezes é uma estrela&lt;br /&gt;que projecta a sua sombra sobre um torso.&lt;br /&gt;Ei-la sem destino no clamor da noite,&lt;br /&gt;cega e nua,mas vibrante de desejo&lt;br /&gt;como uma magnólia molhada.Rápida é a boca&lt;br /&gt;que apenas aflora os raios de uma outra luz.&lt;br /&gt;Toco-lhe os subtis tornozelos,os cabelos ardentes&lt;br /&gt;e vejo uma água límpida numa concha marinha.&lt;br /&gt;É sempre um corpo amante e fugidio&lt;br /&gt;que canta num mar musical o sangue das vogais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Acordes(1989)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tenho lágrimas&lt;br /&gt;estou mais baixo&lt;br /&gt;junto à cal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo o solo extinto&lt;br /&gt;Não oiço ninguém&lt;br /&gt;e não regresso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adormecer talvez&lt;br /&gt;junto a uma estaca&lt;br /&gt;com uma pequena pedra&lt;br /&gt;sobre as pálpebras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de Intacta Ferida(1991)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite chega com todos os seus rebanhos&lt;br /&gt;Uma cidade amadurece nas vertentes do crepúsculo&lt;br /&gt;Há um íman que nos atrai para o interior da montanha.&lt;br /&gt;Os navios deslizam nos estuários do vento.&lt;br /&gt;Alguma coisa ascende de uma região negra.&lt;br /&gt;Alguém escreve sobre os espelhos da sombra.&lt;br /&gt;A passageira da noite vacila como um ser silencioso.&lt;br /&gt;O último pássaro calou-se.As estrelas acenderam-se.&lt;br /&gt;As ondas adormeceram com as cores e as imagens.&lt;br /&gt;As portas subterrâneas têm perfumes silvestres.&lt;br /&gt;Que sedosa e fluida é a água desta noite!&lt;br /&gt;Dir-se-ia que as pedras entendem os meus passos.&lt;br /&gt;Alguém me habita como uma árvore ou um planeta.&lt;br /&gt;Estou perto e estou longe no coração do mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de A Rosa Esquerda(1991)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amo o teu túmido candor de astro&lt;br /&gt;a tua pura integridade delicada&lt;br /&gt;a tua permanente adolescência de segredo&lt;br /&gt;a tua fragilidade acesa sempre altiva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por ti eu sou a leve segurança de um peito&lt;br /&gt;que pulsa e canta a sua chama&lt;br /&gt;que se levanta e inclina ao teu hálito de pássaro&lt;br /&gt;ou à chuva das tuas pétalas de prata&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se guardo algum tesouro não o prendo&lt;br /&gt;porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto&lt;br /&gt;que dure e flua nas tuas veias lentas&lt;br /&gt;e seja um perfume ou um beijo um suspiro solar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ofereço-te esta frágil flor esta pedra de chuva&lt;br /&gt;para que sintas a verde frescura&lt;br /&gt;de um pomar de brancas cortesias&lt;br /&gt;porque é por ti que vivo é por ti que nasço&lt;br /&gt;porque amo o ouro vivo do teu rosto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de O Teu Rosto(1994)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-966654680795220205?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/966654680795220205/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=966654680795220205' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/966654680795220205'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/966654680795220205'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/antnio-ramos-rosa_4974.html' title='ANTÓNIO RAMOS ROSA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7997274490983655647</id><published>2007-06-16T11:15:00.001+01:00</published><updated>2007-06-16T11:15:49.365+01:00</updated><title type='text'>ANTÓNIO RAMOS ROSA</title><content type='html'>O Boi da Paciência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;    Teoricamente livre para navegar entre estrelas&lt;br /&gt;    minha vida tem limites assassinos&lt;br /&gt;    Supliquei aos meus companheiros:&lt;br /&gt;    Mas fuzilem-me!&lt;br /&gt;    Inventei um deus só para que me matasse&lt;br /&gt;    Muralhei-me de amor&lt;br /&gt;    e o amor desabrigou-me&lt;br /&gt;    Escrevi cartas a minha mãe desesperadas&lt;br /&gt;    colori mitos e distribuí-me em segredo&lt;br /&gt;    e ao fim e ao cabo&lt;br /&gt;    recomeçar&lt;br /&gt;    Mas estou cansado de recomeçar!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7997274490983655647?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7997274490983655647/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7997274490983655647' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7997274490983655647'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7997274490983655647'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/antnio-ramos-rosa_4716.html' title='ANTÓNIO RAMOS ROSA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-129219773924815956</id><published>2007-06-16T11:12:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T11:13:54.138+01:00</updated><title type='text'>Pedro Calapez</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnO3wcnyDDI/AAAAAAAAADU/40LxZ5_cC8g/s1600-h/pc_r1_c4+pedro+calapez.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnO3wcnyDDI/AAAAAAAAADU/40LxZ5_cC8g/s320/pc_r1_c4+pedro+calapez.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5076603247921335346" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-129219773924815956?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/129219773924815956/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=129219773924815956' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/129219773924815956'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/129219773924815956'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/pedro-calapez_4477.html' title='Pedro Calapez'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnO3wcnyDDI/AAAAAAAAADU/40LxZ5_cC8g/s72-c/pc_r1_c4+pedro+calapez.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-1537480079212718004</id><published>2007-06-16T11:10:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T11:12:15.624+01:00</updated><title type='text'>ANTÓNIO RAMOS ROSA</title><content type='html'>Uma Voz na Pedra&lt;br /&gt;                  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não sei se respondo ou se pergunto.&lt;br /&gt;Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.&lt;br /&gt; Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.&lt;br /&gt; De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.&lt;br /&gt; A minha tristeza é a da sede e a da chama.&lt;br /&gt; Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.&lt;br /&gt; O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.&lt;br /&gt; Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.&lt;br /&gt; Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.&lt;br /&gt; Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.&lt;br /&gt; Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.&lt;br /&gt; Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.&lt;br /&gt; Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-1537480079212718004?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/1537480079212718004/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=1537480079212718004' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1537480079212718004'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1537480079212718004'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/antnio-ramos-rosa_9349.html' title='ANTÓNIO RAMOS ROSA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-5294860737032544099</id><published>2007-06-16T11:07:00.001+01:00</published><updated>2007-06-16T11:07:35.799+01:00</updated><title type='text'>ANTÓNIO RAMOS ROSA</title><content type='html'>No Fundo Aberto&lt;br /&gt;                  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Escrevo-te enquanto algo resvala, acaricia, foge&lt;br /&gt; e eu procuro tocar-te com as sílabas do repouso&lt;br /&gt; como se tocasse o vento ou só um pássaro ou uma folha.&lt;br /&gt; Chegaste comigo ao fundo aberto sob um céu marinho,&lt;br /&gt; sobre o qual se desenham as nuvens e as árvores.&lt;br /&gt; Estamos na aurícola do coração do mundo.&lt;br /&gt; O que perdemos ganhamo-lo na ondulação da terra.&lt;br /&gt; Tudo o que queremos dizer sai dos lábios do ar&lt;br /&gt; e é a felicidade da língua vegetal&lt;br /&gt; ou a cabeça leve que se inclina para o oriente.&lt;br /&gt; Ali tocamos um nó, uma sílaba verde, uma pedra de sangue&lt;br /&gt; e um harmonioso astro se eleva como uma espádua fulgurante&lt;br /&gt; enquanto um sopro fresco passa sobre as luzes e os lábios.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-5294860737032544099?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/5294860737032544099/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=5294860737032544099' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/5294860737032544099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/5294860737032544099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/antnio-ramos-rosa_4876.html' title='ANTÓNIO RAMOS ROSA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-8683898789078357865</id><published>2007-06-16T11:05:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T11:06:14.998+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-8683898789078357865?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://www.pedrocalapez.com/' title=''/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/8683898789078357865/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=8683898789078357865' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8683898789078357865'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8683898789078357865'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/blog-post.html' title=''/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7874163490705816855</id><published>2007-06-16T11:02:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T11:03:45.372+01:00</updated><title type='text'>Pedro Calapez</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnO1YcnyDCI/AAAAAAAAADM/AV2HjzamNI4/s1600-h/calapez.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnO1YcnyDCI/AAAAAAAAADM/AV2HjzamNI4/s320/calapez.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5076600636581219362" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7874163490705816855?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7874163490705816855/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7874163490705816855' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7874163490705816855'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7874163490705816855'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/pedro-calapez_1837.html' title='Pedro Calapez'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnO1YcnyDCI/AAAAAAAAADM/AV2HjzamNI4/s72-c/calapez.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-6046796624596921593</id><published>2007-06-16T11:01:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T11:02:24.365+01:00</updated><title type='text'>ANTÒNIO RAMOS ROSA</title><content type='html'>Uma pausa, não de plumas, mas elástica&lt;br /&gt;                  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;                 1 &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt; Uma pausa, não de plumas, mas elástica, &lt;br /&gt; que demorasse em si a paz ardente &lt;br /&gt; e o ardor profundo de uma alta instância. &lt;br /&gt; Que fosse o esquecimento na folhagem &lt;br /&gt; e a espessa transparência da matéria. &lt;br /&gt; O pulso pronunciaria a amplitude &lt;br /&gt; do instante inocente. A obra acender-se-ia &lt;br /&gt; na inteligência dos signos mais aéreos. &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;                 2 &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt; A inadvertência pode ser um prelúdio carnal &lt;br /&gt; na volúvel leitura de quem adormeceu. &lt;br /&gt; O sono dá ao sangue o ócio e as cores do enxofre. &lt;br /&gt; Por uma forma ausente a matéria ramifica-se &lt;br /&gt; na insolência branda de umas ruínas perfeitas. &lt;br /&gt; Um aroma rebenta da axila negra de um animal de vidro. &lt;br /&gt; Como um veleiro de fogo uma cabeleira ondula. &lt;br /&gt; A garganta do mar atira os seus pássaros de espuma. &lt;br /&gt; Uma rapariga de pedra caminha entre os arbustos de fogo. &lt;br /&gt; É a abundâcia da origem e o seu orvalho azul. &lt;br /&gt; São as armas vegetais sobre as janelas da terra. &lt;br /&gt; É a frescura do vidro nas cintilantes sílabas. &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;                         3 &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt; Na justa monotonia do meio-dia &lt;br /&gt; oiço o prodígio do repouso e a paixão adormecida. &lt;br /&gt; O concêntrico sopro imobiliza-se. É uma lâmpada &lt;br /&gt; de pedra fulgurante. Tudo é nítido mas ausente. &lt;br /&gt; O mundo todo cabe no olvido e o olvido é transparência &lt;br /&gt; de um denso torso que a nostalgia acende. &lt;br /&gt; No silêncio sinto numa só cadência &lt;br /&gt; a vociferação e o tumulto das pálpebras e dos astros. &lt;br /&gt; Pelas veias o fogo da cal é branco e liso &lt;br /&gt; e a mais remota substância culmina num rumor redondo. &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;                                 In: A Rosa Esquerda (1991)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-6046796624596921593?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/6046796624596921593/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=6046796624596921593' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/6046796624596921593'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/6046796624596921593'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/antnio-ramos-rosa_16.html' title='ANTÒNIO RAMOS ROSA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-3593553677923610391</id><published>2007-06-16T10:59:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T11:00:32.005+01:00</updated><title type='text'>Pedro Calapez</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnO0n8nyDBI/AAAAAAAAADE/gcJ2UFZ1U7I/s1600-h/PedrocalapezLugar.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnO0n8nyDBI/AAAAAAAAADE/gcJ2UFZ1U7I/s320/PedrocalapezLugar.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5076599803357563922" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-3593553677923610391?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/3593553677923610391/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=3593553677923610391' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3593553677923610391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3593553677923610391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/pedro-calapez_16.html' title='Pedro Calapez'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnO0n8nyDBI/AAAAAAAAADE/gcJ2UFZ1U7I/s72-c/PedrocalapezLugar.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-8594029411940021586</id><published>2007-06-16T10:55:00.001+01:00</published><updated>2007-06-16T10:55:55.522+01:00</updated><title type='text'>ABTÓNIO RAMOS ROSA</title><content type='html'>Que cor ó telhados de miséria&lt;br /&gt;                  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Que cor ó telhados de miséria &lt;br /&gt;onde nasci&lt;br /&gt;de tanta pequenez de tão humildes ovos &lt;br /&gt;de nenhum querer &lt;br /&gt;a que horas nasceram as estrelas que &lt;br /&gt;um dia foram&lt;br /&gt;a que horas nasci?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não vim embarcado não me encontrei&lt;br /&gt;na rua&lt;br /&gt;não nos vimos&lt;br /&gt;não nos beijamos&lt;br /&gt;nunca parti&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei que idade tenho&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando havia antes um antigamente &lt;br /&gt;havia uma esperança &lt;br /&gt;agora no próprio coração da ilusão &lt;br /&gt;onde a água limpa as pedras das ruínas &lt;br /&gt;entre destroços límpidos &lt;br /&gt;deito-me sobre a minha sombra e durmo &lt;br /&gt;e durmo&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando havia antes um amanhecer &lt;br /&gt;à beira do abismo &lt;br /&gt;agora no próprio coração do coração &lt;br /&gt;durmo estrangulando um monstro inerme &lt;br /&gt;um palhaço de palha seca e pálido &lt;br /&gt;quando havia antes um caminho&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não houve nunca amigos nem, pureza&lt;br /&gt;Nem carinhos de mãe salvam a noite&lt;br /&gt;É preciso ir mais longe na incerteza&lt;br /&gt;É preciso no silêncio não escutar&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A manhã que eu procuro não foi sonhada &lt;br /&gt;Uma árvore me ignora na raiz&lt;br /&gt;Perfeitamente desesperado é o meu sonho &lt;br /&gt;Os pássaros insultam-me na cama &lt;br /&gt;Só com doidos com doidos amaria &lt;br /&gt;perfeitamente presente na frescura &lt;br /&gt;do mar&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço &lt;br /&gt;a líquida frescura duma jarra &lt;br /&gt;um passo leve e certo em cada sombra &lt;br /&gt;um ninho em cada ouvido &lt;br /&gt;de doces abelhas cegas&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma casa uma caixa de música e sossego &lt;br /&gt;Um violão adormecido na doçura &lt;br /&gt;Um mar longínquo à volta atrás do campo &lt;br /&gt;Uma inundação de verdura e espessa paz &lt;br /&gt;Uma repetida e vasta constelação de grilos &lt;br /&gt;e os galos álacres do silêncio&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um mar de espuma e alegria obscura &lt;br /&gt;um mar de espuma e alegria clara &lt;br /&gt;entre o verde e a brisa&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na brancura dos quartos &lt;br /&gt;a inocência poderá sonhar desnuda &lt;br /&gt;os insetos poderão entrar &lt;br /&gt;juntamente com as plantas e as aves &lt;br /&gt;Uma longa asa passará&lt;br /&gt;O mundo e o silêncio a mesma ave&lt;br /&gt;e o mar&lt;br /&gt;o mudo leão longínquo e fresco &lt;br /&gt;faiscará entre o ver e as lâminas solares&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-8594029411940021586?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/8594029411940021586/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=8594029411940021586' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8594029411940021586'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8594029411940021586'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/abtnio-ramos-rosa.html' title='ABTÓNIO RAMOS ROSA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-8860868755794424392</id><published>2007-06-16T10:53:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T10:54:27.055+01:00</updated><title type='text'>PEDRO CALAPEZ</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnOzMcnyDAI/AAAAAAAAAC8/MpoITeB4CIQ/s1600-h/Pedro+Calapaez.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnOzMcnyDAI/AAAAAAAAAC8/MpoITeB4CIQ/s320/Pedro+Calapaez.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5076598231399533570" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-8860868755794424392?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/8860868755794424392/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=8860868755794424392' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8860868755794424392'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/8860868755794424392'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/pedro-calapez.html' title='PEDRO CALAPEZ'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RnOzMcnyDAI/AAAAAAAAAC8/MpoITeB4CIQ/s72-c/Pedro+Calapaez.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-1057677547133333801</id><published>2007-06-16T10:38:00.000+01:00</published><updated>2007-06-16T10:52:13.261+01:00</updated><title type='text'>ANTÓNIO RAMOS ROSA</title><content type='html'>Poema dum Funcionário Cansado&lt;br /&gt;                  &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A noite trocou-me os sonhos e as mãos &lt;br /&gt;dispersou-me os amigos &lt;br /&gt;tenho o coração confundido e a rua é estreita &lt;br /&gt;estreita em cada passo &lt;br /&gt;as casas engolem-nos &lt;br /&gt;sumimo-nos&lt;br /&gt;estou num quarto só num quarto só &lt;br /&gt;com os sonhos trocados &lt;br /&gt;com toda a vida às avessas a arder num quarto só &lt;br /&gt;Sou um funcionário apagado &lt;br /&gt;um funcionário triste &lt;br /&gt;a minha alma não acompanha a minha mão &lt;br /&gt;Débito e Crédito Débito e Crédito &lt;br /&gt;a minha alma não dança com os números &lt;br /&gt;tento escondê-la envergonhado&lt;br /&gt;o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente&lt;br /&gt;e debitou-me na minha conta de empregado&lt;br /&gt;Sou um funcionário cansado dum dia exemplar&lt;br /&gt;Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?&lt;br /&gt;Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço&lt;br /&gt;Soletro velhas palavras generosas&lt;br /&gt;Flor rapariga amigo menino &lt;br /&gt;irmão beijo namorada &lt;br /&gt;mãe estrela música&lt;br /&gt;São as palavras cruzadas do meu sonho &lt;br /&gt;palavras soterradas na prisão da minha vida &lt;br /&gt;isto todas as noites do mundo numa só noite comprida &lt;br /&gt;num quarto só.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-1057677547133333801?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/1057677547133333801/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=1057677547133333801' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1057677547133333801'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1057677547133333801'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/06/antnio-ramos-rosa.html' title='ANTÓNIO RAMOS ROSA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-3995791066669026034</id><published>2007-05-01T10:20:00.000+01:00</published><updated>2007-05-01T10:29:13.942+01:00</updated><title type='text'>NA MORTE DE UM POETA - Eduardo Pitta</title><content type='html'>Só hoje, lendo as dedicatórias que antecedem Antecedentes Criminais, criteriosa antologia com que Amadeu Baptista assinala 25 anos de obra em livro, só hoje, dizia, soube da morte de Luís de Miranda Rocha (1947-2007), poeta, ensaísta, crítico e jornalista. O facto pareceu-me tão espantoso que tive de ir conferir ao Google, por intermédio do qual li a notícia do semanário Sol. A morte inesperada ocorreu no passado 28 de Março, em Coimbra. Dissidente do jornalismo profissional, Miranda Rocha trocou o Diário de Lisboa, onde trabalhou durante quase vinte anos, pelo sossego da província. Dito de outro modo, trocou a visibilidade que um jornal (então) influente lhe dava pela paz de espírito. Retirado em Mira, e mais tarde em Coimbra, cidade onde chegou a leccionar Teoria da Comunicação, nunca deixou de escrever e publicar. A partir de certa altura perdi a conta aos livros, mas não exagero se disser que são praticamente três dezenas de títulos, entre poesia (a parte de leão) e ensaio. Uma coisa sei: importa reunir essas colectâneas dispersas, publicadas a partir de 1968, sempre à margem do circuito mainstream. Os ritmos gaguejantes que privilegiava, em resultado de uma pontuação agramatical e alógica, fazem da poesia que deixou um corpo de tensa organicidade. Como diz num poema de Os Arredores do Mar, Os Subúrbios da Noite, de 1993, «A noite altera a voz que ouve o som que canta». Conheci-o em 1976, pouco depois de chegar a Portugal, e fui acompanhando o seu percurso de outsider assumido. É verdade que nos últimos anos as notícias eram raras, mas não estava nada à espera de ter uma notícia destas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;EDUARDO PITTA in: Da Literatura - http://daliteratura.blogspot.com/&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-3995791066669026034?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://daliteratura.blogspot.com/' title='NA MORTE DE UM POETA - Eduardo Pitta'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/3995791066669026034/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=3995791066669026034' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3995791066669026034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3995791066669026034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/05/na-morte-de-um-poeta-eduardo-pitta.html' title='NA MORTE DE UM POETA - Eduardo Pitta'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-3080640241752615501</id><published>2007-04-30T23:55:00.000+01:00</published><updated>2007-05-01T00:57:06.564+01:00</updated><title type='text'>Luís de Miranda Rocha -  de NOCTURNOS  LITORAIS</title><content type='html'>I&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som do mundo o som de mais a percepção imenso o ouve&lt;br /&gt;o ouve imenso o som do mundo a percepção esse tumulto&lt;br /&gt;tumulto esse agreste triste que crescendo vaga informe&lt;br /&gt;informe vaga essa noção o seu rumor intenso alastra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa noção de que excessivo o som do mundo é som de mais&lt;br /&gt;é som de mais acumulado a percepção a luz perturba&lt;br /&gt;a luz perturba o som disforme disturba a luz perturba&lt;br /&gt;disturba o som alto que cresce tumulto intenso o som do mar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do mundo ouve o canto ouve anda no ar aéreo anda&lt;br /&gt;azul rumor crescente vaga vespertina que evolui&lt;br /&gt;em que sentido o entrevê o entreouve imenso avança&lt;br /&gt;na sua força impetuosa crescendo contra o coração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo vê o mundo anda esse rumor de que luz tensa&lt;br /&gt;de que luz viva de que luz nova um rumor cresce forte no ar&lt;br /&gt;forte que ouve essa luz vê essa luz canta nos ouvidos&lt;br /&gt;do mundo a vida renovada o seu som cresce e faz crescer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvendo o mundo o dia o grande mar durante&lt;br /&gt;o som da luz a percepção de que diurno&lt;br /&gt;rumor enorme vasto imenso que no ar&lt;br /&gt;no som do ar na luz do ar crescendo canta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som a luz isso que ouve isso que vê&lt;br /&gt;isso que ouvê anda no ar difusa vaga&lt;br /&gt;tumulto que anda no ar informe incerto&lt;br /&gt;o som metal a luz metal denso alumínio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obscuro o agreste que nos brilhos intenso&lt;br /&gt;desse mar vespertino tão real irreal&lt;br /&gt;de metal tão intenso o seu tenso rumor&lt;br /&gt;na aérea solar percepção que cintila&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vespertina apatia tão real irreal&lt;br /&gt;desse mar que metal nos seus brilhos cintila&lt;br /&gt;ilumínio furor excessivo demente&lt;br /&gt;percepção indemente gravemente indemente&lt;br /&gt;percepção de que o brilho que cintila rutila&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão grave tão agudo tão suave e agreste&lt;br /&gt;vespertino cintila esse mar de metal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;6.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tantos centros de que margens só há margens&lt;br /&gt;e margens de que centros só no mar&lt;br /&gt;só há centros da terra só há margens&lt;br /&gt;do mar a mais incerta percepção&lt;br /&gt;do mar que litoral vaga deriva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso alucina de excessivo isso estonteia&lt;br /&gt;a percepção do mundo imagem desvario&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A percepção do mundo grave à tarde triste&lt;br /&gt;esse rumor que vespertino exasperado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse rumor exasperado esse clamor&lt;br /&gt;isso de excesso esse rumor isso acumula&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso de excesso demasiado essa imagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que paira vespertina percepção&lt;br /&gt;o mar ondula devagar o mar ondeia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que paira o mar ondeia isso no ar&lt;br /&gt;essa visão do mundo à tarde flutua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que paira flutua isso que vê&lt;br /&gt;anda no ar sobre as imagens e desliza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que paira isso desliza isso desanda&lt;br /&gt;isso desloca-se devagar para que tende&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que paira essa que vaga luz difunde&lt;br /&gt;luminações cintilações que se propagam&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que paira são semoventes que cintilam&lt;br /&gt;rutilações escuramente luminosas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;9.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do dia tem que percepção residual o dia ouve&lt;br /&gt;do luminoso dia ainda o som que canta vespertino&lt;br /&gt;a sua luz grave escurece vaga que desce enfraquecida&lt;br /&gt;sombria vaga entristecida desses motores o estertor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É obscuro iluminoso ouve-o vê-o que desliza&lt;br /&gt;vê-o e ouve que decai a sua grave imagem triste&lt;br /&gt;a propensão dessa imagem vespertina inclinada&lt;br /&gt;para a noite propensão tendência para o declínio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvindo o mar o mundo a vida&lt;br /&gt;a percepção ondeia ondula&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou flutua ágil ligeiro&lt;br /&gt;esse sentido flutua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ondula viva a percepção&lt;br /&gt;instável muda e evolui&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em que sentido isso evolui&lt;br /&gt;em que sentido incerto ondeia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anda no ar o seu som rouco&lt;br /&gt;ouve-o no ar tumulto vivo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ondula ondeia esse tumulto&lt;br /&gt;crescente vaga esse rumor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão nocturno no ar esse mar que ressoa&lt;br /&gt;tão tumulto crescendo esse som que do mar&lt;br /&gt;toda a noite no mundo o ouvindo durante&lt;br /&gt;esse som os ouvidos a cabeça devasta&lt;br /&gt;tão informe do mar esse som que flui&lt;br /&gt;percepção de que anda tão incerto alterado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais de noite ressoa o que ouve esse mar&lt;br /&gt;o que anda no ar que desliza acelera&lt;br /&gt;um rumor um furor que resvala desanda&lt;br /&gt;num suave clamor decrescendo o agreste&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais de noite ressoa que o ouve no ar&lt;br /&gt;o que ouve esse mar que ondula ondeia&lt;br /&gt;percepção sensação devagar que flui&lt;br /&gt;de que agreste suave que no ar flutua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flutua no ar a cabeça o sentido&lt;br /&gt;da vida na cabeça do mundo na cabeça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flutua no ar sobre as águas do mar&lt;br /&gt;flutua flui levíssimo ligeiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flutua no ar semovente e ondula&lt;br /&gt;tão veloz devagar tão enorme o imenso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flutua no ar do coração inetenso&lt;br /&gt;o sentido intenso o senso de que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se desliza resvala&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que informe deflagra grave incerto rumoroso&lt;br /&gt;clamor vivo incendeio ilumínio que a imagem&lt;br /&gt;deflagra na cabeça deflagra o coração &lt;br /&gt;na cabeça deflagra surda luz que desvario&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desvario que devasta o som do mundo irregular&lt;br /&gt;a percepção do som do mundo numeroso vasto ondeio&lt;br /&gt;a percepção da existência esse rumor esse ruído&lt;br /&gt;a percepção desse ruído que entrevê que entreouve&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Devasta o mundo a vida vasta o coração os seus motores&lt;br /&gt;numeroso o seu rumor devastador a existência&lt;br /&gt;como um furor ouvido grave canta por dentro da cabeça&lt;br /&gt;canta por dentro mais intenso esse rumor esse clamor&lt;br /&gt;vasto por dentro que ressoa interno forte nos ouvidos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atinge forte o coração os centros todos atordoa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;26.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A percepção disso de que isso exaspera&lt;br /&gt;isso o incerto à vaga luz isso é informe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso é informe formação que se desloca&lt;br /&gt;isso no ar muda de forma em movimento&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De que informe percepção isso depende&lt;br /&gt;vertiginoso que desliza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que resvala devagar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;27.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouve-se canta esse rumor vasto suave deflagra&lt;br /&gt;ouve-se canta é um rumor é um clamor agreste e rouco&lt;br /&gt;ouve-se canta é um estertor ouve-se dentro na cabeça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse rumor esse clamor devastador imenso e grave&lt;br /&gt;anda no mundo anda no ar ouve-o forte é um furor&lt;br /&gt;é um excesso grave de mais cantando triste nos ouvidos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;28.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que ouve esse rumor isso alucina&lt;br /&gt;isso que ouve é percepção quase demente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que ouve cresce por dentro vê-o crescer&lt;br /&gt;a percepção disso que cresce é excessiva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que ouve tende a crescer cada vez mais&lt;br /&gt;a percepção disso que cresce em que sentido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que ouve esse rumor de cordas tensas&lt;br /&gt;de arcos sobre as cordas tensas evolui&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que ouve esse rumor é um clamor&lt;br /&gt;é um rumor devastador do mundo triste&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que ouve o mundo triste isso ressoa&lt;br /&gt;interno dentro a percepção grave devasta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que ouve isso devasta esse rumor&lt;br /&gt;esse clamor interior interno dentro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso que ouve esse som surdo isso em surdina&lt;br /&gt;isso ensurdece isso aturde isso atordoa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cabeça ou ouvidos a cabeça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;29.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouve-se canta esse rumor vasto suave deflagra&lt;br /&gt;ouve-se canta é um rumor é um clamor agreste rouco&lt;br /&gt;ouve-se canta um estertor ouve-se canta na cabeça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse rumor esse clamor devastador imenso e grave&lt;br /&gt;anda no mundo anda no ar ouve-o forte é um furor&lt;br /&gt;é um excesso grave de mais cantando triste nos ouvidos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;30.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite cresce a vida dentro a viva noite ouve-a crescer&lt;br /&gt;ouve-a crescer ouve que canta intensa mais veloz ligeira&lt;br /&gt;a vida a noite que acelera a vida a noite acelerada&lt;br /&gt;a vida dentro a noite dentro interna canta interior&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite canta luminosa o seu deslize arterial&lt;br /&gt;intensa luz forte ilumínio do seu som há que percepção&lt;br /&gt;que visão há que entrevisão no som que ouve que entrevê&lt;br /&gt;no som que ouve o que entrevê o que entreouve a noite canta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;31.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nocturno o som do mundo ouve&lt;br /&gt;escuro intenso a sua voz&lt;br /&gt;o som do mundo grave&lt;br /&gt;o som do mundo tanto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rumor imenso vasto&lt;br /&gt;azul escuro intenso&lt;br /&gt;o som do mundo a noite&lt;br /&gt;rumor azul descanta&lt;br /&gt;furor clamor triste&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;32.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ganindo o ouve agudo grave que lancina&lt;br /&gt;de que sentido tão intenso esse rumor&lt;br /&gt;é percepção já irreal de que a unidade&lt;br /&gt;do real a sua imagem devastou-se&lt;br /&gt;fracturou-se essa imagem dividiu-se&lt;br /&gt;distendeu-se o seu rumor a percepção&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvê-se mal que deflagra esse rumor&lt;br /&gt;é um furor é um clamor que ensurdece&lt;br /&gt;os ouvidos que devasta é um ruído&lt;br /&gt;num crescendo que alastra prolifera&lt;br /&gt;que domina que entristece que oprime&lt;br /&gt;irreal a cabeça o coração&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fragmentos de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Nocturnos Litorais&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Edição: &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O Mirante&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Santarém, 2003&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-3080640241752615501?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/3080640241752615501/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=3080640241752615501' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3080640241752615501'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3080640241752615501'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/04/lus-de-miranda-rocha-de-nocturnos.html' title='Luís de Miranda Rocha -  de NOCTURNOS  LITORAIS'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-2124498380823547435</id><published>2007-04-30T23:52:00.000+01:00</published><updated>2007-04-30T23:54:37.246+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RjZzjbumOpI/AAAAAAAAAC0/NvuUspiYvc4/s1600-h/4618.JPG"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RjZzjbumOpI/AAAAAAAAAC0/NvuUspiYvc4/s320/4618.JPG" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5059358283973147282" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-2124498380823547435?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/2124498380823547435/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=2124498380823547435' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2124498380823547435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2124498380823547435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/04/blog-post.html' title=''/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RjZzjbumOpI/AAAAAAAAAC0/NvuUspiYvc4/s72-c/4618.JPG' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-2576915538096722261</id><published>2007-04-02T16:02:00.000+01:00</published><updated>2007-04-02T17:45:38.243+01:00</updated><title type='text'>Luís de Miranda Rocha - LivrosÚltimo</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;FINGIMENTO E ESCRITA&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Fernando Pessoa numa perspectiva da comunicação e dos meios&lt;br /&gt;Editora O MIRANTE, Santarém&lt;br /&gt;Setembro de 2006 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A bibliografia sobre Fernando Pessoa é hoje tão vasta que quase se tem a tentação de dizer que sobre ele e a sua obra já tudo foi dito. E sobre os poemas «Autopsicografia» e «Isto» (sobretudo o primeiro) já tanto se disse que parece não haver muito mais a dizer. Não é essa no entanto a ideia em que aqui se assenta e de que aqui se parte para uma leitura nova e diferente destes poemas e da obra de Pessoa (de que tais poemas são a chave para toda a interpretação), numa perspectiva da comunicação e dos meios. Na perspectiva da comunicação, já muito se escreveu. Na perspectiva dos meios, não, pelo menos para além de algumas aproximações, mais nos domínios do psicológico e do literário do que do comunicacional. No caso, o meio central em questão é a escrita. E é disso que se trata nos textos deste livro. uma revisão crítica das leituras de «Autopsicografia»; uma leitura nova (comunicacional e mediológica) deste poema; outra do poema "Isto"; uma análise da frase "A minha pátria é a língua portuguesa"; outro sobre a máquina de escrever e as alterações comunicacionais por ele produzidas; outro ainda sobre um poema de Dylam Thomas, onde é da escrita que se trata, e dos seus poderes (aquém e além das evidências de que o que está em questão é o problema da guerra ou da paz). "Fingimento e Escrita, Fernando Pessoa numa perspectiva da Comunicação e dos Meios", situando-se, embora, na linha dos estudos pessoanos, pretende-se, aí, algo de diferente e novo, renovador, inovador,alterador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís de Miranda Rocha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Isto", uma leitura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Dizem que finjo ou minto&lt;br /&gt;Tudo o que escrevo. Não.&lt;br /&gt;Eu simplesmente sinto&lt;br /&gt;Com a imaginação.&lt;br /&gt;Não uso o coração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo o que sinto ou passo,&lt;br /&gt;O que me falha ou finda,&lt;br /&gt;É como que um terraço,&lt;br /&gt;Sobre outra coisa ainda.&lt;br /&gt;Essa coisa é que é linda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso escrevo em meio&lt;br /&gt;Do que não está o pé,&lt;br /&gt;Livre do meu enleio,&lt;br /&gt;Sério do que o não é.&lt;br /&gt;Sentir? Sinta quem lê. &lt;/span&gt;(1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É o poema "Isto" e aparece em diversos manuais escolares e antologias logo a seguir a "Autopsicografia". E não é por acaso, decerto. Talvez principalmente por duas razões.&lt;br /&gt;Uma é que, na ordenação temporal do poemário de Pessoa ortónimo, os dois poemas estão muito próximos, a uma distância de cerca de dois anos e na última fase da vida do autor.&lt;br /&gt;Outra é que, talvez por isso, é mais entrevisível a relação entre os dois poemas no que respeita ao tema, aos temas.&lt;br /&gt;Mais importante do que a ligação entre os dois poemas é o carácter explicativo que se pode atribuir a "Isto" relativamente a "Autopsicografia". Explicativo e/ou justificativo. Complementar e/ou suplementar, também, decerto. Mas dizer complementar ou suplementar é significar pouco, face à íntima relação (temático-assumptiva, estilística, até formal) entre os dois poemas. E ainda que sem grande rigor, porque no domínio das impressões, poderíamos falar também do mesmo tom de voz, de fala, de discurso.&lt;br /&gt;O próprio título, "Isto", parece indicativo a tal respeito. Isto é um pronome demonstrativo neutro, aplicado a um conjunto indeterminado de objectos, de situações. Indica, porém, a proximidade do que vagamente (neutralmente, digamos, ou indiscriminada e distanciadamente) designa.&lt;br /&gt;No caso, "Isto" parece apontar aquilo de que em "Autopsicografia" se trata: o fingimento, a escrita que o medeia e processa, o que resulta que o leitor fez desse texto, dessa elaboração organizada (e elaborada organização) da escrita, percepção significativa e sentidual do que se diz, melhor, escreve, que do que lê faz o leitor ( e que redundante dizê-lo, pode não corresponder ao que era intenção do poeta ou escritor dizer, significar, e, mais do que isso, o drama que isso (essa não-correspondência) representa, para aquele que escreve, que na escrita como fala, faz ouvir a sua voz (digamos assim, embora seja, não fala, sim escrita, o que aqui está em questão).&lt;br /&gt;Parece ser, e talvez seja, uma resposta a objecções críticas ou apenas uma explicação/justificação pessoal perante tais objecções críticas ou perante críticos e objectores - assinalados nas marcas de pessoa e número da forma verbal inicial "Dizem".&lt;br /&gt;Em questão, o fingimento e/ou mentira.  Já vimos que fingir, em rigor, não é mentir. Em rigor, isto é, para além ou um pouco acima do senso comum. A nível do senso comum, porém, fingir e mentir, se não se pode dizer que se trate propriamente do mesmo, também não são actos ou atitudes muito distanciadas.&lt;br /&gt;"Minto", portanto, nõ está aqui só para rimar com "sinto", mas porque tem categoria e dignidade de argumento, e tê-lo em conta é reconhecer-lhe essa categoria e essa dignidade.&lt;br /&gt;Questão menor. Questão maior é o que se segue: a sumária mas lapidar explicação/justificação que aí se faz de "tudo o que escrevo".&lt;br /&gt;Não é pretender desmentir que seja de fingimento que se trata. Mas também não é confirmar que se trate de fingimento. Porque é, mas não é, ou não é bem como parece ser, e pode até ser muito diferente do que parece.&lt;br /&gt;O que parece é o que "dizem" - fingimento ou mentira. Mas fingimento ou mentira é uma coisa, no entendimento ou na perspectiva dos que "dizem", e outra na perspectiva ou no entendimento do que escreve. A mensagem não é ou não quer dizer o mesmo para o que escreve e para o que lê, o emissor e o receptor. E isso aquém do que também mais do que provavelmente não será o mesmo ou não quererá dizer o mesmo de receptor para receptor - questão, aliás, que aqui não se levanta, ou à qual o emissor é indiferente: a recepção é plural, inúmera e anónima, e, pessoalizado ou individualizado, só o emissor, por oposição distintiva (e poderíamos dizer criticamente ostensiva) em relação aos demais.&lt;br /&gt;Eis-nos, portanto, plenamente dentro da questão comunicacional, a mesma de "Autopsicografia".&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;in:&lt;span style="font-weight:bold;"&gt; Fingimento e Escrita&lt;span style="font-style:italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;(Fernando Pessoa  numa perspectiva da comunicação e dos meios)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-2576915538096722261?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/2576915538096722261/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=2576915538096722261' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2576915538096722261'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2576915538096722261'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/04/lus-de-miranda-rocha-livrosltimo.html' title='Luís de Miranda Rocha - LivrosÚltimo'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-4491210320757034397</id><published>2007-04-01T23:43:00.000+01:00</published><updated>2007-04-02T00:25:16.323+01:00</updated><title type='text'>Luís de Miranda Rocha</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís de Miranda Rocha nasceu em Mira, em Agosto de 1947 e faleceu, em Coimbra, a 28 de Março de 2007. Escritor, jornalista, professor. Publicou mais de duas dezenas de livros e cadernos e a sua presença consta em mais de duas dezenas de colectivos, nos domínios da poesia e do ensaísmo crítico. Desde os anos 60, colaborou em diversos jornais e revistas. Foi sócio da Associação Portuguesa de Escritores e membro da Associação de Críticos Literários, as quais representou em júris de múltiplos Prémios Literários. Jornalista, desde 1973, foi profissional durante dez anos em Lisboa (&lt;span style="font-style:italic;"&gt;Diário de Lisboa&lt;/span&gt; e outras publicações. Fez, desde 1983 a &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Voz de Mira &lt;/span&gt; e desde 1998 a revista cultural &lt;span style="font-style:italic;"&gt;Gandarena&lt;/span&gt;, dos quais foi director-adjunto. Como professor, esteve a leccionar no secundário, passou pelo ensino superior e politécnico, e pelo técnico e profissinal no ITAP, em Coimbra. Foi formador, pelo Cenjor, na área do Jornalismo. Frequentou o Instituto de Estudos Sociais e a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, entre os fins dos anos sessenta e princípios de setenta.&lt;br /&gt;Licenciou-se, pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Estudos Portugueses. Frequentou ainda um mestrado nesta área, na Universidade de Aveiro, tendo feito o ano curricular.&lt;br /&gt;Viveu em Viseu, Lisboa e Coimbra.&lt;br /&gt;Poemas seus estão traduzidos em Castelhano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre um dos seus últimos livros, &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A luz da noite, o som do mundo&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;, editado,em 2001, pela &lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Nova Imbondeiro&lt;/span&gt;,livro este assaz importante no panorama da nossa poesia contemporânea, escreveu Cristina Mello, como posfácio a este livro, um longo texto de interpretação dos seus vários segmentos de leitura, do qual se transcreve um breve parágrafo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;« Numa tentativa de compreender o imaginário do canto grave de &lt;span style="font-style:italic;"&gt;A luz da noite, o som do mundo,   &lt;/span&gt; canto (fala,voz) que recusa as amenidades, as harmonias eufónicas, mas também a sua tradução semântica, ocorre que nele se alude, de um modo muito subtil (quase como uma natural decorrência dos significantes verbais), a um mundo em que não há lugar para a harmonia, para a unidade»&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-4491210320757034397?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/4491210320757034397/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=4491210320757034397' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4491210320757034397'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4491210320757034397'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/04/lus-de-miranda-rocha.html' title='Luís de Miranda Rocha'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-2100234199091715495</id><published>2007-03-30T19:31:00.000+01:00</published><updated>2007-03-30T19:32:15.284+01:00</updated><title type='text'>Rui Aguiar</title><content type='html'>Imagem&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-2100234199091715495?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/2100234199091715495/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=2100234199091715495' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2100234199091715495'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2100234199091715495'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/rui-aguiar.html' title='Rui Aguiar'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-2064706315007786177</id><published>2007-03-30T19:29:00.000+01:00</published><updated>2007-03-30T19:30:57.498+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/Rg1XSXfC0hI/AAAAAAAAACs/eXA1t9Ae5dI/s1600-h/MF37pint_3.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/Rg1XSXfC0hI/AAAAAAAAACs/eXA1t9Ae5dI/s320/MF37pint_3.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5047786730405679634" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-2064706315007786177?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/2064706315007786177/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=2064706315007786177' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2064706315007786177'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2064706315007786177'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/blog-post_30.html' title=''/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/Rg1XSXfC0hI/AAAAAAAAACs/eXA1t9Ae5dI/s72-c/MF37pint_3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-1372032184142061095</id><published>2007-03-30T17:28:00.000+01:00</published><updated>2007-03-30T19:14:19.391+01:00</updated><title type='text'>Luís de Miranda Rocha</title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A LUZ DA NOITE, O SOM DO MUNDO&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1&lt;br /&gt;Há um rumor, na voz que ouve, o mundo canta&lt;br /&gt;Na voz que fala, o mundo ouve, o som do mundo&lt;br /&gt;A luz da noite, incerta vaga, escuramente&lt;br /&gt;A luz da noite, o som do mundo, azul escuro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um rumor, intenso grave, ouvido canta&lt;br /&gt;O som do mundo, que no ar, o alterado&lt;br /&gt;Esse rumor, imenso tão, suave grave&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvindo-o, esse rumor&lt;br /&gt;Nocturno tão, grave ruído&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2&lt;br /&gt;Que de noite ressoa, mais intenso durante&lt;br /&gt;Todo o som de que o mundo, e mais forte descanta&lt;br /&gt;Obscuro intenso, alumínio ilumínio&lt;br /&gt;Tanto a vida do mundo, percepção alterada&lt;br /&gt;Rumor que ouvindo-o, que do mar que no ar&lt;br /&gt;Percepção de que anda, que resvala desliza&lt;br /&gt;Decrescente decai, declínio crescente&lt;br /&gt;Alterado intenso, nos ouvidos ressoa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3&lt;br /&gt;Que descanta, isso tanto, tão ouvido&lt;br /&gt;Obscuro, na cabeça, arterial&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão ouvido, que descanta, que altera&lt;br /&gt;Desaltera, gravemente, esse ruído&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que altera, desaltera, que devasta&lt;br /&gt;Indemente, gravemente, enrouquecido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que devasta, tão ouvido, esse rumor&lt;br /&gt;Esse som, que descanta, que nocturno&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4&lt;br /&gt;Anoitece o intenso quando ouvido da noite&lt;br /&gt;Grevemente no ar o rumor o ruído&lt;br /&gt;Da desordem do caos gravemente crescendo&lt;br /&gt;O ouvido durante o que ouve o tremor&lt;br /&gt;Do que ouve entreouve o sentido que treme&lt;br /&gt;Anoitece o intenso excessivo intenso&lt;br /&gt;O sentido de mais de que o caos que se forma&lt;br /&gt;Anoitece entristece o sentido que cresce&lt;br /&gt;Rumor que evolui do sentido no censo&lt;br /&gt;Que furor que tremor do sentido oscila&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5&lt;br /&gt;Ouvindo-o indemente que ruído rumor&lt;br /&gt;Tão agreste descanta esse som alterado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em furor alterado o resíduo crescente&lt;br /&gt;Ouvindo-o indemente azul grave obscuro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ilumínio alumínio azul grave e intenso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;10&lt;br /&gt;O alastro indemente de que senso desliza&lt;br /&gt;Alumíneo rumor grevemente veloz&lt;br /&gt;De que senso o rumor progressivo que cresce&lt;br /&gt;Alumínio intenso que intensivo decai&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numeroso inúmero&lt;br /&gt;O clamor de que&lt;br /&gt;Um furor que desvive&lt;br /&gt;O seu som tão intenso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um furor que descanta&lt;br /&gt;Que desvive alterado&lt;br /&gt;O som grave do mundo&lt;br /&gt;Que oscila resvala&lt;br /&gt;Que resvala flui&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;11&lt;br /&gt;Indomínio crescente do sentido que anda&lt;br /&gt;Alterado rumor inclínio que cresce&lt;br /&gt;Na vida e no mundo na noite do mundo&lt;br /&gt;No som de que avida do mundo descanta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a vida que ouve nesse som que descanta&lt;br /&gt;O sentido que cresce devagar e ligeiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;12&lt;br /&gt;Escura vaga, azul a luz, da noite cresce&lt;br /&gt;Por dentro ouvido, gravemente, o seu rumor&lt;br /&gt;Intenso alto, luminoso que ilumínio&lt;br /&gt;Alumínio, que ressoa, triste grave&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que descanta, como canta, tão incerto&lt;br /&gt;Esse som, devastado nos ouvidos&lt;br /&gt;Que ruído, que do mundo, quanto ouve&lt;br /&gt;Tão nocturno, ilumínio, deflagra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;13&lt;br /&gt;O tão agreste grave, o som que anda&lt;br /&gt;No ar durante a noite, o som do mundo&lt;br /&gt;No som grave da noite, o mundo ouve&lt;br /&gt;No som do mundo a noite, o mar demente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;14&lt;br /&gt;A noite, que do mundo, o som descanta&lt;br /&gt;O canto, que do mundo, a luz depende&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite, percepção, de que no ar&lt;br /&gt;O mar, o som do mar, que no ar anda&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terra, percepção, de que terrestre&lt;br /&gt;O som, do mundo ouve, intenso canta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz, tão irreal, demente que&lt;br /&gt;No ar, celeste tão, grave cintila&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;15&lt;br /&gt;O som do mundo, anda no ar, tumulto azul, imenso grave&lt;br /&gt;O som do mundo, o som da noite, a luz da noite, azul escuro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A luz da noite, estrito intenso, a luz o seu, tenso alumínio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;20&lt;br /&gt;Tão grave o som do mundo canta&lt;br /&gt;Intensamente nos ouvidos&lt;br /&gt;Esse rumor esse furor&lt;br /&gt;Esse clamor devastador&lt;br /&gt;Ruído tão nocturno triste&lt;br /&gt;Crescendo tão veloz alastra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;21&lt;br /&gt;O som do mundo ouve a noite canta&lt;br /&gt;Um som tão grave triste nos ouvidos&lt;br /&gt;O som do mundo tanto tão intenso&lt;br /&gt;Um som imenso tanto um som nocturno&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;22&lt;br /&gt;O que ouve no ar o que anda no ar&lt;br /&gt;Esse som de que o mundo&lt;br /&gt;De que a vida descanta&lt;br /&gt;Esse errado rumor&lt;br /&gt;Esse som obscuro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;23&lt;br /&gt;Ouvindo-o, esse furor, do mundo anda&lt;br /&gt;No ar, e nos ouvidos, na cabeça&lt;br /&gt;Descanta, grave tarde, quando a noite&lt;br /&gt;Descanta, grave quando, o fim do dia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouvindo-o, que descanta, esse furor&lt;br /&gt;Intenso, na cabeça, nos ouvidos&lt;br /&gt;No ar, crepuscular, na formação&lt;br /&gt;Da noite, esse furor do mundo vivo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;24&lt;br /&gt;Esse som veemente, tão demente indemente&lt;br /&gt;Na cabeça a bater, a bater a bater&lt;br /&gt;Nos ouvidos por dentro, da cabeça intenso&lt;br /&gt;O que ouve tão grave, tão agudo o que ouve&lt;br /&gt;O que ouve esse som, excessivo devasta&lt;br /&gt;O demente indemente, devastado que canta&lt;br /&gt;O que ouve esse som, o que canta descanta&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25&lt;br /&gt;Azul escuro grave a noite canta&lt;br /&gt;O brilho frio tenso das estrelas&lt;br /&gt;A pouca luz escura densa vê&lt;br /&gt;Nocturno triste o som do mundo ouve&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;50&lt;br /&gt;O que ouve esse vasto&lt;br /&gt;Rumor grande que anda&lt;br /&gt;Tão intenso no ar&lt;br /&gt;Tão intenso ligeiro&lt;br /&gt;O som grave do mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que ouve de onde&lt;br /&gt;No que ouve entrevê&lt;br /&gt;De onde vem para onde&lt;br /&gt;De onde a vida que som&lt;br /&gt;Que sentido desliza&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;51&lt;br /&gt;O que ouve persistindo esse rumor&lt;br /&gt;Em furor veemente se transforma&lt;br /&gt;Sensação que crescente percepção&lt;br /&gt;Do que ouve persistindo tão incerto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;52&lt;br /&gt;Esse alastro luminoso da cabeça&lt;br /&gt;Dos ouvidos tão veloz ao coração&lt;br /&gt;Que ouvido que rumor do que ouvido&lt;br /&gt;Que pode dentro escuramente luminoso&lt;br /&gt;Agreste grave canta o som do mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;53&lt;br /&gt;Esse furor, agreste que, agudo grave&lt;br /&gt;Na cabeça, indemente, o som descanta&lt;br /&gt;O som do mundo, intensa vaga, vasta informe&lt;br /&gt;O som do mundo, alegre triste, que alastra&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que se ouve, nos ouvidos, obscuro&lt;br /&gt;Alumínio, ilumínio, densidade&lt;br /&gt;Excessiva, que perturba, que obstrui&lt;br /&gt;A incerta, percepção, irreal que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;54&lt;br /&gt;Radiante, obscuro, que descanta&lt;br /&gt;Alumínio, ilumínio, se o vê&lt;br /&gt;Se o ouve, que desliza, que resvala&lt;br /&gt;Tão demente, indemente, que ruído&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;55&lt;br /&gt;Ouvido como a noite o mundo anda&lt;br /&gt;Que canta que descanta que nocturno&lt;br /&gt;Intenso dentro o ouve é que rumor&lt;br /&gt;Furor claro escuro grave intenso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;60&lt;br /&gt;Deflagra que luz&lt;br /&gt;Tão agudo tão grave&lt;br /&gt;Tão imenso tão forte&lt;br /&gt;Luminoso alumínio&lt;br /&gt;Tão real irreal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que transluz que rumor&lt;br /&gt;Tão suave e agreste&lt;br /&gt;Na cabeça por dentro&lt;br /&gt;Nos ouvidos interno&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;61&lt;br /&gt;Vaga luz alumínea&lt;br /&gt;Que pequeno ilumíneo&lt;br /&gt;Que se ouve se canta&lt;br /&gt;Que se ouve por dentro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que se ouve por dentro&lt;br /&gt;Ilumíneo rumor&lt;br /&gt;Tão intenso que ouve&lt;br /&gt;Que ouvido se altera&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que ouvido se altera&lt;br /&gt;Vaga luz que ouvida&lt;br /&gt;Que se ouve que anda&lt;br /&gt;Que desliza ligeiro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;62&lt;br /&gt;Que ligeiro desliza, o tão grave rumor&lt;br /&gt;Dos ruídos externos, o resíduo crescente&lt;br /&gt;Do ardente ilumínio,que do som deflagra&lt;br /&gt;Pontual gradual, tão intenso crescendo&lt;br /&gt;O descanto do mundo, na cabeça ressoa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;63&lt;br /&gt;Que percepção, que se desloca,&lt;br /&gt;Que formação, de que imagem&lt;br /&gt;Tão vaga tão, incerta nula&lt;br /&gt;Desgrave tão, e alterada&lt;br /&gt;Desalterado, crescimento&lt;br /&gt;Ondeio que, ondula o ar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;64&lt;br /&gt;A voz que canta, a sua fala, o som da voz, o som que canta, é obscuro.&lt;br /&gt;O som que ouve esse rumor, do mundo ouve, a noite cresce.&lt;br /&gt;É um clamor, cada vez mais, extenso e alto.&lt;br /&gt;É um furor, devastador, intenso e nulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;65&lt;br /&gt;Dirigi-se esta fala a que ouvidos&lt;br /&gt;O som o que da voz aí desliza&lt;br /&gt;Diz pouco esse dizer é tão escuro&lt;br /&gt;Nas margens faz-se ouvir incertamente&lt;br /&gt;Dos centros de que vem de que resvala&lt;br /&gt;Não tem há muito não origem nem&lt;br /&gt;Há muito que não tem nenhum destino&lt;br /&gt;Descentro que deriva desvaria&lt;br /&gt;O sentido que tem é senso informe&lt;br /&gt;A fala que se ouve aí descanta&lt;br /&gt;Descanto progressivo que se ouve&lt;br /&gt;O canto o grave que no som se diz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;66&lt;br /&gt;A voz que fala, a quem a ouve, o som durante&lt;br /&gt;Esse rumor a noite canta, o som ruído&lt;br /&gt;Devastador, imenso cresce, o mundo anda&lt;br /&gt;A vida anda, essa deriva, a vaga incerta&lt;br /&gt;Nocturno tão, esse som grave, o mundo triste&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A percepção, que litoral, de noite o mar&lt;br /&gt;Imenso o som, que grave canta, o mundo ouvido&lt;br /&gt;A percepção, de que a vida, sensação&lt;br /&gt;A sensação, de que no ar, o som de que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Luís de Miranda Rocha&lt;br /&gt;in: A LUZ DA NOITE, O SOM DO MUNDO&lt;br /&gt;Novo Imbondeiro,2001&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-1372032184142061095?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/1372032184142061095/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=1372032184142061095' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1372032184142061095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1372032184142061095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/lus-de-miranda-rocha.html' title='Luís de Miranda Rocha'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7816657167358568484</id><published>2007-03-28T18:39:00.001+01:00</published><updated>2007-03-28T18:40:00.952+01:00</updated><title type='text'>Eduardo Batarda</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqoV3fC0fI/AAAAAAAAACY/T7pvma7JIpw/s1600-h/BATARDA_small.gif"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqoV3fC0fI/AAAAAAAAACY/T7pvma7JIpw/s320/BATARDA_small.gif" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5047031426046939634" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7816657167358568484?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7816657167358568484/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7816657167358568484' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7816657167358568484'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7816657167358568484'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/eduardo-batarda_5016.html' title='Eduardo Batarda'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqoV3fC0fI/AAAAAAAAACY/T7pvma7JIpw/s72-c/BATARDA_small.gif' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-30631304277780726</id><published>2007-03-28T18:17:00.000+01:00</published><updated>2007-03-28T18:32:57.079+01:00</updated><title type='text'>Ruy Belo</title><content type='html'>&lt;strong&gt;E Tudo Era Possível&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na minha juventude antes de ter saído&lt;br /&gt;de casa de meus pais disposto a viajar&lt;br /&gt;eu conhecia já o rebentar do mar&lt;br /&gt;das páginas dos livros que já tinha lido.&lt;br /&gt;Chegava o mês de Maio, em tudo florido&lt;br /&gt;o rolo das manhãs punha-se a circular&lt;br /&gt;e era só ouvir o sonhador falar&lt;br /&gt;da vida como se ela houvesse acontecido.&lt;br /&gt;E tudo se passava numa outra vida&lt;br /&gt;e havia para as coisas sempre uma saída.&lt;br /&gt;Quando foi isso? Eu próprio não sei dizer.&lt;br /&gt;Só sei que tinha o poder de uma criança,&lt;br /&gt;entre as coisas e mim havia vizinhança&lt;br /&gt;e tudo era possível era só querer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Canção do Lavrador&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meus versos lavro-os ao rubro&lt;br /&gt;nesta página de terra&lt;br /&gt;que abro em lábios. Descubro-&lt;br /&gt;-lhe a voz que no fundo encerra&lt;br /&gt;Os versos que faço sou-os&lt;br /&gt;a relha rasga-me a vida&lt;br /&gt;e amarra os sonhos de voos&lt;br /&gt;que eu tinha à terra ferida&lt;br /&gt;Poema que mais que escrevo&lt;br /&gt;devo-te em vida. No húmus&lt;br /&gt;a rego simples eu levo&lt;br /&gt;os meus desvairados rumos&lt;br /&gt;Mas mais que poema meu&lt;br /&gt;(que eu nunca soube palavra)&lt;br /&gt;isto que dispo sou eu&lt;br /&gt;Poeta não escrevas lavra&lt;br /&gt;           &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Meditação Anciã&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui eu fui feliz aqui fui terra&lt;br /&gt;aqui fui tudo quanto em mim se encerra&lt;br /&gt;aqui me senti bem aqui o vento veio&lt;br /&gt;aqui gostei de gente e tive mãe&lt;br /&gt;em cada árvore e até em cada folha&lt;br /&gt;aqui enchi o peito e mesmo até desfeito&lt;br /&gt;eu fui aquele que da vida vil se orgulha&lt;br /&gt;Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei&lt;br /&gt;um avião um riso uns olhos uma luz&lt;br /&gt;eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus&lt;br /&gt;               &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;A Mão no Arado&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feliz aquele que administra sabiamente&lt;br /&gt;a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias&lt;br /&gt;Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará&lt;br /&gt;Oh! como é triste envelhecer à porta&lt;br /&gt;entretecer nas mãos um coração tardio&lt;br /&gt;Oh! como é triste arriscar em humanos regressos&lt;br /&gt;o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão&lt;br /&gt;ao longo do mar transbordante de nós&lt;br /&gt;no demorado adeus da nossa condição&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É triste no jardim a solidão do sol&lt;br /&gt;vê-lo desde o rumor e as casas da cidade&lt;br /&gt;até uma vaga promessa de rio&lt;br /&gt;e a pequenina vida que se concede às unhas&lt;br /&gt;Mais triste é termos de nascer e morrer&lt;br /&gt;e haver árvores ao fim da rua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É triste ir pela vida como quem&lt;br /&gt;regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro&lt;br /&gt;É triste no outono concluir&lt;br /&gt;que era o verão a única estação&lt;br /&gt;Passou o solidário vento e não o conhecemos&lt;br /&gt;e não soubemos ir até ao fundo da verdura&lt;br /&gt;como rios que sabem onde encontrar o mar&lt;br /&gt;e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver&lt;br /&gt;através de palavras de uma água para sempre dita&lt;br /&gt;Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Triste é comprar castanhas depois da tourada&lt;br /&gt;entre o fumo e o domingo na tarde de novembro&lt;br /&gt;e ter como futuro o asfalto e muita gente&lt;br /&gt;e atrás a vida sem nenhuma infância&lt;br /&gt;revendo tudo isto algum tempo depois&lt;br /&gt;A tarde morre pelos dias fora&lt;br /&gt;É muito triste andar por entre Deus ausente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                &lt;br /&gt;&lt;strong&gt;ADVENTO DO ANJO&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ontem e anteontem já passados&lt;br /&gt;arredondemos os olhos à volta&lt;br /&gt;daquela antiga realidade&lt;br /&gt;alfa ómega primeira e última&lt;br /&gt;que sempre diante na fronte trouxemos&lt;br /&gt;Circundemo-la de um colar de palavras&lt;br /&gt;sem pálpebras pobres pálidas de rosto&lt;br /&gt;roubadas às esquinas eivadas&lt;br /&gt;de arestas agrestes pontiagudas&lt;br /&gt;Percamos palavras como folhas&lt;br /&gt;perdem no Outono as árvores, varridos&lt;br /&gt;pelo contínuo apascentar de cuidados&lt;br /&gt;Já se vão areando as praias de amanhã&lt;br /&gt;desde ontem a morte morreu&lt;br /&gt;E vamos e banhemo-nos no mar&lt;br /&gt;que o anjo forte cúpula do tempo&lt;br /&gt;se sente vir anunciar e fechar&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-30631304277780726?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/30631304277780726/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=30631304277780726' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/30631304277780726'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/30631304277780726'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/ruy-belo_7384.html' title='Ruy Belo'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-2320779920817930709</id><published>2007-03-28T18:12:00.000+01:00</published><updated>2007-03-28T18:13:07.439+01:00</updated><title type='text'>Ruy Belo</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Os balcões sucessivos sobre o rio &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Os balcões sucessivos sobre o rio&lt;br /&gt;as tesouras de poda nas roseiras&lt;br /&gt;a sonolência lânguida e perversa&lt;br /&gt;esse todo coerente e sobre ele apenas&lt;br /&gt;a abóbada da minha perfeição&lt;br /&gt;é esse o meu convite à desistência&lt;br /&gt;a pena menos pública do mundo nos&lt;br /&gt;lagos das finas flores dos sabugueiros&lt;br /&gt;onde a mulher soltava os cabelos&lt;br /&gt;pra que neles se prendesse o cheiro a erva&lt;br /&gt;Ela tinha um aspecto inesperado&lt;br /&gt;vinha com o vestido cor magenta nos&lt;br /&gt;braços que lhe cresceram sobre a terra&lt;br /&gt;movia-se ao andar como uma barca&lt;br /&gt;Importa-me é o curso do dia e da noite&lt;br /&gt;Vou andar um bocado nos caminhos&lt;br /&gt;é pela hora em que não há ninguém&lt;br /&gt;nudez desprevenida dos meus dias&lt;br /&gt;mas só de noite desço até ao mar após&lt;br /&gt;as sete horas da tarde hora crepuscular&lt;br /&gt;os cheiros confortáveis e antigos&lt;br /&gt;imagens dum lirismo fraudulento&lt;br /&gt;um conforto algum tanto apreensivo&lt;br /&gt;coisas que desde a infância a construíam&lt;br /&gt;Mudo de opinião continuamente&lt;br /&gt;espero o teu regresso pela tarde&lt;br /&gt;e cuidadosamente velo a minha cólera&lt;br /&gt;A vida é para mim pesar de pálpebras&lt;br /&gt;leitura de discursos no outono&lt;br /&gt;na casa abandonada e submetida à chuva&lt;br /&gt;Regresso afinal aos próprios hábitos&lt;br /&gt;sorrisos de mulheres sobre a areia&lt;br /&gt;sou fiel à tristeza e pouco mais&lt;br /&gt;e meto então um lenço num dos bolsos&lt;br /&gt;que cheira ao perfume dos pinheiros&lt;br /&gt;Ave de alarme sou deixem-me só&lt;br /&gt;sou um contemporâneo assisto a tudo&lt;br /&gt;os sinos vesperais nos dias de verão&lt;br /&gt;o cão que passa numa encruzilhada&lt;br /&gt;um cântaro que racha inexplicavelmente&lt;br /&gt;confundido no hálito do mar&lt;br /&gt;a minha saudação aos infantes do medo&lt;br /&gt;crianças que iniciam o andar&lt;br /&gt;Espero por alguém espero pelo sol&lt;br /&gt;pla doçura estival da laranjeira&lt;br /&gt;ando pelos caminhos muito tempo&lt;br /&gt;e passo pelas portas devassadas pelos ventos&lt;br /&gt;em cujos gonzos sopram agonias&lt;br /&gt;E espero de novo a floração da primavera&lt;br /&gt;Não quero nada quero estar presente sobre&lt;br /&gt;as dunas do começo dos pinhais&lt;br /&gt;nesse mundo de medos e animais&lt;br /&gt;onde abri os meus olhos para a luz de agora&lt;br /&gt;E perco todo eu em contriçães&lt;br /&gt;ó terra branca e carnal e triste&lt;br /&gt;as minhas madrugadas do sargaço&lt;br /&gt;abertas nos bocejos da neblina&lt;br /&gt;quando o tempo é suave e chega em dunas&lt;br /&gt;à sensibilidade das narinas&lt;br /&gt;nas horas generosas da maré&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ruy Belo&lt;br /&gt;Despeço-me da Terra da Alegria&lt;br /&gt;Todos os Poemas&lt;br /&gt;Assírio &amp; Alvim&lt;br /&gt;2000&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-2320779920817930709?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/2320779920817930709/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=2320779920817930709' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2320779920817930709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/2320779920817930709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/ruy-belo_4832.html' title='Ruy Belo'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-89088572285352632</id><published>2007-03-28T18:09:00.000+01:00</published><updated>2007-03-28T18:10:52.711+01:00</updated><title type='text'>Eduardo Batarda</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqheXfC0eI/AAAAAAAAACQ/WtliKICs9_Y/s1600-h/batarda.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqheXfC0eI/AAAAAAAAACQ/WtliKICs9_Y/s320/batarda.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5047023875494433250" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-89088572285352632?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/89088572285352632/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=89088572285352632' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/89088572285352632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/89088572285352632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/eduardo-batarda_2865.html' title='Eduardo Batarda'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqheXfC0eI/AAAAAAAAACQ/WtliKICs9_Y/s72-c/batarda.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7681434874329452823</id><published>2007-03-28T18:06:00.000+01:00</published><updated>2007-03-28T18:07:13.090+01:00</updated><title type='text'>Ruy Belo</title><content type='html'>&lt;strong&gt;O Jogo do Chinquilho&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Renasce neste largo a minha infância&lt;br /&gt;a minha vida tem aqui nova nascente&lt;br /&gt;e jorra de repente com o ímpeto do início&lt;br /&gt;O tempo não passou ou só a consciência&lt;br /&gt;que provisoriamente sinto de voltar alguns anos atrás&lt;br /&gt;a sensação que sei de reflectir sobre esse tempo&lt;br /&gt;de ser um espectador de sucessivos sucedidos dias&lt;br /&gt;de não viver apenas não viver sem sequer saber que vivo&lt;br /&gt;num espaço demarcado onde as coisas e os homens&lt;br /&gt;eram tanto que eram simplesmente&lt;br /&gt;só essa consciência e sensação me fazem suspeitar&lt;br /&gt;de que passou o tempo que nunca passou&lt;br /&gt;O adro o fim da tarde o jogo do chinquilho&lt;br /&gt;o ruído das malhas os paulitos&lt;br /&gt;o sol poente sobre si redondo como simples&lt;br /&gt;malha atirada por alguém pelo espaço do dia&lt;br /&gt;e prestes a cair no mar como nas tábuas&lt;br /&gt;o gesto perdulário e impensado de jogar&lt;br /&gt;a malha como quem num gesto joga a vida&lt;br /&gt;as silhuetas hirtas dos que assistem&lt;br /&gt;de boné ou barrete na cabeça e mãos nos bolsos&lt;br /&gt;tudo se passa aqui ali há trinta e cinco anos&lt;br /&gt;como se aqui ninguém houvesse envelhecido&lt;br /&gt;nem sofrido ou morrido ou suportado&lt;br /&gt;toda a imensa fome requerida para produzir um rico&lt;br /&gt;como se aqui ninguém tivesse demandado&lt;br /&gt;longe de aqui o seu país noutros países&lt;br /&gt;Tudo é o mesmo adro a mesma tarde o mesmo jogo&lt;br /&gt;Até este café onde sentado olho e penso por olhar&lt;br /&gt;é afinal o mesmo onde bebi a meias com meu pai&lt;br /&gt;a primeira cerveja uma cerveja vinda&lt;br /&gt;através do calor do dia de verão&lt;br /&gt;nesse cesto de vime nesse poço mergulhado&lt;br /&gt;É o mesmo o sabor que sempre sinto nesta boca&lt;br /&gt;há muitos anos já mordendo o vinho o pão a vida&lt;br /&gt;o sabor das mulheres das raparigas&lt;br /&gt;inacessíveis sempre como um absoluto&lt;br /&gt;sempre impossível tido no entanto por possível&lt;br /&gt;o sabor da derrota ou o sabor da terra&lt;br /&gt;sensível dia a dia nos meus dedos&lt;br /&gt;e um dia susceptível de me encher a boca para sempre&lt;br /&gt;Envelheci eu sei e só ganhei&lt;br /&gt;o que perdi. Sou de uma adulta idade&lt;br /&gt;E entretanto tudo a noite rodeou e o jogo acabou&lt;br /&gt;e pelo céu do tempo houve um homem que passou&lt;br /&gt;ou uma certa malha arremessada por acaso à vida&lt;br /&gt;e viva na precária trajectória antes de caída.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ruy Belo, Transporte no Tempo, Editorial Presença&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7681434874329452823?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7681434874329452823/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7681434874329452823' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7681434874329452823'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7681434874329452823'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/ruy-belo_6664.html' title='Ruy Belo'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-3997195392088689653</id><published>2007-03-28T18:00:00.000+01:00</published><updated>2007-03-28T18:01:56.581+01:00</updated><title type='text'>Eduardo Batarda</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqfcHfC0cI/AAAAAAAAAB8/hE2Cx8MHqdw/s1600-h/e60f21bb-4d4a-4561-a26c-f26c24632005.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqfcHfC0cI/AAAAAAAAAB8/hE2Cx8MHqdw/s320/e60f21bb-4d4a-4561-a26c-f26c24632005.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5047021637816472002" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-3997195392088689653?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/3997195392088689653/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=3997195392088689653' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3997195392088689653'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3997195392088689653'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/eduardo-batarda.html' title='Eduardo Batarda'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqfcHfC0cI/AAAAAAAAAB8/hE2Cx8MHqdw/s72-c/e60f21bb-4d4a-4561-a26c-f26c24632005.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-942818946410172939</id><published>2007-03-28T17:58:00.000+01:00</published><updated>2007-03-28T18:00:18.911+01:00</updated><title type='text'>Ruy Belo</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Como quem escreve com sentimentos &lt;/strong&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Estou sujeito ao tempo sou este momento&lt;br /&gt;perguntam-me quem fui e permaneço mudo&lt;br /&gt;o tempo poisa-me nos ombros em relento&lt;br /&gt;partiu no vento essa mulher e perdi tudo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não virá ninguém por muito que vier&lt;br /&gt;em vão esperei a rosa da minha roseira&lt;br /&gt;quando um pássaro sai dos olhos da mulher&lt;br /&gt;é porque ela é de longe e não da nossa beira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resta-me um sonho desconexo e desconforme&lt;br /&gt;Na haste da camélia que o vento quebrou&lt;br /&gt;jamais a vida branca como ela dorme&lt;br /&gt;Eu era essa camélia e nunca mais o sou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A minha vida é hoje um sítio de silêncio&lt;br /&gt;a própria dor se estreme é dor emudecida&lt;br /&gt;que não me traga cá notícias nenhum núncio&lt;br /&gt;porque o silêncio é o sinónimo da vida&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo para além dessa mulher sobrava&lt;br /&gt;tudo vida vulgar tumultuária e cega&lt;br /&gt;o brilho do olhar equilibrava a chuva &lt;br /&gt;nas suas costas hoje toda a luz se apaga&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mulher que um golpe de ar me pôde arrebatar.&lt;br /&gt;enfim não existia ou só ela existia&lt;br /&gt;Asas que ela tivesse deixou-as queimar &lt;br /&gt;e tê-la-á levado estranha ventania &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daqueles traços fisionómicos de pedra &lt;br /&gt;não quero já ouvir a voz que às vezes vem&lt;br /&gt;na calma destacada por um cão que ladra&lt;br /&gt;Não há ninguém perto de mim sinto-me bem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada casa que roço é escura como um poço&lt;br /&gt;se sou alguma coisa sou-o sem saber&lt;br /&gt;sossego solitário sem mistério isso&lt;br /&gt;talvez tivesse sido o que sempre quis ser&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As flores vinham nela e era primavera&lt;br /&gt;mas tanto a nomeei e tanto repeti&lt;br /&gt;erros numa estratégia imprópria para ela&lt;br /&gt;tamanho amor expus que cedo a consumi&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite quando ao fim descer decerto há-de&lt;br /&gt;ser certa solução. Foi há muito a infância&lt;br /&gt;Ao tempo o que tu tens tu bem o sabes cede&lt;br /&gt;estendo as mãos talvez te fique a inocência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida é uma coisa a que me habituei&lt;br /&gt;adeus susto e absurdo e sobressalto e espanto&lt;br /&gt;A infância é uma insignificância eu sei&lt;br /&gt;e apenas por a ter perdido a amamos tanto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou sozinho e então converso com a noite&lt;br /&gt;das palavras que nos subjugam nos submetem&lt;br /&gt;As coisas passam e em vez delas é aceite&lt;br /&gt;o nosso sistema de signos onde as metem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta minha existência assim crepuscular&lt;br /&gt;devida àquela que é rastos destroços restos&lt;br /&gt;acusa hoje alguma intriga consular&lt;br /&gt;de quem não tem cabeça a comandar os gestos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi uma rosa rubra a autora desta obra&lt;br /&gt;aberta e arrogante grácil flor do instante&lt;br /&gt;que triunfante não há coisa que não abra&lt;br /&gt;para ferir quem a viu e morrer de repente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E noite sou e sonho e dor e desespero&lt;br /&gt;mero ser sórdido e ardido e encardido&lt;br /&gt;mas já não tarda a abrir-se na manhã que espero&lt;br /&gt;um arco com vitrais aos vendavais vedado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E embora a minha fome tenha o nome dela&lt;br /&gt;e da água bebida na face passada&lt;br /&gt;não peço nada à vida que a vida era ela&lt;br /&gt;e que sei eu da vida sei menos que nada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ruy Belo&lt;br /&gt;Despeço-me da Terra da Alegria&lt;br /&gt;Todos os Poemas&lt;br /&gt;Assírio &amp; Alvim&lt;br /&gt;2000&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-942818946410172939?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/942818946410172939/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=942818946410172939' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/942818946410172939'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/942818946410172939'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/ruy-belo_28.html' title='Ruy Belo'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-4306616128155481036</id><published>2007-03-28T17:34:00.000+01:00</published><updated>2007-03-28T17:51:31.976+01:00</updated><title type='text'>Eduardo Batarda</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqZQnfC0bI/AAAAAAAAAB0/eUpd37jZmNo/s1600-h/MF09pint_2.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqZQnfC0bI/AAAAAAAAAB0/eUpd37jZmNo/s320/MF09pint_2.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5047014843178209714" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-4306616128155481036?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/4306616128155481036/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=4306616128155481036' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4306616128155481036'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4306616128155481036'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/blog-post_3739.html' title='Eduardo Batarda'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RgqZQnfC0bI/AAAAAAAAAB0/eUpd37jZmNo/s72-c/MF09pint_2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-7247522691500818568</id><published>2007-03-23T23:36:00.000Z</published><updated>2007-03-23T23:39:02.726Z</updated><title type='text'>Ruy Belo</title><content type='html'>O portugal futuro é um país&lt;br /&gt;aonde o puro pássaro é possível&lt;br /&gt;e sobre o leito negro do asfalto da estrada&lt;br /&gt;as profundas crianças desenharão a giz&lt;br /&gt;esse peixe da infância que vem na enxurrada&lt;br /&gt;e me parece que se chama sável&lt;br /&gt;Mas desenhem elas o que desenharem&lt;br /&gt;é essa a forma do meu país&lt;br /&gt;e lhe chamem elas o que lhe chamarem&lt;br /&gt;portugal será e lá serei feliz&lt;br /&gt;Poderá ser pequeno como este&lt;br /&gt;ter a oeste o mar e a espanha a leste&lt;br /&gt;tudo nele será novo desde os ramos à raiz&lt;br /&gt;À sombra dos plátanos as crianças dançarão&lt;br /&gt;e na avenida que houver à beira-mar&lt;br /&gt;pode o tempo mudar será verão&lt;br /&gt;Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz&lt;br /&gt;mas isso era o passado e podia ser duro&lt;br /&gt;edificar sobre ele o portugal futuro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Portugal Futuro", Palavra[s] de Lugar, in Homem de Palavra[s]&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-7247522691500818568?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/7247522691500818568/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=7247522691500818568' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7247522691500818568'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/7247522691500818568'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/ruy-belo.html' title='Ruy Belo'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-4940322010301952124</id><published>2007-03-14T19:02:00.000Z</published><updated>2007-03-14T19:03:44.277Z</updated><title type='text'>Candido Portinari</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RfhG9wZqoDI/AAAAAAAAABE/y8PMWFni3dg/s1600-h/balaiada_grande.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RfhG9wZqoDI/AAAAAAAAABE/y8PMWFni3dg/s320/balaiada_grande.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5041857809619787826" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-4940322010301952124?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/4940322010301952124/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=4940322010301952124' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4940322010301952124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/4940322010301952124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/candido-portinari.html' title='Candido Portinari'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RfhG9wZqoDI/AAAAAAAAABE/y8PMWFni3dg/s72-c/balaiada_grande.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-3151388929940573077</id><published>2007-03-14T19:00:00.000Z</published><updated>2007-03-14T19:01:28.483Z</updated><title type='text'>Adélia Prado - Casamento</title><content type='html'>Há mulheres que dizem:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu marido, se quiser pescar, pesque,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas que limpe os peixes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de vez em quando os cotovelos se esbarram, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele fala coisas como "este foi difícil"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"prateou no ar dando rabanadas"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e faz o gesto com a mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio de quando nos vimos a primeira vez&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;atravessa a cozinha como um rio profundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por fim, os peixes na travessa, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vamos dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisas prateadas espocam:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;somos noivo e noiva.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-3151388929940573077?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/3151388929940573077/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=3151388929940573077' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3151388929940573077'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/3151388929940573077'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/adlia-prado-casamento.html' title='Adélia Prado - Casamento'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-9088496047619973492</id><published>2007-03-14T18:53:00.000Z</published><updated>2007-03-14T18:58:32.296Z</updated><title type='text'>Adélia Prado</title><content type='html'>Com licença poética &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando nasci um anjo esbelto, &lt;br /&gt;desses que tocam trombeta, anunciou: &lt;br /&gt;vai carregar bandeira. &lt;br /&gt;Cargo muito pesado pra mulher,  &lt;br /&gt;esta espécie ainda envergonhada. &lt;br /&gt;Aceito os subterfúgios que me cabem, &lt;br /&gt;sem precisar mentir.  &lt;br /&gt;Não sou tão feia que não possa casar,  &lt;br /&gt;acho o Rio de Janeiro uma beleza e  &lt;br /&gt;ora sim, ora não, creio em parto sem dor. &lt;br /&gt;Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina. &lt;br /&gt;Inauguro linhagens, fundo reinos  &lt;br /&gt;– dor não é amargura. &lt;br /&gt;Minha tristeza não tem pedigree,  &lt;br /&gt;já minha vontade de alegria,  &lt;br /&gt;sua raiz vai ao meu mil avô. &lt;br /&gt;Vai ser coxo na vida é maldição pra homem. &lt;br /&gt;Mulher é desdobrável. Eu sou. &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Janela &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Janela, palavra linda. &lt;br /&gt;Janela é o bater das asas da borboleta amarela. &lt;br /&gt;Abre pra fora as duas folhas de madeira à-toa pintada,  &lt;br /&gt;janela jeca, de azul. &lt;br /&gt;Eu pulo você pra dentro e pra fora, monto a cavalo em você,  &lt;br /&gt;meu pé esbarra no chão. &lt;br /&gt;Janela sobre o mundo aberta, por onde vi  &lt;br /&gt;o casamento da Anita esperando neném, a mãe  &lt;br /&gt;do Pedro Cisterna urinando na chuva, por onde vi  &lt;br /&gt;meu bem chegar de bicicleta e dizer a meu pai: &lt;br /&gt;minhas intenções com sua filha são as melhores possíveis. &lt;br /&gt;Ô janela com tramela, brincadeira de ladrão,  &lt;br /&gt;clarabóia na minha alma,  &lt;br /&gt;olho no meu coração. &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Festa do corpo de Deus &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como um tumor maduro  &lt;br /&gt;a poesia pulsa dolorosa,  &lt;br /&gt;anunciando a paixão:  &lt;br /&gt;“Ó crux ave, spes única &lt;br /&gt;Ó passiones tempore”. &lt;br /&gt;Jesus tem um par de nádegas! &lt;br /&gt;Mais que Javé na montanha  &lt;br /&gt;esta revelação me prostra. &lt;br /&gt;Ó mistério, mistério, &lt;br /&gt;suspenso no madeiro &lt;br /&gt;o corpo humano de Deus. &lt;br /&gt;É próprio do sexo o ar  &lt;br /&gt;que nos faunos velhos surpreendo,  &lt;br /&gt;em crianças supostamente pervertidas  &lt;br /&gt;e a que chamam dissoluto. &lt;br /&gt;Nisto consiste o crime,  &lt;br /&gt;em fotografar uma mulher gozando  &lt;br /&gt;e dizer: eis a face do pecado. &lt;br /&gt;Por séculos e séculos  &lt;br /&gt;os demônios porfiaram  &lt;br /&gt;em nos cegar com este embuste. &lt;br /&gt;E teu corpo na cruz, suspenso. &lt;br /&gt;E teu corpo na cruz, sem panos:  &lt;br /&gt;olha para mim. &lt;br /&gt;Eu te adoro, ó salvador meu  &lt;br /&gt;que apaixonadamente me revelas  &lt;br /&gt;a inocência da carne. &lt;br /&gt;Expondo-te como um fruto  &lt;br /&gt;nesta arvore de execração  &lt;br /&gt;o que dizer é amor,  &lt;br /&gt;amor do corpo, amor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-9088496047619973492?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='related' href='http://virtualbooks.terra.com.br/padregabriel/adeliaprado/links_adelia.htm' title='Adélia Prado'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/9088496047619973492/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=9088496047619973492' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/9088496047619973492'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/9088496047619973492'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/adlia-prado_14.html' title='Adélia Prado'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-265767665902218641</id><published>2007-03-14T17:05:00.000Z</published><updated>2007-03-14T17:07:10.985Z</updated><title type='text'>Candido Portinari</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RfgrXwZqoCI/AAAAAAAAAA8/xnhbYfk5mcw/s1600-h/composition.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RfgrXwZqoCI/AAAAAAAAAA8/xnhbYfk5mcw/s320/composition.jpg" border="0" alt=""id="BLOGGER_PHOTO_ID_5041827469970808866" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-265767665902218641?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/265767665902218641/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=265767665902218641' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/265767665902218641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/265767665902218641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/blog-post.html' title='Candido Portinari'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/RfgrXwZqoCI/AAAAAAAAAA8/xnhbYfk5mcw/s72-c/composition.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-569829770991130657</id><published>2007-03-14T16:57:00.000Z</published><updated>2007-03-14T17:02:48.140Z</updated><title type='text'>Adélia Prado</title><content type='html'>Inspiração Divina e Inteligência Humana na Obra de Adélia Prado - um estudo sobre sua obra recente(1)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cecília Canalle&lt;br /&gt;Mestre em Educação - FEUSP&lt;br /&gt;canalle@uol.com.br&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;1. Vida como vocação divina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Teodoro falou uma coisa alinhada de perfeita:&lt;br /&gt;'a vocação é um afeto'. "&lt;br /&gt;(Manuscritos de Felipa, p.104.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muitos escritores apresentam fases. Fases temáticas, fases relativas à forma, fase relativas à época. Adélia Prado, interessantemente, parece não tê-las. Sua obra é una. Sabe a que vem, em que reside sua qualidade e qual seu tema. Desde o primeiro livro, Adélia tem assinatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A um leitor ou crítico desatento, surgiriam frases indicando uma possível repetição. Ledo engano. Há que se discernir entre o que se apresenta em formatos estapafúrdios cheirando a plástico de cores inesperadas camuflando um conteúdo de um eu diluído, inconsistente e os temas sempre fincados nas circunstâncias cotidianas perspassados por uma ordo(2) permanente. Permanente e, esperamos, imutável uma vez que fundamento e consistência de seu trabalho ede sua experiência: “O mundo está certo! Graças a Deus dá pra continuar.”(3)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho está relacionado a inconsistência. O novo à revelação permanente da Verdade. Essa revelação, em Adélia Prado, se dá sempre através daquilo que ela mesmo define como sendo a única matéria da poesia: "essa vidinha besta"(4). É com ela e através dela – sempre e, nesse sentido sim, enquanto método, repetitivamente que a escritora fará metafísica. O pesquisador Gabriel Perissé define o artista como um combinador. “A arte de combinar o céu e o inferno e de fazer que vejamos entre eles um vínculo superior, inteligente – visão que nos torna lúcidos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua escrita é caracterizada pelo fluxo da consciência, unido a uma espécie de medo de chegar muito perto daquilo que o momento poético vai revelar quase à sua revelia. Quase porque o momento poético é dado divinamente como ela afirma, mas não se manifesta sem sua anuência e estilo próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Direitos humanos&lt;br /&gt;Sei que Deus mora em mim&lt;br /&gt;como sua melhor casa.&lt;br /&gt;sou sua paisagem,&lt;br /&gt;sua retorta alquímica&lt;br /&gt;e para sua alegria&lt;br /&gt;seus dois olhos.&lt;br /&gt;Mas esta letra é minha.&lt;br /&gt;(Oráculos de Maio, p.73.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, cinco anos sem publicar e já tendo se distanciado de seu público outras vezes(5), Adélia Prado faz confirmar aquilo que sempre declara: “Artista nenhum gera sua própria luz.”(6) , mas esse Dom é perspassado pela sua observação humana única e próprio daquele ser. A arte como revelaçao divina não é psicografia, mas é carne do poeta humano transpassada pelo chamado divino: “Qualquer língua ao final é Deus falando, por isso nos escapa tanto, só se mostra ao desfocado olhar da poesia, à sua densa névoa, quando tudo suspende-se ao juízo e apenas cintila, em vapores d’água, orvalho, vultos movendo-se em neblina. Você pressente e teme porque a beleza é viva e te olha. Chama pelo nome ao que a procura.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A beleza é uma das faces de Deus que chamará o homem para que o revele. Rodin esclarece que “não há , na realidade, nem estilo belo, nem desenho belo, nem cor bela. Existe apenas uma única beleza, a beleza da verdade que se revela. Quando uma verdade, uma idéia profunda, ou um sentimento forte explode numa obra literária ou artística, é óbvio que o estilo, a cor e o desenho são excelentes. Mas eles só possuem essa qualidade pelo reflexo da verdade."(7)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mitigação da pena&lt;br /&gt;O céu estrelado&lt;br /&gt;vale a dor do mundo.&lt;br /&gt;(Oráculos..., p.119)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada escapa à concepção de arte como vocação. Ritmo e a precisão vocabular: cada palavra surge precisamente posta naquele desejado lugar. Algo de fazer inveja aos parnasianos, “poetas cerebrais” que ela mesma ironiza no poema "A formalística" e reafirma nos de Oráculos de Maio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Salve Rainha O intenso brilho &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;(..) isto é um poema – tem ritmo, ...quero ouvir tua alma, &lt;br /&gt;obedece à ordem mais alta a que mora na garganta &lt;br /&gt;e parece me ignorar.  como em túmulos &lt;br /&gt;(Oráculos..., p.17) esperando a hora da ressurreição,... &lt;br /&gt; (Oráculos..., p. 51) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A formalística&lt;br /&gt;O poeta cerebral tomou café sem açúcar&lt;br /&gt;e foi pro gabinete concentrar-se.&lt;br /&gt;Seu lápis é um bisturi&lt;br /&gt;que ele afia na pedra,&lt;br /&gt;na pedra calcinada das palavras,&lt;br /&gt;imagem que elegeu porque ama a dificuldade,&lt;br /&gt;o efeito respeitoso que produz&lt;br /&gt;seu trato com o dicionário. (...)&lt;br /&gt;(Poesia Reunida, p.376)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, sendo graça e dom, o cumprimento da vocação, o reconhecimento e a resposta a um chamado contínuo são muito exigentes, principalmente, porque a alma parece tender à distração.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O poeta ficou cansado&lt;br /&gt;Pois não quero mais ser Teu arauto.&lt;br /&gt;Já que todos têm voz,&lt;br /&gt;por que só eu devo tomar navios&lt;br /&gt;de rota que não escolhi?&lt;br /&gt;Por que não gritas, Tu mesmo,&lt;br /&gt;a miraculosa trama dos teares,&lt;br /&gt;já que Tua voz reboa&lt;br /&gt;nos quatro cantos do mundo?&lt;br /&gt;Tudo progrediu na terra&lt;br /&gt;e insistes em caixeiros-viajantes&lt;br /&gt;de porta em porta, a cavalo!&lt;br /&gt;(...)&lt;br /&gt;Ó Deus,&lt;br /&gt;me deixa trabalhar na cozinha, (...)&lt;br /&gt;(Oráculos..., p.13.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Mirandum e theoria: o olhar admirado que não se impõe sobre o objeto&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você da janela contempla, contempla, porque é um não-ver com os olhos,&lt;br /&gt;folhas brilhando coroadas de gotas...”&lt;br /&gt;(Manuscritos..., p.42.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adélia Prado é a escritora da observação. É um ser posto no mundo sentado à porta de seu quintal, sob aqueles degraus em que se costumam descascar e comer laranjas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desse posto de observação, olha atentamente para aquela parte do mundo que a circunstância da hora ilumina. E para nós, leitores, que só a lemos em seus claros momentos poéticos, afirmamos que Adélia sempre se maravilhará com o que vê: seja dor, seja alegria. Entendamos que a escritora mineira não é um estado poético permanente porque isso não seria humano. Mas aquilo que nós é dado ler, ou seja, a arte de que ela é instrumento, são flagrantes desse instante de lucidez denominado momento poético.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O adjetivo participial latino neutro mirandum significa admirável, aquilo, seja o lá que for, que suscita admiração. Mas esclarece o filosófo alemão Josef Pieper que tal admiraçao não é oriunda do estapafúrdio, mas de “perceber no comum e no diário aquilo que é incomum e não-diário”.(8)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adélia Prado traduz, perfeitamente, esse conceito milenar na maioria de seus poemas, recuperando, para o leitor, o bom assentado sobre a simplicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mater dolorosa&lt;br /&gt;(...) Uma vez fizemos piqueninque,&lt;br /&gt;ela fez bolas de carne&lt;br /&gt;pra gente comer com pão.&lt;br /&gt;Lembro a volta do rio&lt;br /&gt;e nós na areia.&lt;br /&gt;Era domingo,&lt;br /&gt;ela estava sem fadiga&lt;br /&gt;e me respondia com douçura.&lt;br /&gt;Se for só isso o céu,&lt;br /&gt;está perfeito.&lt;br /&gt;(Oráculos..., p.47)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É, também, Josef Pieper em seu livro Felicidade e Contemplação quem explica que o termo theoria significa “atividade intelectual puramente perceptiva, afastada de qualquer utilidade ‘desinteressada’entendendo com isto a exclusão de qualquer utilitarismo ou proveito.” E ainda “theoria e contemplatio tendem única e exclusivamene a que a realidade vista se torne clara e evidente, que se manifeste e se descubra; tendem à verdade, e nada mais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem observação, sem esse olhar livre e descompromissado, a theoria do antigos, o canal de comunicação entre a ordo imanente do objeto e o ser observado, se turva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Oficina   Na terra como no céus  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;O mundo é ininteligível, Nesta hora da tarde, &lt;br /&gt;mas é bom.  quando a casa repousa &lt;br /&gt;(Oráculos..., p.69.) a obra de minhas mãos &lt;br /&gt; é esta cozinha limpa. &lt;br /&gt; (Oráculos..., p.101.) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Circunstância: onde o humano e o transcendente se encontram&lt;br /&gt;“Tudo que existe conta.” (Manuscritos..., p.107.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;A circunstância&lt;br /&gt;As circunstâncias são fator essencial da vida, não um fator secundário. Se o transcendente se manifesta encarnadamente, como afirma a escritora: "a transcendência mora, pousa nas coisas... está pousada ou está encarnada nas coisas."(9) então a matéria-prima da arte, porque da vida, é o cotidiano na sua circunstância mais prosaica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Domus&lt;br /&gt;Com seus olhos estáticos na cumeeira&lt;br /&gt;a casa olha o homem.&lt;br /&gt;A intervalos&lt;br /&gt;lhe estremecem os ouvidos,&lt;br /&gt;de paredes sensíveis,&lt;br /&gt;discernentes:&lt;br /&gt;agora é amor,&lt;br /&gt;agora é injúria,&lt;br /&gt;punhos contra a parede,&lt;br /&gt;pânico.&lt;br /&gt;Comove Deus&lt;br /&gt;a casa que o homem faz para morar,&lt;br /&gt;Deus&lt;br /&gt;que também tem os olhos&lt;br /&gt;na cumeeira do mundo.&lt;br /&gt;Pede piedade a casa por seu dono&lt;br /&gt;e suas fantasias de felicidade.&lt;br /&gt;Sofre a que parece impassível.&lt;br /&gt;É viva a casa e fala.(Oráculos..., p.25.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O importante é ressaltar que observação e circunstância são dois alicerces da poética adeliana, seu material, seu tijolo. Sem elas, dificilmente, surgiria o momento poético uma vez que, como diz a própria escritora: “Eu vejo as coisas como manifestação – até uma cadeira de plástico - ela manifesta.”(10).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto a circunstância é o cruzamento do momento e do espaço precisos em que a vida acontece. A escritora se depara com a circunstância e a contempla. Essa experiência de estupor gera outra necessidade completamente humana: a busca das razões, ou seja, compreender aquilo que vê. A autora em questão reconhece aquilo que Agostinho afirmara há 1600 anos: “O tempo é um vestígio da eternidade.”(11) Esse vestígio é a força motriz de sua obra e, ousamos dizer, também de sua autora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adélia reconhe a eternidade à espreita dentro de qualquer aparências sua obra é a expressão de um conjunto enorme de cirucunstâncias que a convidam a reconhecer o seu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A busca de razões&lt;br /&gt;“Havia uma ordem no mundo,&lt;br /&gt;de onde vinha?”&lt;br /&gt;(Poesia Reunida, p.314)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Possivelmente, uma das características mais significativas e definidoras do homem esteja relacionada à contemplação como de busca de sentido. Platão chega a afirmar em Crátilo, ou "Sobre a justeza dos nomes", que “o nome anthropos significa que, ao contrário dos outros animais que não examinam o que vêem, nem o analisam, nem contemplam, o homem, ao mesmo tempo que vê - pois é isso, justamente, que quer dizer opôpe - contempla e analisa o que viu. Por isso, dentre todos os animais é o homem o único justamente denominado Anthropos, ou seja, anathrôn ha ópôpe, o que contempla o que vê”.(12)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo passo, portanto, da contemplação será o “analisar”, o reconhecer, ou seja, conhecer novamente, agora, extraindo do que vê algo que lhe está além. Adélia Prado reconhece a ratio e a ordo no mundo descritas por Tomás de Aquino. Ou seja, a inteligência criadora nas coisas. Dessa forma, necessariamente, o corpus adeliano afirma um mundo que não é caos, mas ordem e sentido, um mundo cujas coisas estão “marcadas por um caráter verbal, não sendo meras realidades ou significações privadas de sentido num espaço mudo” como atesta Romano Guardini.(13) Ao fazer a experiência de reconhecimento do sentido no mundo, o eu-lírico não suportará a aridez de afeto ao observador que é o mundo caos e contingência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No poema, "Estação de maio", a escritora retoma um de seus mais freqüentes temas: a “ausência de poesia” e a consequente súplica para que Deus lhe tire dessa aridez: não perceber a conexão entre realidade circundante e transcendência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paixão&lt;br /&gt;De vez em quando Deus me tira a poesia.&lt;br /&gt;Olho pedra, vejo pedra mesmo.&lt;br /&gt;O mundo, cheio de departamentos,não é a bola bonita caminhando&lt;br /&gt;solta no espaço.&lt;br /&gt;(Poesia Reunida, p.199.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ausência de poesia&lt;br /&gt;Aquele que me fez me tirou da abastança,&lt;br /&gt;Há quarenta dias me oprime do deserto. (...)&lt;br /&gt;Ó Deus de Bilac, Abrãao e Jacó,&lt;br /&gt;Esta hora cruel nào passa?&lt;br /&gt;Me tira desta areia, ó Espírito,&lt;br /&gt;Redime estas palavras do seu pó.&lt;br /&gt;(Poesia Reunida, p.189.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem um verso em dezembro&lt;br /&gt;Nem um verso em dezembro,&lt;br /&gt;Eu que para isso nasci e vim ao mundo. (...)&lt;br /&gt;(Poesia Reunida, p.157.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estação de maio&lt;br /&gt;A salvação opera nos abismos.&lt;br /&gt;Na estaçào indescritível,&lt;br /&gt;o gênio mau da noite me forçava&lt;br /&gt;com saudade e desgosto pelo mundo.&lt;br /&gt;A relva estremecia&lt;br /&gt;mas não era pra mim,&lt;br /&gt;nem os pássaros da tarde.&lt;br /&gt;Cães, crianças, ladridos,&lt;br /&gt;despossuíam-me.&lt;br /&gt;Então rezei: salva-me, Mãe de Deus,&lt;br /&gt;antes do tentador com seus enganos.&lt;br /&gt;A senhora está perdida?&lt;br /&gt;Disse o menino,&lt;br /&gt;é por aqui.&lt;br /&gt;Voltei-me&lt;br /&gt;e reconheci as pedras da manhã.&lt;br /&gt;(Oráculos..., p.127.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A dor que atinge o eu-lírico e o torna um suplicante por sentido advém de uma constatação: percebia algo que, ao perder, tornou tudo árido. Além dessa súplica, no reconhecimento da miserabilidade humana, esse conjunto de poemas provoca o leitor na busca das razões últimas daquilo que sua vida intercepta: o desiderium sciendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teodoro quis saber. Disse que não posso esquecer da revoada. Será que um dia saberemos a razã das coisas? Por que um bando de passarinhos resolve, sem ser por comida, defesa do ninho, ameaça extera, sobrevoar um lote vago que só tem capim alto e alicerce abandonado, produzindo felicidade em nós? (Manuscritos..., p.51.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bulha&lt;br /&gt;(...) Como é possível que a nós, mortais, se aumente o brilho nos olhos&lt;br /&gt;porque o vestido é azul e tem um laço?&lt;br /&gt;(Poesia Reunida, p.116.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui, estamos nos referindo ao conceito de quidditas. “A natureza da razão (que é a de compreender a existência), define o teólogo italiano Luigi Giussani, obriga por coerência, a razão mesma a admitir a existência de um incompreensível, isto é, a existência de Algo (de um quid) constitucionalmente além de toda a possibilidade de compreensão e de medida.”(14)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O eu-lírico adeliano afirmará peremptoriamente, a cada frase, diante de todo o tipo de desconcerto de mundo: sim, o mundo é ordem, é inteligência geradora contínua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se há ordem no mundo? &lt;br /&gt;“Que nada mude, Senhor”(15) &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;4. O tema da rotina: a expressão da ordem do mundo&lt;br /&gt;Mural&lt;br /&gt;Recolhe do ninho os ovos&lt;br /&gt;a mulher&lt;br /&gt;nem jovem nem velha,&lt;br /&gt;em estado de perfeito uso.&lt;br /&gt;Não vem do sol indeciso&lt;br /&gt;a claridade expandindo-se,&lt;br /&gt;é dela que nasce a luz&lt;br /&gt;de natureza velada,&lt;br /&gt;é seu próprio gosto&lt;br /&gt;em Ter uma família,&lt;br /&gt;amar a aprazível rotina.&lt;br /&gt;Ela nào sabe que sabe,&lt;br /&gt;a rotina perfeita é Dues:&lt;br /&gt;as galinhas porão seus ovos,&lt;br /&gt;ela porá a sua saia,&lt;br /&gt;a árvores a seu tempo&lt;br /&gt;dará suas flores rosadas.&lt;br /&gt;A mulher não sabe que reza:&lt;br /&gt;que nada mude, Senhor.&lt;br /&gt;(Oráculos..., p.39.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta escritora de versos aparentemente pacatos e piedosos estraçalha, com meia dúzia de versos, a sociedade moderna. Faz uso de certas palavras como se elas não fossem inimigas atrozes deste tempo. Observemos, por exemplo, “a rotina perfeita é Deus”. Adélia Prado coloca lado a lado: rotina, perfeita, Deus. Ora, execramos a rotina. Todas as propagandas e filmes são um convite incontrolável a que nossas vidas- sempre vistas como algo insosso - ganhem sabor pelo Hollywood de nossos cigarros e que, por fim, gozemos de nossa merecida liberdade seguindo o promissor horizonte da ponta de nosso próprio nariz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sociedade moderna identifica no cheiro do plástico a possibilidade de ser feliz novamente. Não encontrando sentido nas atividades simples e repetitivas do cotidiano, o homem - aquele ser da natureza que busca sentido permanentemente - vê na substituição dos elementos que já perderam seu fator de inusitado, de inesperado a possibilidade de sentir-se feliz novamente. Por isso a expressão “rotina perfeita” apresenta-se como um paradoxo, só quem tem a chave de seu sentido pode decifrá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em um mundo conturbado e tecnológico caracterizado pelo clamor por melhores condições de toda a espécie, o que faz com que o eu-lírico de Oráculos de Maio seja razoável ao afirmar: “que nada mude, Senhor.”? Estamos diante de mais um dos aparentes paradoxos adelianos, daquilo que define sua obra, seu fio condutor: o mundo é ordo, escondida, maquiada, misteriosa; mas ordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe uma ordem no mundo? Adélia Prado responderá em cada linha de toda sua obra: Sim, há ordem, há sentido, há procedência no mundo mesmo diante da dor. Aqui, está grande parte de sua força poética expressa com clareza constrangedora em Fibrilações: “Tanto faz funeral ou festim/tudo é desejo/ o que percute em mim”(16). O sentido não se origina da oscilação entre estabilidade e quebra de rotina, não se dá pela possibilidade de se ter um mundo pessoal organizado social e financeiramente com momentos de aventura rompendo o cotidiano. Para esta escritora de raízes filosóficas profundas, a felicidade tem sua existência independente de “condições climáticas” favoráveis. Ela reside em um mundo sustentado por um Deus criador que o sustenta a cada instante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso e portanto: “que nada mude, Senhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5. Dois exemplos paradigmáticos&lt;br /&gt;Pelicano&lt;br /&gt;Um dia vi um navio de perto.&lt;br /&gt;Por muito tempo olhei-o&lt;br /&gt;com a mesma gula sem pressa com que olho&lt;br /&gt;Jonathan:&lt;br /&gt;primeiro as unhas, os dedos, seus nós.&lt;br /&gt;Eu amava o navio.&lt;br /&gt;Oh! eu dizia. Ah, que coisa é um navio!&lt;br /&gt;Ele balançava de leve&lt;br /&gt;como os sedutores meneiam.&lt;br /&gt;À volta de mim busquei pessoas:&lt;br /&gt;olha, olha o navio&lt;br /&gt;e dispus-me a falar do que não sabia&lt;br /&gt;para que enfim tocasse&lt;br /&gt;no onde o que não tem pés&lt;br /&gt;caminha sobre a massa das águas.&lt;br /&gt;Uma noite dessas, antes de me deitar&lt;br /&gt;vi - como vi o navio - um sentimento.&lt;br /&gt;Travada de interjeições, mutismos,&lt;br /&gt;vocativos supremos balbuciei:&lt;br /&gt;Ó Tu! e Ó Vós!&lt;br /&gt;- a garganta doendo por chorar.&lt;br /&gt;Me ocorreu que na escuridão da noite&lt;br /&gt;eu estava poetizada,&lt;br /&gt;um desejo supremo me queria&lt;br /&gt;Ó Misericórdia, eu disse&lt;br /&gt;e pus minha boca no jorro daquele peito.&lt;br /&gt;Ó amor, e me deixei afagar,&lt;br /&gt;a visão esmaecendo-se,&lt;br /&gt;lúcida, ilógica,&lt;br /&gt;verdadeira como um navio.&lt;br /&gt;(Poesia Reunida, p.359)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neopelicano&lt;br /&gt;Um dia,&lt;br /&gt;como vira um navio&lt;br /&gt;pra nunca mais esquecê-lo,&lt;br /&gt;vi um leão de perto.&lt;br /&gt;Repousava,&lt;br /&gt;a anima bruta indivídua.&lt;br /&gt;O cheiro forte, não doce,&lt;br /&gt;cheiro de sangue a vinagre.&lt;br /&gt;Exultava, pois não tinha palavras&lt;br /&gt;e não tê-las prolongava-me o gozo:&lt;br /&gt;é um leão!&lt;br /&gt;Só um deus é assim, pensei.&lt;br /&gt;Sobrepunha-se a ele&lt;br /&gt;um outro animal&lt;br /&gt;radiando na aura&lt;br /&gt;de sua cor maturada.&lt;br /&gt;Tem piedade de mim, rezei-lhe&lt;br /&gt;premida de gratidão&lt;br /&gt;por ser de novo pequena.&lt;br /&gt;Durou um minuto a sobre-humana fé.&lt;br /&gt;Falo com tremor:&lt;br /&gt;eu não vi o leão,&lt;br /&gt;eu vi o Senhor!&lt;br /&gt;(Oráculos..., p.139.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algumas estruturas são constantes em Adélia Prado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A associação de diversos aspectos aparentemente díspares, parecendo uma sucessão de idéias jogadas; &lt;br /&gt;A freqüente divisão do poema em duas partes e &lt;br /&gt;O salto final no qual o transcendente explode, se revela e se oferece dentro do “varejão dos dias”. &lt;br /&gt;"Pelicano" e "Neopelicano" expressam de maneira exemplar a obra adeliana: forma e conteúdo amalgamados. Não somente porque os aspectos mais característicos de seu estilo aí se concentram, mas também porque a sua maneira de observar o mundo e de juntar as pedras desse quebra-cabeças decodificando-lhe o signficado aé se apresentam. Nesses poemas, de modo particular, o transcendente toca a realidade e – sempre através dela , com ela, - grita a sua existência. A consistência, aquilo que a faz existir continuamente, que permite que a realidade continue existindo, seja produzida é identificada e revelada nesses textos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bom disso é que não se tratam de duas realidades díspares: navio e Deus, leão e o Senhor. Navio e leão, como já nos esclarecia Santo Tomás há sete séculos, participam do Criador(17). Não são o fogo, mas transmitem o seu calor por isso é possível identificar a ordem no mundo, por isso é possível depreender-lhe o sentido, por isso é possível cumprir uma vocação e experimentar a intensidade da vida na rotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao término da leitura de Oráculos de maio e Manuscritos de Felipa constata-se que a escritora mineira não perdeu o eixo de onde brota a força dessa obra. E mais que seu desejo fez-se livro:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhava escrever um dia um livro maravilhoso, um livro como os Salmos,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;os escritos de Qûmram, uma coisa que lida provocasse esta exclamação:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe Deus! (Cacos para um Vitral, p.75)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;--------------------------------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(1)Manuscritos de Felipa e Oráculos de Maio, São Paulo, Siciliano, 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(2) Abordaremos esse tema no item "Rotina: a ordem do mundo".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(3) Encontro com escritores: “Minas além das Gerais, Rio de Janeiro,”03 de junho de 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(4) Entrevista concedida por Adélia Prado ao Dr Luiz Jean Lauand em 05/11/93, São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(5) Entre Componentes da Banda e O homem da Mão Seca passaram-se três anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(6) Cacos para um Vitral, p. 123.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(7) RODIN, Auguste. A arte. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1990, p. 73., cit. por Gabriel Perissé. "Beleza", Mirandum 5 neste mesmo site.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(8) Que é filosofar? Que é acadêmico?, São Paulo, EPU, p. 27.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(9) Entrevista concedida por Adélia Prado ao Dr Luiz Jean Lauand em 05/11/93, São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(10) Entrevista concedida por Adélia Prado ao Dr Luiz Jean Lauand em 05/11/93, São Paulo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(11) De Genesi,lib. Imperf. XII, 38&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(12) In CANALLE, Cecília. Fundamentos Filsóficos da Poética de Adélia Prado, p.59.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(13) In CANALLE, Cecília. Fundamentos Filsóficos da Poética de Adélia Prado, p.59.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(14) O Senso Religioso, p.169.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(15) Oráculos..., p.39.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(16) Poesia Reunida, p.310.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(17) “Assim como o bem criado é certa semelhança e participação do Bem Incriado, assim também a obtenção de qualquer bem criado é certa semelhança e participação da felicidade definitiva.” SÃO TOMáS DE AQUINO cit. por LAUAND. In. Linguagem e Ética, p.15.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-569829770991130657?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/569829770991130657/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=569829770991130657' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/569829770991130657'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/569829770991130657'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/03/adlia-prado.html' title='Adélia Prado'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-1083108245179335624</id><published>2007-02-14T10:05:00.000Z</published><updated>2007-02-14T10:07:09.672Z</updated><title type='text'>ANTÓNIO RAMOS ROSA</title><content type='html'>1924&lt;br /&gt;Nasceu em Faro. Esteve ligado às revistas Cadernos do Meio-Dia, Árvore e Cassiopeia. Tradutor, crítico literário, ensaísta e poeta. Além de uma grande depuração da palavra, reflecte sobre o fenómeno poético.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;   Na Igualdade da Torrente&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na igualdade da torrente, uma só árvore,&lt;br /&gt;palavras e pedras acolhendo&lt;br /&gt;uma cabeça ao ritmo das vagas,&lt;br /&gt;e uma sombra oval sobre as espáduas,&lt;br /&gt;respirando lentamente o ar redondo,&lt;br /&gt;os reflexos nos ramos, semelhanças&lt;br /&gt;de um sopro, os anéis do dia,&lt;br /&gt;sem fim nem centro a inacabada arca&lt;br /&gt;que sobre o mar, errante, é a permanência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordes&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-1083108245179335624?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/1083108245179335624/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=1083108245179335624' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1083108245179335624'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/1083108245179335624'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/02/antnio-ramos-rosa.html' title='ANTÓNIO RAMOS ROSA'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-253963933245319225</id><published>2007-01-25T10:10:00.000Z</published><updated>2007-01-25T10:18:15.782Z</updated><title type='text'>Adília Lopes - A Bela Acordada  &amp; Outros Poemas</title><content type='html'>METEOROLÒGICA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para o José Bernardino&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deus não me deu&lt;br /&gt;um namorado&lt;br /&gt;deu-me&lt;br /&gt;o martírio branco&lt;br /&gt;de não o ter&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vi namorados&lt;br /&gt;possíveis&lt;br /&gt;foram bois&lt;br /&gt;foram porcos&lt;br /&gt;e eu palácios&lt;br /&gt;e pérolas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me queres&lt;br /&gt;nunca me quiseste&lt;br /&gt;(porquê, meu Deus?)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vida&lt;br /&gt;é livro&lt;br /&gt;e o livro&lt;br /&gt;não é livre&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Choro&lt;br /&gt;chove&lt;br /&gt;mas isto é&lt;br /&gt;Verlaine&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou:&lt;br /&gt;um dia&lt;br /&gt;tão bonito&lt;br /&gt;e eu&lt;br /&gt;não fornico&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A solidão&lt;br /&gt;de Adão&lt;br /&gt;antes da criação&lt;br /&gt;de Eva&lt;br /&gt;devia ser&lt;br /&gt;terrível&lt;br /&gt;mas a minha&lt;br /&gt;é bem pior&lt;br /&gt;os homens&lt;br /&gt;que escreveram&lt;br /&gt;o Génesis&lt;br /&gt;não pensaram&lt;br /&gt;que Adão&lt;br /&gt;em vez de saudar&lt;br /&gt;Eva&lt;br /&gt;com um grito de júbilo&lt;br /&gt;a mandasse embora&lt;br /&gt;com sete pedras na mão&lt;br /&gt;mas eu acho&lt;br /&gt;que foi&lt;br /&gt;o que me aconteceu&lt;br /&gt;temendo isso&lt;br /&gt;Deus&lt;br /&gt;não me deu&lt;br /&gt;o papel de Eva&lt;br /&gt;nem o de Maria&lt;br /&gt;porque também&lt;br /&gt;S. José&lt;br /&gt;me tinha corrido&lt;br /&gt;a pontapé&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HANS MAGNUS ENZENBERGER&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hans Magnus Enzensberger&lt;br /&gt;na Casa Pessoa&lt;br /&gt;mostrou-se&lt;br /&gt;muito pessimista&lt;br /&gt;em relação&lt;br /&gt;ao mundo&lt;br /&gt;mas muito contente&lt;br /&gt;consigo mesmo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;BOCADOS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I&lt;br /&gt;Deus quer&lt;br /&gt;a mulher também&lt;br /&gt;Adão não&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero&lt;br /&gt;um homem&lt;br /&gt;um homem&lt;br /&gt;que goste de mim&lt;br /&gt;e de que eu goste&lt;br /&gt;(não quero&lt;br /&gt;um velho)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Versos rebuscados&lt;br /&gt;como rebuçados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;Beijo-te&lt;br /&gt;e vejo-te&lt;br /&gt;e no beijo&lt;br /&gt;estamos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atam-nos&lt;br /&gt;e matam-nos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;A metáfora&lt;br /&gt;é a errata&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;Com o amor&lt;br /&gt;recusado&lt;br /&gt;é preciso&lt;br /&gt;ter cuidado&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou a tua&lt;br /&gt;namorada&lt;br /&gt;não preciso&lt;br /&gt;de mais nada&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;V&lt;br /&gt;Rico entrar&lt;br /&gt;no Paraíso!&lt;br /&gt;diz o preto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MEMÓRIAS DAS INFÂNCIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gostávamos muito de doce de framboesa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e deram-nos um prato com mais doce de framboesa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do que era costume&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a nossa criada a nossa tia-avó no doce de framboesa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;para nosso bem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;porque estávamos doentes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;esconderam colheres do remédio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que sabia mal&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o doce de framboesa não sabia à mesma coisa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e tinha fiapos brancos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;isso aconteceu-nos uma vez e chegou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nunca mais demos pulos por ir haver&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;doce de framboesa à sobremesa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nunca mais demos pulos nenhuns&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não podemos dizer&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como o remédio da nossa infância sabia mal !&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como era doce o doce de framboesa da nossa infância !&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ao descobrir a mistura&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;do doce de framboesa com o remédio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ficámos calados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;depois ouvimos falar da entropia&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aprendemos que não se separa de graça&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o doce de framboesa do remédio misturados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é assim nos livros&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é assim nas infâncias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e os livros são como as infâncias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que são como as pombinhas da Catrina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma é minha&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;outra é tua&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;outra é de outra pessoa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;In – Adília Lopes –OBRA – O Decote da Dama de Espadas, pag. 107, Ed. Mariposa Azual, Lisboa 2001&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A BELA ACORDADA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia era bonita, as pessoas diziam-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu amo-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E iam com ela para a cama e para a mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não gosto de ti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher pediu a Deus:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Deus fê-la feia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mastigar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pescou o peixe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;morreu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;apaixonou-se pela mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Será uma sereia ? – perguntaram em coro as criadas ao&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;rei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tortas, uma mais curta do que a outra – respondeu o rei às&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;criadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o rei convidou a mulher para jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mulher quando as criadas se foram embora:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu amo-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Eu amo-te.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tapete de Arraiolos da casa de jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;In Adília Lopes – OBRA – A Bela Acordada, pag 300, Ed. Mariposa Azul, Lisboa&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17079625-253963933245319225?l=infinitomutante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://infinitomutante.blogspot.com/feeds/253963933245319225/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17079625&amp;postID=253963933245319225' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/253963933245319225'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17079625/posts/default/253963933245319225'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://infinitomutante.blogspot.com/2007/01/adlia-lopes-bela-acordada-outros-poemas.html' title='Adília Lopes - A Bela Acordada  &amp; Outros Poemas'/><author><name>Rui</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04590701317599053774</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_8KkFv5aIQvo/S29fdTIMMeI/AAAAAAAAAJg/kvA_OxX0Vq0/S220/2.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17079625.post-930339748010608932</id><published>2007-01-24T16:14:00.000Z</published><updated>2007-01-24T16:37:16.860Z</updated><title type='text'>ADÍLIA LOPES OBRA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;PARTE I&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;CAPÍTULO&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;I&lt;br /&gt;A Poesia, dizem, é o rebordo negativo da comunicação. A poesia de Adília Lopes é pelo menos mais complexa e mais simples do que isso. Talvez tenha conseguido tratar a poesia considerada linguagem restritíssima como informação ou publicidade universal. A última Adília escreve axiomas e legendas. Os conceitos submetem a informação poética à redução que economiza a Arte.(Gunvald Wahlöö)&lt;br /&gt;Se a maioria dos poetas em existência parece não gerar grandes incompatibilidades de juízo «estético» (alguns poderiam ser outros quaisquer), a poesia de Adília não emparelha facilmente com outras; mas também não diverge delas propriamente em questões de Arte. É-lhes indiferente.Numa poesia que se prezou de inovação, dir-se-ia que uma grande porção de poetas existe em regime de plebiscito que protege quer dos mestres quer da sua contestação — da «autodestruição» da arte —, enquanto Adília Lopes elimina mestres, «vanguarda» e plebiscito na «pessoa». (cf. Diogo, 1998: 78 e ss)Adília não conduz a poesia à qualidade, i. e., ao juízo de gosto universal, consensual ou plebiscitado (não me refiro ao gosto vulgar e comum em forma de multidão, mas ao dominante no campo literário dito autónomo, que é grosso modo bom gosto e classe média)1.&lt;br /&gt;1 «A alegre pequena equipa, na sua totalidade, volta portanto a interpretar em farsa a tragédia da matança das formas artísticas, explorando-a com uma parcimónia de gente com rendimentos a prazo.» (Internacional Situacionista, 1997: 122-3)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="Autoria"&gt;&lt;/a&gt;CAPÍTULO II&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;AUTORIA E AUTORIDADE&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;‘Adília Lopes’ é o que permite passar da «mente» ao modus vivendi».(Rita Minardi)&lt;br /&gt;Enquanto os nomes dos poetas se tornam citações cum auctoritate, o nom de plume ‘Adília Lopes’ é seguramente mais o da criada e menos o da autora. A insignificância do nome próprio pode também estender-se aos títulos de poemas, comprometendo do mesmo modo o autor e a dignidade dos autores.Um bom exemplo parece ser o que se passa com «Monumenta Henricina». Em O Clube da Poetisa Morta é porventura o único texto «poético», por lição de 70. Em Sete rios entre campos o enigma do seu sentido é elucidável de dois modos incongruentes. O esburgar do poema original limpa-o de implicações e ressonâncias de arte (existentes como tal porque signées Fernandes Jorge):&lt;br /&gt;Monumenta Henricina&lt;br /&gt;Tu tens o cargo de receberas coisas que são apartadaspor minha almapois a ti foi dada de sesmariacerta terra minhapara fazer em ela çumagralporque tu meu servidorés o meu contadordou-te pois o recebimentodos dez reaisque são para Ceutaassim tens tu o cargo do recebimentodo nosso tesouroem a dita cidadee seu termo(Clube 27)&lt;br /&gt;Americano gigolo? Monumenta Henricina?&lt;br /&gt;Toma os dez reaisque são para Ceutanão me quero esquecerde nadaatrás de mimem a dita cidadee seu termo(Sete rios 48)&lt;br /&gt;Banalidade de um contrato em torno de terra e dinheiros, tornada pompa por uma língua velha, velhos costumes, uma enunciação muito segura das posses e dona porventura da alma com que as tem. A suposta impermeabilidade poética ao contexto, que reconhece o seu igual num entorno morto e o adopta; permeabilidade do texto descontextualizado a todos os contextos, significada na possibilidade, que se oferece, de uma leitura «obscena» e, pelo cinema, muito moderna e leiga. Um poema como o primeiro — não me refiro a ele, mas ao «original» — reclama uma autoridade para a poesia que repete a definição da poesia (ou já da literatura) efectivamente existente e fundada em autoridade: linguagem diferente, discriminativa e de preferência vetusta, que está nas escolas como um análogo da nação anosa onde cabem as classes sem discriminação.Adília faz com a sua poesia o que faz com a poesia dos outros. Num certo sentido, ela é poesia de outros.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="Reino"&gt;&lt;/a&gt;CAPÍTULO III&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A NOSSA PRISÃO É UM REINO&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A lógica é a noiva; a «batata» e a «pessoa» seus solteiros.(Adinilson L. Martins)&lt;br /&gt;É nesta situação «impura» que Adília Lopes nos propõe, também ela, a sua Obra. Como quem coloca a sua Cruz na Rosa do Presente — e Adília assina cada vez mais de cruz —, permite-nos apreciar cerca de duas décadas de produção própria e pôr em perspectiva uma poesia contemporânea muito menos definível enquanto tal, e que, no entanto, em termos portugueses, foi constituindo maiorias ao centro, e às avessas de Álvaro de Campos: nenhum poema em linha recta, poeta heróico-elegíaco e supondo-se «dissidente», integração do «real» nas boas formas da linguagem e do sentimento, suplementação da metafísica, liturgia. Quem, se não Adília, foi capaz de começar um poema assim, e com palavras de outro: «Eu que já fui do pequeno almoço à loucura» (O Decote da Dama de Espadas 42)1?Num certo sentido, os poemas de Adília são completos. Não nascem como fragmentos para serem destacados, separados, circunscritos pelo que falta. Em geral, não comportam ainda nem objectos nem símbolos dados à contemplação estética. (cf. Silvestre, 1999) Alguma coisa lhes consente a concisão — o humor? —, enquanto outros, por contraste, demandam «sentido» e «sentimento» que antecipam a aprovação que o Poeta de Pondichéry busca coitado. Usam de uma linguagem que constrói, que se especializa, e que, por isso mesmo, e não exceptuando os poetas mais enxutos e que praticam a vigilância sobre a forma, não escapa ao juízo de prolixidade — uma vez que, face à profundidade do «objecto», a linguagem seria sempre redundante. Não há aqui um poeta-padre que dirigisse a Deus directamente, e só a Deus, o ofício da missa santa. A poesia de Adília não é vestalizada e desconhece os páramos da Musa. Nos poemas de Adília a linguagem não alcança um «objecto» e um «símbolo» através de alguma desadequação linguageira. Não parece nunca um artefacto auto-sustentado, parco em símbolos, e estes «correlatos objectivos», apontando oblíqua, paradoxal ou ironicamente para uma verdade essencial, sem estes recursos inapontável. A última Adília é como os balineses; não tem arte; faz tudo o melhor que sabe.Esta poesia indigna não tem a presença que «toda» a nossa poesia recente presume ter. O comentário ao Almoço do Trolha salta sobre o momento de graça que transcende a representação em presença; não lhe acha um espírito santo. O mesmo valeria para toda a obra que por sua conta apostasse nessa transcendência contra a representação (cf. o sublime à Rothko). Os comentários de «Adília» acrescentam à obra que comentam e reduzem uma «ideia exterior» que nega a transformação da suficiência formal em (boa) consciência. A este movimento não escapa ainda a anti-Arte. Leia-se em Irmã Barata, Irmã Batata: «Instalação de Christo: cobrir por completo o chão da praça de Tiananmen com ketchup. Ketchup é um molho chinês e uma palavra chinesa». (Irmã Barata 20) A arte enquanto pública e coerência local não alcança ser a realidade, porventura melhorando-a. Repare-se na natureza filológica do comentário, que mima o conceptual em forma de instrução (o infinitivo regente). Pedestre e patuda, a «filologia» demove as pretensões da «metafísica» ou da «teologia» em pontas estéticas. Nenhum sentimentalismo engordado pela indignação. Recusada, a arte não chega a serviço (ao) público, nem pelo consenso sentimental, nem pela heroicização admirável do Autor self-made self.&lt;br /&gt;1 O poema A Elisabeth foi-se embora é um dos poucos na poesia portuguesa à altura da brutalidade metafísica de coisas como as de Campos, e, entre todas elas, o poema sobre a dobrada à moda do Porto, servida fria pelos missionários da cozinha. Veja-se tudo o que Adília faz com o «túnel».&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="Ama"&gt;&lt;/a&gt;CAPÍTULO IV&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A AMA E AS FORMAS&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aqui está a beleza, aqui tu consomes.(Internacional Situacionista, 1997: 143)&lt;br /&gt;A forma de Adília não é de resto o «poema», mas o «livro». No «livro» os poemas são completos; não abrem a um ponto de fuga estético que é sempre um acordo com esse público que, mesmo restrito, dispõe dos temas grandes e dos temas maiores. (Kraus, 1998: 66) O «livro» — a ama e as formas — é uma «estrutura» de acolhimento em que a relação entre «sujeito» e «objecto» não se situa além da linguagem, e não é purificada por sentimentos transcendentais ou por formas vigiadas, equivalentes do conceito. A lógica é uma função do humor que não revoca, a forma é mistificada, a «pessoa» é datada, o sujeito cogital, restituído pelo poético, não se desprende da sensualidade, da animalidade, da infância, da experiência e do apetite1. No «livro», onde a lógica é mergulhada na língua como «lógica da batata», (Silvestre, 1999) tornam-se elásticas as quatro formas do princípio suficiente: a causa destaca-se do efeito, o fundamento da crença, a premissa da conclusão, o motivo da acção. Tudo isto que dotaria a obra de uma afinidade com o camp, (Diogo, 1998) na medida em que aí se dava figura a uma História emancipada de causas e visões do mundo, e por isso percebível esteticamente, a arbítrio2, acaba finalmente (i) num deixar do sentido ao «acaso», como quem se regesse pela «lógica da batata», ou como quem, em questões de sentido da vida, pelos dedos contasse («meu menino / seu vizinho / pai de todos / fura bolos / mata piolhos», Florbela Espanca espanca 30) e (ii) nos saltos da fé: «acção / não é / a vida / a vida é / a acção / de graças». (Florbela Espanca espanca 20-1)Quando o poema, porque cultura e melancolia (superioridade de professores que herdaram a acedia e um mundo com ela), supõe um «eu» muito puro e alheio à convenção social, um «eu» que estaria «lá» mas fora do foco do leigo presbita, o discurso de Adília no seu melhor mostra o «eu» como pedra de fecho da abóbada conceptual e brinca com o «eu».É certo que a interrupção do monólogo transcendental não se processava longe dos moldes do «moi haïssable», quer como o belo que foi «eu» — disso que encontra consenso e retribui aprovação —, quer como a «pessoa» pungentemente cómica e apanhável em faltas de gosto — reprovável e corcunda infinitamente susceptível, que é um corpo estranho nas rotinas do belo: «já fui bela uma vez agora sou eu» (O Decote da Dama de Espadas 43); «e o chantagista publicava um postal ilustrado / que eu escrevi a Diderot de Pondichéry» (O Poeta de Pondichéry 23). Como se pode ler na primeira obra de Adília:&lt;br /&gt;agora já nem consigodizer nada de mim para mimo de mim para mim acabounão há lugar para mimnum quadro de Rubens(Um Jogo Bastante Perigoso 23)&lt;br /&gt;Um quadro de Rubens é um mundo pleno, esteticamente justificado (um «monólogo transcendental»). Enquanto forma «eu» é uma ratio estética transposta como mundo para o mundo que a admira: poder, egoísmo, destreza de espírito. (cf. Diogo, id.: 85) A questão é muito precisamente estética, ou seja, da especialidade e sob a autoridade social de doutores esteticistas e cabeleireiros (todos nós):&lt;br /&gt;não posso passar sem a Elisabethporque é que a despediu senhora doutora?que mal me fazia a Elisabeth?eu só gosto que seja a Elisabetha lavar-me a cabeça(…)ah não haver facas que lhe cortem opescoço senhora doutora eu não voltoao seu antiséptico túneljá fui bela uma vez agora sou eunão quero ser barulhenta e sozinhaoutra vez no túnel o que fez à Elisabeth?a Elisabeth era a princesa das raposasporque me roubou a Elisabeth?a Elisabeth foi-se emboraé só o que tem para me dizer senhora doutoracom uma frase dessas na cabeçaeu não quero voltar à minha vida(O Decote da Dama de Espadas 43)&lt;br /&gt;Que corpo subjaz à maior parte do consenso poético contemporâneo — à sua violência simbólica? Que corpo corresponde à linguagem poética corrente? O corpo neutro, mas não obstante centrado, senhoril e com a autoridade advinda da inacção expectante de quem se apresenta modelo e mesura. É o corpo da auto-apresentação do autor, acarinhado pela «filosofia», e, sob o polido narcísico, muito redondo assaz.&lt;br /&gt;Body Art?&lt;br /&gt;Com os remédiosengordo 30 kgo carteiro pergunta-mepara quandoé o meninonos transportes públicosas pessoas levantam-separa me dar o lugarsento-me sempre&lt;br /&gt;Emagreço 21 kgas colegasda Faculdade de Letrasperguntam-me se é meninoou menina&lt;br /&gt;No metro um rapaze um velhodiscutemse eu estou grávidao rapaz quer-medar o lugar&lt;br /&gt;Detestoo sofrimento(Sete Rios 42-3)&lt;br /&gt;A poesia parece ter voltado a ser questão de alguns discursos que são afirmados através do «eu». Esse «eu» antecede «afirmações», esse «eu» equilibra o ovo afirmativo de «ideias» e «ideais» os mais «elevados» e convenientemente personalizados.O «eu» na obra de Adília parece antes subsumível no modus vivendi. Se o «eu» — incapaz de de ser reles e de praticar uma baixeza — é basicamente uma distância da «mente» em relação ao mau gosto e à inabilidade para o trágico, que é uma distância de «poesia», em Adília toda a poesia acaba a ser mais um discurso social, i.e, um forma de condicionamento empírico do «eu» e da «mente» e do «gosto». É o que se pode deduzir também da transformação da criatividade incondicionada (a «melancolia» sem objectos no mundo é uma sua figuração — que de resto calha bem às meias competências protegidas dos provincianos de umas galáxias apartadas) em cómico, jogo de palavras, dito de espírito e «boçalidade».Toda a obra de Adília se dirige contra a suficiência estética, resumível na forma «eu»; todo o cómico, todo o absurdo, toda a incongruência (e alguns traços inegavelmente «idiotas») se dirigem contra isso que na poesia, na arte e na vida é incondicional «publicidade em favor da existência». (Adorno, 1984: 435) Obras tão notáveis como O Poeta de Pondichéry — que é de uso resgatar da insignificância, por isso, é de suspeitar, que o «drama» é artístico e mesmo angústia da influência — e Maria Cristina Martins são os cumes de um «processo cómico feito ao cómico» e «ao humor satisfeito». (id.: ibid.) O que da obra mais ressalta é «a inanidade manifesta da pretensão da subjectividade a ser trágica». (id.: ibid.) Ou mesmo, porque o que está em pauta não é Beckett mas lirismo, heroicamente elegíaca. E não é irrelevante que a transformação da subjectividade em cómico de «pessoa» tenha como seu contexto a arte e a estética invadidas por «psicologias da vulgaridade». Que dizer a isto, muito já sem o álibi Adília Lopes: «Tenho uma doença mental, tenho uma doença de pele. A pele é exterior, o cérebro é interior. Tenho um eczema, tenho uma psicose. Às vezes penso que a pele é interior e que os meus miolos estão à mostra como a mioleira da vaca no balcão do talho». (Irmã Barata, Irmã Batata 23)?&lt;br /&gt;1 Partindo do princípio que os exemplos devem ser bons exemplifico com um poeta infinitamente superior ao comum (Carlos Poças Falcão) o desprendimento cogital alcançado via poesia, o monólogo transcendental, a ausência de «pessoa», a transcendência rothkiana de toda a representação em amigos que orbitam sobre «nuvens», eles mesmos «nuvens», assim tornadas homeomorfas do «lugar». Não tocando no sentido óbvio, que se quer sentido simples (as nuvens empanam a amizade), as «nuvens» dão o «lugar» e o «lugar» é o «sagrado». A amizade é apre(e)ndida através da vocação manifesta da arte modernista para o espaço, onde se guardaria do tempo e demais vicissitudes. Esta dicção simples e muito comunicativa apoia-se no poético de Helder usado com parcimónia e como sinais de esperanto e língua franca: «cintura magnética», «orbitação diurna».Transcreve-se:&lt;br /&gt;HINO (Falcão, 1999: 66)&lt;br /&gt;Dar espaço, ver ao longe as amizades a brilharestelarmente. Movem-se, enlaçam-se os seus ritmose em gravitação vão abrindo um firmamento.&lt;br /&gt;Dar espaço, para visitação e crescimento.Deixarmo-nos levar pela cintura magnéticaàs noites uns dos outros.&lt;br /&gt;É por contentamento que os sinais são emitidospor vezes de tão longe, mas logo tão presentesque a densidade aumenta e despertam novos sóis.&lt;br /&gt;Porque é muito espaçosa esta arte dos amigos:não tocam no rebordo de uma natureza frágil senão para curar e afagar.&lt;br /&gt;Se há um turbilhão eles não se distanciamconhecem que é o tempo a querer desmanchar o espaçoe por isso dão-se espaço e apuram-se mais tempo.&lt;br /&gt;Se há nuvens, deixam-nas passar.Rodam bem por cima em orbitação dirunae quando as nuvens passam estão onde amam estar.&lt;br /&gt;2 «Almoço do trolha // Pobríssimos / as cabeças cortadas / mas tão felizes / homem mulher e bebé / de um tijolo / do patrão / fizeram assento / o Estado Novo impede-os / de tirar os sapatos / o Partido Comunista também / desce sobre eles / o Espírito Santo / do almoço / vão comer língua?» (Clube da Poetisa Morta 19) Face a um regime a que repugnava o pé descalço e que escondia a mendicidade, o Partido Comunista, supondo-se não hipócrita, reivindicava como seus os valores da «dignidade» que o Estado Novo policiava como «compostura». Tratava-se de dar a uma questão política um consenso de «arte», pois «é preciso ter boas maneiras / em toda a parte / especialmente / em questões de Arte.» (Sete rios 60) A arte é um análogo das boas maneiras, e se calhar tanto mais quanto essa arte for questões de Arte.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="figuras"&gt;&lt;/a&gt;CAPÍTULO V&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;FIGURAS DA EXPERIÊNCIA &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O mundo é uma casa de passecom as paredes salpicadas de framboesa&lt;br /&gt;O mundo é um matadouro disfarçadocom as paredes forradas de cetim(Adília Lopes, Sete rios entre campos 44)&lt;br /&gt;As inexactidões da «pessoa» destoam da chamada «perfeição» para que tende o mundo. Assim como o Sr. de La Palice será vítima da «entropia», há quem seja vítima de Beethoven (Para Elisa!), ou de uma observação de Pessoa sobre Milton. No caso do Para Elisa, uns dias a peça era tocada pior e outros menos bem do que quando se merecera os cumprimentos de uma pessoa que se estimava — depois do cumprimento, o intérprete nunca acertava com aquele seu dia triunfal (O Decote da Dama de Espadas 52-3) Os desastres de Sophia do eu — que começam por decorrer dos exageros da espontaneidade, mas também dos excessos do zelo e do são desejar, que tudo deitam a perder porque justamente comprometem a mesma espontaneidade — são postos na perspectiva da «pessoa» colocada sob a expectativa da aprovação do outro. Este, todavia, ou tem mais em que pense, ou é incapaz de significar o que quer por inequívocos sinais. Atina-se por acaso e depois é hoje e é eu; é-se susceptível a uma palavra casual, «indiferente», que se torna oracular e cai num «eu» com uma força de destino que o transforma em saco roto. No caso da observação pessoana tornada observação pessoal por uma atenção delirante (por um delírio de deferência e de respeito), também a vida escapa à excelência, impondo a «pessoa» à autora, que acaba a «dar erros de ortografia» e a «esfregar o chão numa casa de passe» onde «os clientes e as prostitutas» são «mais afáveis do que Milton». (Idem 54-5) Retoma-se O Poeta de Pondichéry (1986), vítima como «pessoa» de Diderot; e antecipa-se o bordel de Maria Cristina Martins (1992), talvez com um estado anterior no armazém de A Pão e Água de Colónia (1987) que não restitui a avó e a mãe originais. A última casa antes do nada parece uma forma cómica de salvar o optimismo quanto ao mundo concebido como melhor mundo possível. O desastre dá origem a uma resposta estética não apósita; a vítima indicia a mesma estética como inadequada, ou já o monólogo transcendental.As vantagens estranhas de se viver no melhor mundo possível descobrem-se na substituição dos «originais» por «falsos» ou «derivados»: a casa pelo armazém, mãe e avó por aproximações, a nursery pelo bordel, Milton por prostitutas e fregueses; o Para Elisa por chocolate quente e comprimidos para dormir, um vestido infeliz por uns botões mais inexpressivos, uns brincos por uns anéis. Nos dois últimos casos, e o procedimento é muito corrente na obra de Adília, as «pessoas» que se regozijam com o mundo enunciam uma doxa anterior ao presente estado do mundo. Invoca-se a Providência, sabido que é que escreve Deus direito por linhas tortas:&lt;br /&gt;as duas meninas acederam de boa vontadeficou cada uma com o seu anele não se cansaram de espantarcom o destino que tudo encadeia e concertase tivéssemos as orelhas furadassó podíamos usar o par de brincos à vez.(O Decote da Dama de Espadas 68)&lt;br /&gt;para chegar a estes botõesfoi preciso comprar aquele vestido infeliznão há acasosno encontro e desencontrodas pessoas com os vestidos(Idem 69)&lt;br /&gt;Tudo isto se joga no desajuste entre a satisfação esperada e a satisfação obtida. Em torno desse desatado configuram-se ficções diversas. Fica-se com o pouco que se transforma em grandeza do destino; a «pessoa conclui-se numa história de clara derivação infantil-popular, esquivando-se a qualquer estado de saciedade imaginária: o completo que a deixa para trás na larga romaria das pequenas e grandes histórias, que são consequência e causalidade, não cessa de espantá-la. A história acaba para que não cesse a «pessoa»; a história tem uma moral e ter uma moral é ser «pessoa» que se contenta com «pouco». Ao invés, uma «moral» torna uma história conclusiva, limpando-a de todas as aderências do acaso; a «pessoa» é agarrada pelo «pouco»; e o âmbito de aplicação da moral da história é restrito e é nulo — diz apenas respeito ao domínio de objectos da história, ou seja, aos encontros e desencontros das pessoas… com os vestidos (ir)respectivos. Aplicando às ocorrências uns óculos «estruturais», muito parecerá que a pessoa é um si que, buscando-se a si destinado, adopta algum desirmanado como seu objecto de concretização e de favor. Conforme se perspective o desemparelhamento (conforme domine ou não a história), assim as subtis variações do humor e do cómico que todavia tendem a rodar em torno da inabilitação do «eu» como «pessoa», que ou é ressalvada pela (moral da) história ou passa ao lado da história. Aliás, também aqui as variações são muitas e todas com interesse. A pessoa é o que volta a si pela nenhuma diferença com as pessoas, o que é talvez uma variante sobre a presença positiva e «nula» do eu da enunciação; a falta de jeito da «pessoa» sobrepõe-se nolens volens ao indiferente contar-se das histórias, que antecede a «pessoa» para ser «mundo»; a «pessoa» encontra-se em histórias que não são suas e muito como não pode deixar de dizer «eu»; a «pessoa» é vítima obstinada e inocente das histórias alheias, que extraem da inocência da «pessoa» — muitas vezes social, e logo doxa — uma experiência que em rigor a «pessoa» não tem. A «pessoa» está em algum «livro», tal como está em algum «eu», em alguma «história», em algum «mundo» — nalgum completo que o é, dir-se-ia, porque nele não há um lugar para si. Como a história não pode deixar de ser história e logo chegar a fim como quem a uma moral chegasse, consegue-se ser uma personagem de Berthe Bernage (a quem ainda por cima foram restituídas características e episódios postos sob tabu como a menarca ou o assédio sexual infantil) numa história eticamente avançada: é o caso da Continuação do Fim do Mundo. A «pessoa» é uma Sofia que não aprende com os desastres, não adquire experiência, antes se acha adquirida por esta e desde sempre. Esta estranhíssima sabedoria da «pessoa», que é um D. Quixote de espécie nova, decorre de não se dar por achada numa história para onde ninguém a convidou.O «romance» dos brincos é submetido a «bifurcação sucessiva» (divergência e aumento de incerteza), finda a qual fica a «(outra) pessoa» — um diferencial de satisfação esperada/conseguida que impõe (i) a exclusão da «pessoa» a partir da identidade da «pessoa» com qualquer outra «pessoa» e (ii) o sucedâneo ou o derivado. Este é tal no «romance» que a «pessoa», posta na história dos outros, deve contentar-se com a (boa) intenção alheia. A operação é lógica e fundada em binários, ou seja, é uma moral inamovível, graças ao que o evento recupera, na própria intenção, da disjunção entre intenção e evento. A «pessoa» adopta o que a faz «pessoa»: a transformação da experiência em comunicação que torna a doxa um paradoxo.&lt;br /&gt;Divido a minha vidaem duas partesuma em que tinha orelhase não tinha brincosuma em que já não tinha orelhase toda a gente me dava brincospara me consolar de duas coisasde não ter orelhase de não ter tido brincosquando tinha orelhasde todos nós assim era eu sóporque orelhas tinha duas(A Pão e Água de Colónia, sublinho)&lt;br /&gt;Na forma exemplar de um desastre de Sophia, em todos os casos gera-se uma figura da experiência que, no momento em que surge, surge para anteceder toda a «juventude moral». A meu ver, o qui pro quo tem as ocorrências mais notáveis em três textos: no encontro com a «cena primitiva» transcrita para cães rafeiros, em O Decote da Dama de Espadas; no último poema de Um Jogo Bastante Perigoso; e num aforismo de Irmã Barata, Irmã Batata. A inocência comunicada é pervertida a latere, transformando-se em cinema sem banda sonora; o que não aconteceu existe como comunicação e maximamente; a diferença entre esperado e obtido, intenção e evento pode ser apenas uma diferença de ênfase — decorrer «logicamente». Em várias modalidades, um conhecimento vem negar a inocência e quase sem contacto. A inocência é experiência, e logo continuação de algo. A «pessoa» posta no mundo dá a ver que o mesmo «mundo» é desde sempre o fim do mundo «continuado» — descontinuado, vale dizer de um Éden ou de uma Origem. Afirma-se uma incerteza no aparentemente mais certo (ou no mais expectável); dispensam-se factos e existência. A «pessoa» está no mundo e o mundo é experiência, mesmo quando ainda não se experimentou. Ser «pessoa» é ser-se antecedido pelo mundo. Começa-se por se ser violado e todo o início é a posteriori. (A Continuação 90) A «pessoa» é uma função da entropia, na medida em que ser-se «pessoa» é ser-se expelido da Presença para a incerteza. A experiência é aquela mácula original que justamente nega a existência de uma Origem. Ser-se «pessoa», enfim, é ver desmentido o monólogo transcendental pelo mundo provável. O poema de Carlos Poças Falcão pode servir como exemplificação de uma negação do mundo provável pelo monólogo transcendental. Cito os textos:&lt;br /&gt;A menina, aflita, gritou à mãe:— O outro vai matá-lo!Mas a mãe, embaraçada, calou-a:— Não. É um cão e uma cadela. Não olhes para lá.Então a menina tapou os ouvidos.(O Decote 26)&lt;br /&gt;O que me custoufoi tudo ter acabadocomo tinha começadocomo se nada se tivesse passadoduranteora o que se passou duranteainda hoje me incomodae portanto deve ter acontecido(Um Jogo Bastante Perigoso 59)&lt;br /&gt;Roubei uma vez um livro de uma biblioteca pequeníssima. Foi a tradução inglesa do Frei Luís de Sousa feita por Edgar Prestage no princípio do século. Fui ver se o «Ninguém!» tinha sido traduzido por «Nobody!» ou «No one!». Foi traduzido por «No one». (Irmã Barata, Irmã Batata 7)&lt;br /&gt;A experiência é um erro sobrevivente (e logo, num certo sentido, a inocência).&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="favor"&gt;&lt;/a&gt;CAPÍTULO VI&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;JUSTIÇA POÉTICA, PSICOLOGIA E REPRESENTAÇÃO DE FAVOR&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O meu sentido de humor é o meu sentido de amor sem ironia.(Adília Lopes, «A Minha Filha» 81)&lt;br /&gt;Considerar a sobrevivência do erro como futilidade, e transformar a poesia em filosofia no bordel.(Nathan McWilliams)&lt;br /&gt;À conta do seu desprendimento «cómico», a linguagem de O Poeta de Pondichéry, de Maria Cristina Martins e de A Continuação do Fim do Mundo adquire a densidade e a complexidade da vida própria. Defendo agora a sua «literariedade». Torna-se não apenas «apropriada» a situações imediatas, mas também ao projecto abrangente, que, sendo «romanesco» ou mesmo «dramático», tem também a ver com o «mundo». As «pessoas» seguem um «prestígio» (Diderot, M. le Prince, o Amor) que as conduz à «tuerie» com a obstinação «quixotesca» de uma doxa não muito longe da etiqueta ou das boas maneiras (e também dos bons sentimentos), e que atropela o princípio da realidade. Aqui não importa que a história, por condição, decorra e se afaste da Origem através de um encadeamento de «consequência» e de «lógica»:&lt;br /&gt;O lar da terceira idadeque se seguiuàs doençasque se seguiramaos maus empregosque se seguiramao desempregoque se seguiu ao suicídioque se seguiu à sidaque se seguiuà drogaque se seguiuà violaçãonão aflige Túlionem Maria Andradeque começarampor ser violadosmas que em todo o lugartêm espaço para sonharmesmo no não lugardentro da cabeçae do cuque a violação foinos consultóriosdo Dr. Figueiredo Nunese da Dra. Malheirosa posterioricom a cama de casalcom o pinheiro bravoquase entrandopela janelade permeio.(A Continuação 90)&lt;br /&gt;A imagem instantânea e estilisticamente não tratada reaparece, modificada em si ou notoriamente pelo contexto — caso do pinheiro de fálica presença que antes fora árvore de Natal —, e em geral impondo uma nova possibilidade da «história» em mais um começo a posteriori. Amplifica a relação entre eventos e personagens, ou antes, o desencontro entre «pessoas», como focos de intenções — e acontecimentos, como objectos de intenções, a que, todavia, são indiferentes. Desprende-os de uma estrita causalidade e concede-lhes significações mais abstractas. As imagens funcionam por toda a obra independentemente da intriga — por um efeito de construção, em Maria Cristina Martins a história não cessa de começar —, solicitando ao leitor respostas motivadas pela situação romanesca ou dramática mas não de todo a ela acorrentadas. Enfim, a diferença entre o conhecimento da personagem e o conhecimento do leitor não é do tipo habitual nas ironias. O que o leitor sabe não é a verdade avessa do que sabe (ou, em rigor, ignora) a personagem. Não é difícil perceber que o contexto onde se move a personagem é contínuo ou construído com algum saber do leitor, que é uma superioridade sobre a «pessoa». Mas o ethos da personagem é impossível naquele contexto que é ao leitor tão complacente. A personagem move-se como um clown trágico num ambiente que lhe é hostil. As palavras que a «a dor» lhe arranca não comovem penedos com a dignidade humana nem elucidam os Fados, que são surdos: «Guilherme chamava-se Hipólito»; (Maria Cristina Martins 62) não há acasos nos encontros e desencontros das pessoas com os vestidos.A personagem não é No one!, porém No one. Constantemente violada (e também pelo leitor), a personagem vive em todo o lugar: casa de fazendas, bordel, prisão onde escreve com as unhas — indiferentemente dentro «da cabeça / e do cu». Lembremos a bifurcação sucessiva, que é a continuidade por consequência, e que penso eu que seja também utilizada como uma figura do afastamento irreversível da fonte e da origem, tal que não há conservação de «energia», estabilidade da «figura», pureza da identidade ou do sentido que se suporiam dados à partida, e adequação do ser ao mundo. Às quebras da necessidade na suposta perfeição daquele — que são por si só «experiência» e por si só antecedem e impossibilitam uma qualquer nudez edénica, seja ela estética ou moral — corresponde a figura de Babel a que, mais tarde, se irão opor o «Pentecostes» e a «linguística histórica». E, já agora, a «lógica da batata», nunca longe do humor.Descrevo a emergência de uma segunda fase na obra de Adília a que, suponho eu, serve a primeira de fundamento.O humor que adopta uma perspectiva contrária ao «humano» — humano definido por «Kant», por «Comte» e pelas gramáticas normalizadas de todas as boas linguagens e boas formas — assume por isso (i) a superfície abstracta das coisas, então manejáveis por uma aritmética simples ou por um método e noções claras: dispõe «as complexidades da vida humana numa ‘forma tabular’». (Nussbaum, 1995: 1) Em seguida, o «cálculo» que circunscreve a superfície das vidas para colar o plano delas numa página sem profundidade (ii) confronta-se com um peculiar contar pelos dedos (coisa corporal, analógica, «didáctica») que exibe a desadequação da contagem ao modus vivendi. O que os dedos contam é o que as «noções» julgam infinitamente fútil; e contar pelos dedos deixa a vida no seu andar para cá e para lá. A lógica não é o árbitro do diverso. Não há um árbitro do diverso. Na forma da lógica, o conceito é desviado para clown a cuja muda e inexpressiva causticidade — proveniente da sua mobilidade e da sua insensibilidade ao contexto — nenhum jurídico nem nenhum costume podem opor reserva e seriedade. Há costumes, há pessoas; pessoas e costumes improvisam jurisdições. A indiferença da forma ao conteúdo torna-se, como quem diz, justiça poética exercida sobre os encadeados mecânicos do «mundo» — e sobre o sujeito que se presumiu autofundado e, que, em boa verdade, se refugiou na poesia que lhe acenava, talvez, com a sua condição de coisa lírica. Representações segundas em Adília (pastiches, paródias, citações com autoridade, sem autoridade e desautorizadas, redução do ícone ao grafito, tradução da obra de referência num poema que se fica pela epígrafe, o poema como comentário «filológico», etc.) não envolvem nostalgia. A nostalgia como recurso «meta-psicológico» de onde se extrai uma arte (um ideal) não acontece em Adília. A «pessoa» evita a melancolia que alucina um todo (orgânico) onde antes estivera (mas já não está) ou uma tradição ou a composição racional. Põe em causa a subjectividade excepcional e não empírica que funciona como uma Causa Transcendental. Nem centro de uma intimidade onde se originam formas únicas, tão orbiculares e rematadas como ela, nem o «eu» distinto produzido pela elegia manhosamente magoada.O estado segundo das representações invadidas pelo pormenor impertinente contraria a lógica da representação enquanto representação da lógica. A poesia não é aqui a encenação manicurada sobre o «eu» da apropositação, da proximidade e da Voz, dos pares conceituais (forma-matéria, sujeito-objecto…) que são o nocional imaculado e colocam ao dispor do monólogo «uma mecânica conceptual, à qual nada pode resistir.» (Heidegger, 1991: 20)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a name="batata"&gt;&lt;/a&gt;CAPÍTULO VII&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A LÓGICA DA BATATA&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É extraordinária a persistência do reconhecimento impensado da poesia como estética — forma, bom gestalt e boa forma — , que permite a sua utilização como transdutor estético das outras artes (cf. os tropos ekphrásticos em torno do Museu Imaginário), e muito à margem de transformações ocorridas nessas outras artes. No seu reduto estético, as mais das vezes é transcendência e graça; tanto a construção verbal como a oração elegíaca rodeiam uma Ideia, um Logos. São o Som do Sentido, his master’s voice.(Marta Pulgar)&lt;br /&gt;Em A Pão e Água de Colónia, livro que abre com o détournement de Chomsky (da sua gramática lógica) que «bifurca» a diferença entre uma arma verdadeira e uma arma de sabão (O Inimigo Público nº 1 de Woody Allen?), o «cogital» e o seu «conceito» são desfeitos e refeitos, jogados entre palavras. Em vez do «ego» que seria o fecho de abóbada do conceito, o conceito como um «brinquedo», uma paranomásia insignificativa (l-egos/egos), a que me proponho acrescentar o topónimo Selfridge. Consente-se que a personalidade exista por condições de matéria, sem «egos», examinável como um conceito decomponível em peças (cientificamente) e não como um pleno nocional imaculável (filosoficamente). Assim, sete rios entre campos mais tarde:&lt;br /&gt;A Classificação Colonfoi inventada por Ranganathannos anos 20ao ver um mecanonos armazéns Selfridgeem Londresassim um conceitoé um brinquedodecomponível em peças Legospersonalidade matéria energia espaço e tempo(não consta que Raganathan tivesse problemas de egos)(Sete rios entre campos 62)1&lt;br /&gt;Como se sabe — o que até torna a datação pertinente —, problemas de egos estão no centro das poéticas modernistas, a título de piedade «orgânica». À redução científica do conceptual acrescenta-se, aliás, uma lição ainda científica. O que a ciência, esse inimigo jurado da «poesia», submete a decomposição no domínio dos conceitos apresenta-se na vida como mistura; a mesma pureza não se obteria, se alguma vez se obtivesse, sem custos de entropia. O «eu» e o «tu» tinham afinal a forma impura «outra pessoa», que somente o «livro» poderia acolher na sua nursery, de resto não muito longe de uma casa de passe recorrente (capaz de acolher, porque as gentes são clientes e provisórias, e o mundo um vale de lágrimas que é um vale de risos). O puro conceptual não guarda nenhuma coisa consigo, e num invólucro de brancura; por mais que amavioso e baixinho chore, um «eu» não introjecta uma perfeição tal que lhe permita idealizar-se redondo mesmo. Tudo é diverso entre diversos e a posse (o egoísmo) uma realidade que se aprende partilhada:&lt;br /&gt;depois ouvimos falar na entropiaaprendemos que não se separa de graçao doce de framboesa do remédio misturadosé assim nos livrosé assim nas infânciase os livros são como as infânciasque são como as pombinhas da Catrinauma é minha outra é tuaoutra é doutra pessoa.(O Decote da Dama de Espadas 12)&lt;br /&gt;A «entropia» é de resto uma das figuras da obra de Adília Lopes. Dir-se-ia que num primeiro momento a «entropia» transforma o «eu» em (outra) «pessoa», ou o vitimiza em «bifurcação sucessiva» — no caso de A Pão e Água de Colónia, em Sr. de la Palice. A fatuidade do ego é derrotada pela inanidade máxima do conceito:&lt;br /&gt;o Sr. de la Palice foi uma vítimada entropiapor isso mesmoquanto a mimas suas máximas são as mais radicais.(A Pão e Água de Colónia)&lt;br /&gt;A Adília cristã virá a afirmar juntamente com a entropia a neg-entropia, adequadamente contextualizada com a redefinição do ego cogital em termos de desejo, trocando ainda ou mudando de condição «pessoa» e «história», inocência e experiência, verdade e autoridade, e a apetência do conceito pelo ser. «Histórias» terão o fim que é agora a sua lei de consequência, seta de tempo e lei leteia; pelo desejo, «pessoas» são eus que não cessam de ser; ainda que mais experiente do que «logicamente» poderá ser, a «pessoa» será sempre verde (é sua condição ressuscitar); a frágil sageza comum consiste em máximas de ocasião que são coeficientes erráticos de correcção de acções e que, em princípio, autorizam qualquer boca; não há ser sem estar:&lt;br /&gt;A segunda lei da Termodinâmicaa lei leteiaa seta do tempoa serpente do Paraísoa entropia existemas também o Novo Testamentoe as sete artesexistempara a contrariar(desejo, logo soue eu não acabo de ser)(Florbela Espanca espanca 10, sublinho)&lt;br /&gt;Mais afirmativamente:&lt;br /&gt;Estou verde como o mar ao meio-dia. Estou contente. O mundo não acaba. A entropia não aumenta sempre porque o mundo não é um sistema isolado. Acho que do outro lado está Deus. O mundo e Deus comunicam. (Irmã Barata, Irmã Batata 19)&lt;br /&gt;Sagrado e vulgar como a vida, o «eu» é afirmação e negação e não um protesto de candura:&lt;br /&gt;Sou e estou. Eu sou eu e a minha circunstância, como disse Júlio Iglésias. Eu não sou eu. Eu sou aquela que não sou. Não, que disparate, eu sou eu. Já morremos todos e já ressuscitámos todos. Agora há que viver a vida.&lt;br /&gt;O Diabo é aquele que diz «Eu sou aquele que não sou». Sou eu às vezes. (Irmã Barata 22)&lt;br /&gt;Na primeira Adília, por um lado, a clausura conceptual era transformada em insanidade conceptual, adstrita a duas figuras da «entropia» — «pessoa» e opinião (Sr. de La Palice, «quanto a mim») — que não consentem que se diga «eu» sem que eo ipso a mesma «entropia» seja corroborada; e, por outro lado, em «mistura», que, não consentindo a pureza e obrigando à «infância» experiente e ao «livro», não podia resgatar-se de graça. Na segunda Adília, por obra das «sete graças» e da graça, o «eu» que é desejo rompe a clausura conceptual. Mas esse «eu» é agora marcado pelo género sexual. O «eu» que não é pretexto conceituoso é feminino; Adão é a figura narcísica do conceito, o sujeito cogital que diz não a Eva, e não sem analogia com o diabo:&lt;br /&gt;os homensque escreveramo Génesisnão pensaramque Adãoem vez de saudarEva com um grito de júbiloa mandasse emboracom sete pedras na mão.(Clube da Poetisa Morta 24);&lt;br /&gt;Adão também se reconheceu no espelho. Mas Adão era Narciso e sabia que era Narciso. Achou imediatamente que no Paraíso fazia falta a Fundação Adão. (Irmã Barata, Irmã Batata 18)&lt;br /&gt;A obra é muito sensível a uma incongruência não remível nem pelo «eu» nem pelo «conceito». Parece ser possível e conveniente substituir o rigor pelo à peu près. Recorro a uma história ultrajante, da primeira fase:&lt;br /&gt;Minha avó e minha mãeperdia-as de vista num grande armazéma fazer compras de Natalhoje trabalho eu mesma para o armazémque por sua vez tem tomado conta de mimuma avó e uma mãe foram-meentretanto devolvidasmas não eram bem as minhasficámos porém umas com as outraspara não arranjarmos complicações.(A Pão e Água de Colónia, sublinho)&lt;br /&gt;A fábula tem inegavelmente um sabor kafkiano, e logo pelo pequeno funcionário cumpridor que existe pela organização e se obstina numa espécie de greve de zelo que presume o sentido no sem-sentido e por isso mesmo o compromete «subjectivamente». Nas costas do conceito que manda contar até Um, aparece uma avó como figura do excesso — como nos diz o texto, Mãe há só uma (e quando é uma, não é a Mãe) —, e aparece a empresa que se torna a casa burocrático-metafísica do sujeito, cumprindo aproximativamente os prazos de garantia do Um.A ideia geral parece ser que o mundo transborda de «observáveis». Em A Pão e Água de Colónia, o que excede é da ordem do pormenor que por norma sobra à definição do todo pelo conceito, e que, quanto mais mínimo e incongruente, mais contesta no mundo a noção de todo. Há uma «exactidão» no pormenor, dispensável na transcrição de um conjunto em «forma tabular», que é exactamente sem sentido e sem conceito (mas não inefável); e, dado que o pormenor é solidário de outros pormenores, tão indefinidamente «parafraseável» como uma metáfora. O pormenor é contingência e introduz um desarranjo na consequência das histórias. É uma versão menor e desviada da questão filosófica «porque é que há ser em vez de nada?». A epígrafe do Poeta de Pondichéry:&lt;br /&gt;Porque é que o mau poeta deve ir para Pondichéry e não para outro lugar? Porque é que os seus pais são joalheiros? Porque é que juntou 100 000 francos? E porque é que passou doze anos em Pondichéry? Não sei explicar. O que me atrai é precisamente isto: Pondichéry, pais joalheiros, 100 000 francos, doze anos (O Poeta de Pondichéry 11)&lt;br /&gt;Veja-se também as «Microbiografias», e esta por todas:Um quadro de Ensorque tinha sido roubadoestava enterrado a 30 cm de profundidadena praia belga de Mariakerke.&lt;br /&gt;O que teríamos no «mundo» seria da ordem de um excesso nada enfático: efeito sem causa, crença sem fundamento, conclusão sem premissa, acção sem motivo. Na melhor Adília, disjunção e incerteza regem o sentido da vida, sem restrições à presteza enunciadora. Em «La Boîte à Tokyo», a demanda conclui-se com a integração do título no poema pela rima e não pela razão. O que o título promete salda-se numa decepção sage do sentido. A moral da história coincide com uma história que falha à conclusividade:&lt;br /&gt;LA BOÎTE À TOKYO&lt;br /&gt;Aquele que a procuraainda não voltouou porque ainda a procuraou porque já a encontrou.&lt;br /&gt;Esta caixa, se caixa é, pode ser a que (re)aparece em Irmã Barata, Irmã Batata. Aqui, a simplificação pela «lógica» evidencia a ausência de certeza (e por isso, em certo sentido, torna evidente a entropia, na medida em que esta seja uma incerteza que não decresce):&lt;br /&gt;Há uma caixa em Paris que tem uma pulga dentro. A caixa é rectangular e está dividida ao meio por uma divisória. Pode-se separar a caixa nas duas metades sem abrir a caixa. A caixa é opaca. A pulga ou está numa metade da caixa ou está na outra. Separa-se a caixa nas duas metades. Leva-se uma metade para Tóquio, deixa-se a outra metade em Paris. Agora a pulga ou está em Paris ou está em Tóquio. Há 50% de probabilidades de a pulga estar e Paris e há 50% de probabilidades de a pulga estar em Tóquio até se abrir uma das metades da caixa. Mas, quando se abre uma das metades da caixa, não há a certeza de a pulga estar em Paris ou em Tóquio. (Irmã, 17-8)&lt;br /&gt;Para a segunda Adília, a «lógica da batata» funciona, porém, como o fizeram os enunciados pirrónicos do cepticismo ante Descartes. Como igualmente supunham uma relação de consequência entre mundo e Deus, ao invalidarem o mundo validavam Deus. Continuando a permitir o começo abrupto que significa a primazia da acção ou do evento sobre a explicação («A minha tia Graça atirou-se de um 60 andar abaixo. Morreu.», Irmã Barata 7), antes de Deus a batata da lógica permitia validar a ausência de conclusão face aos eventos do mundo (a dissociação entre intenção inábil e o objecto irregular) ou a conclusão fraca e o silogismo menor que por norma debilitavam toda a moral, e logo a das histórias que seguem lépidas e não esperam por ninguém. Os eventos e objectos eram objectos e eventos fingidos por linguagens; sem grande sentido os cuidados de precisão; e fátua ou tola (inabilidade trágica, se há personagem) a conclusão para que se precipitam linguagens e histórias. Ana Bela é nome de guerra; a guerra que se prepara é uma marca de impermeáveis, os quais, e tanto pior para as seguranças da virtude, podem fazer a felicidade de alguns:&lt;br /&gt;a Ana Bela é que já deve ter descobertoque os impermeáveis Parabellumnão fazem a a felicidade de toda a gente.(Um Jogo 21, sublinho)&lt;br /&gt;Ant
